Título: Voracidade fiscal inibe o crédito
Autor: Saldo de empréstimos deve passar de 26,9% para 36%
Fonte: Valor Econômico, 01/12/2004, Finanças, p. C1

Aumentar a oferta de crédito é um dos principais desafios do sistema financeiro, concluíram banqueiros e economistas reunidos, ontem, no 3º Seminário Febraban de Economia, que ambicionou analisar as tendências dos próximos dez anos ao fazer o exercício de se colocar em 2014. A relação entre crédito e Produto Interno Bruto (PIB) ainda é muito reduzida. Ao atingir um saldo de R$ 472,878 bilhões em outubro, o estoque total de crédito chegou a 26,9% do Produto Interno Bruto (PIB), cálculo feito pelo Banco Central (BC) antes da revisão divulgada ontem pelo IBGE. O crédito para pessoa física (R$ 108,532 bilhões) é equivalente a apenas 6,8% do PIB e para pessoa jurídica, a 19% (R$ 268,413 bilhões). "Os bancos se sentem obrigados a financiar o desenvolvimento", disse o presidente da Febraban e do Bradesco, Márcio Cypriano, relacionando os culpados de sempre para justificar o tamanho acanhado do crédito: contas públicas, tributos explícitos e implícitos e a legislação. "Se os bancos não cobrassem nada, o spread já seria de partida 29,4% por causa dos tributos", disse.

Apenas os recolhimentos compulsórios, que Cypriano considera como um dos tributos implícitos, aprisionava R$ 121,284 bilhões em outubro no BC, "que poderiam ser canalizados para o crédito". O economista chefe do Bradesco, Octavio de Barros, afirmou que o elevado nível da dívida pública restringe a expansão do crédito. "A mãe de todas as soluções está na área fiscal", concordou o ex-presidente do BC, Gustavo Loyola. Para ele, o crédito ainda vai levar cinco anos para chegar a 36% do PIB, em 2009, por causa da necessidade de recursos do setor público. Somando o crédito bancário com os recursos levantados no mercado de capitais, Barros calcula que, atualmente, o crédito nesse sentido amplo represente quase 30% do PIB e chegará a 32% no próximo ano., atingindo 40% em 2009. Com isso, os ativos bancários atualmente compostos em partes iguais por títulos e valores mobiliários e crédito, teriam dois terços em crédito. Em países emergentes, a relação crédito/PIB é de 50%; em alguns países desenvolvidos, como a Alemanha, chega a mais de 100%, lembrou o secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda, Marcos Lisboa. "Ainda há muito para crescer", disse. Capacidade para ampliar o crédito os bancos têm. O índice da Basiléia, que mede a alavancagem dos bancos, está ao redor de 17% na média, bem acima dos 11% mínimos estipulados pelo Banco Central. Gustavo Loyola, ex-presidente do Banco Central e um dos palestrantes do seminário, lembrou que a securitização pode crescer mais do que o crédito tradicional nos próximos anos. Para o presidente do BankBoston, Geraldo Carbone, um "grande impeditivo" para a expansão do crédito é a informalidade. Se a informalidade diminuísse, os tributos sobre as transações financeiras até poderiam ser reduzidos. Segundo Carbone, é a informalidade que também contém o crédito no México, apesar de o país ser "investment grade", integrar o Nafta e ter juro baixo. Uma das questões mais discutidas ontem no seminário foi o crédito de longo prazo. Gustavo Franco, ex-presidente do Banco Central e sócio da Rio Bravo Investimentos, disse que os 10 anos de estabilidade econômica não se traduziram no aumento do crédito de longo prazo, para financiar o desenvolvimento e ele acredita que dificilmente isso vai acontecer nos próximos 10 anos. Eduardo Loyo, diretor de estudos especiais do Banco Central, avalia que é preciso uma estabilidade de décadas para incentivar esse tipo de crédito. Além disso, ele destaca que apenas a estabilidade de preços não é necessária. "É preciso uma estabilidade macroeconômica, com a economia crescendo de forma sustentada", disse, destacando que só assim vai ser possível direcionar a poupança privada para financiar o investimento produtivo. Lisboa, do Ministério da Fazenda, destacou as ações que o governo está tomando para incentivar o mercado de crédito e reduzir o custo de investimento. Entre elas, Lisboa citou as 21 medidas que reduzem impostos para investimentos e mudanças na legislação que criam novos tipos de crédito, como o empréstimo com desconto em folha e os novos estímulos anunciados segunda-feira ao microcrédito.