Título: Insegurança faz fornecedor reduzir estimativa de venda
Autor: Magalhães, Heloisa e Moreira, Talita
Fonte: Valor Econômico, 05/10/2006, Empresas, p. B3

A insegurança regulatória está contaminando o setor de telecomunicações. Embora haja perspectivas de investimentos em novas tecnologias, a falta de definições da Agência Nacional das Telecomunicações (Anatel), os desencontros do órgão regulador com o ministério das Comunicações e disputas judiciais estão contribuindo para que os fornecedores de equipamentos joguem para baixo a expectativa de vendas para este ano e boa parte de 2007.

As encomendas no segmento de telefonia fixa em 2006 devem ficar na casa dos R$ 4 bilhões a R$ 5 bilhões e, na telefonia celular, entre R$ 6 bilhões e R$ 7 bilhões, segundo estimativas de fabricantes. Não são números desprezíveis, embora nada semelhantes aos do período pós-privatização, quando só para atender as normas de universalização as operadoras fixas chegaram a investir R$ 20 bilhões por ano. Não é esperada a repetição daquele período, mas os fornecedores aguardam ansiosamente a abertura de novas oportunidades com encomendas de soluções para WiMax, a banda larga sem fio, IPTV, a televisão por meio do protocolo da internet, e a terceira geração da telefonia celular. São tecnologias que ou aguardam definições do órgão regulador ou estão em disputas judiciais.

Entre executivos de grandes empresas presentes à Futurecom, congresso do setor que começou na segunda-feira e encerra-se hoje em Florianópolis, a expectativa agora é em torno do resultado das eleições presidenciais e de que isso traga, conseqüentemente, mudanças para o setor. Caso o presidente Lula seja reeleito, a avaliação é de que haverá um enfraquecimento maior da agência reguladora, aumentando as indefinições. No próprio evento, ficou claro o embate entre o ministério e a Anatel, após discurso do ministro Hélio Costa em que ele questionou publicamente o papel e decisões da agência.

Por outro lado, caso Geraldo Alckmin (PSDB) seja vitorioso, a perspectiva é de acontecer exatamente o contrário. O governo tucano de Fernando Henrique Cardoso criou as agências reguladoras e lhes deu independência. Naquele período, foi estabelecido um projeto para o setor, algo de que os executivos sentem falta atualmente. No cenário das privatizações, foi definido um projeto para a área de telecomunicações fixando objetivos até 2005.

"Foram quatro anos de discussões, envolvendo o Congresso e a comunidade do setor e foram realizados road shows com especialistas estrangeiros para se chegar a uma proposta. Houve erros e acertos, mas havia um plano, agora o setor não tem uma estratégia", disse ao Valor o ex-ministro das Comunicações no governo FHC e hoje consultor, Juarez Quadros. Ele observou que está na hora, inclusive, de rediscutir a Lei Geral das Telecomunicações, uma vez que há dez anos não se imaginava que a tecnologia iria oferecer soluções que atropelam as grandes operadoras de telefonia fixa.

Para outro consultor, que pediu para não ser identificado, existe uma confusão entre políticas de Estado e de governo. Na avaliação dele, Lula não mexeu na política de Estado, uma vez que os órgãos reguladores continuam existindo - apenas deu outro caráter a eles.

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Segundo o principal executivo da área de telecomunicações da Siemens, Aluízio Byrro os investimentos acontecem quando ambiente regulatório é estável e o retorno é consistente. Ele lembrou que as encomendas da telefonia celular neste ano só vão atingir a faixa os R$ 7 bilhões porque houve a encomenda da nova rede GSM da Vivo (estimada em valor próximo a R$ 1 bilhão). Porém, ele observou que a expectativa de investimento no futuro é incerto, pois as operadoras brasileiras não têm estímulo para ampliar as redes. Embora o número de assinantes de celular esteja crescendo, a receita média por cliente está entre as mais baixas do mundo - US$ 3 mensais para os adeptos dos pré-pagos, que representam 80% da base de 95 milhões de acessos.

Para redução dos investimentos, o conselheiro da Anatel José Leite Pereira Filho sugeriu que as operadoras compartilhem uma rede única na terceira geração, em especial nas cidades com população inferior a 500 mil habitantes. O presidente da Vivo, Roberto Lima, rapidamente engrossou o coro e sugeriu a criação de uma empresa da qual as teles seriam acionistas.

Essa proposta, que poderia ser rechaçada por fabricantes, uma vez que reduz as compras, foi, pelo contrário, aplaudida. Não só Byrro, da Siemens, aprovou a idéia, como também o presidente da Lucent, Wagner Ferreira. "Ao menos teremos uma grande encomenda", disse o executivo, que sente uma redução das vendas desde o segundo trimestre do ano. "Há muitas indefinições no ambiente regulatório."

Segundo Ferreira, o Brasil corre o risco de ficar defasado na terceira geração. Já o principal executivo da Nortel no Brasil, Juan Chico, não pensa assim. Ele disse acreditar que o WiMax pode ser uma alternativa e não é por acaso que tanto operadoras móveis como fixas querem disputar uma licença.

"A falta de definições e transparência no modelo regulatório brasileiro atrapalham os investimentos das teles. O Brasil necessita de uma política industrial de telecomunicações, um setor que alavanca o crescimento do país", avaliou o vice-presidente de tecnologia e marketing da Ericsson, Jesper Rhode.

De acordo com ele, a companhia sueca deverá fechar 2006 com faturamento estável no Brasil em relação ao ano passado. Rhode afirmou que as encomendas diminuíram no segundo semestre e o que sustentou a empresa foi o contrato da rede GSM da Vivo. O executivo afirmou esperar que até a metade de 2007 sejam resolvidas as pendências regulatórias. "Se isso não acontecer, será ruim para nós", disse.

"Os interesses das operadoras estão convergindo para coisas novas, mas as vendas não estão rápidas como no ano passado", afirmou o diretor de negócios da japonesa Nec, Herberto Yamamuro. Também para essa empresa, foi no segundo semestre que as coisas pioraram. Segundo o executivo, a companhia está enfrentando dificuldades para alcançar a meta de crescer 10% em receita neste ano.

As jornalistas viajaram a convite da organização da Futurecom