Título: "Quem quiser dividir o país vai se dar mal"
Autor: Junqueira, Caio
Fonte: Valor Econômico, 06/10/2006, Especial, p. A18
Se há algum culpado pela candidatura Geraldo Alckmin, esta pessoa é seu coordenador de programa de governo, João Carlos de Souza Meirelles. Foi assim que um assessor da campanha tucana o definiu num dia de intensa pressão sobre o candidato que não decolava nas pesquisas. Hoje, o culpado virou um dos artífices da passagem do candidato do PSDB para o segundo turno da disputa presidencial. Defensor da linha que resistia a centrar a campanha na exploração dos escândalos petistas, Meirelles se diz convicto de que não foi o dossiê que virou a disputa. E que a eleição foi o ápice de uma curva lenta mas de consistente ascensão durante a campanha.
Ex-secretário de Agricultura de Mário Covas e homem forte na era Alckmin, na qual chefiou a pasta de Ciência e Tecnologia, tornou-se nesses anos um dos principais conselheiros do hoje presidenciável tucano. Aos 71 anos e certo da vitória de Alckmin em 29 de outubro, situa-se em uma postura ofensiva ao presidente Lula e à sua equipe ao passo que, aos aliados que dele discordavam, mostra-se sereno e com um ar de que "estávamos certos". Veja a seguir a entrevista dada ontem ao Valor.
Valor: Lula deve enfocar mais ainda sua campanha neste segundo turno na "força do povo". O sr. acha que no último domingo o país saiu dividido entre ricos e pobres?
João Carlos Meirelles: Essa discussão acabou no mundo por ocasião do 20º Congresso do Partido Comunista, em 1956. Este pessoal é de antes desse Congresso. Há um clamor no mundo inteiro para que não haja essa dicotomia entre ricos e pobres, entre Estados desenvolvidos e subdesenvolvidos. O que é preciso é harmonizar o desenvolvimento. Quem pretender fazer essa dicotomia vai se dar mal, porque, evidentemente, não é essa a aspiração, nem nós a aceitamos. Pretender fazer essa divisão no mapa eleitoral é falsa. Veja só, ganhamos em lugares absolutamente inaceitáveis para eles, como no Acre. Empatamos no Sergipe. O que você tem claramente? O país precisa se desenvolver de forma harmônica. E isso não passa pela discussão de dicotomias, até porque elas não existem. Temos que resolver as causas que provocam o aglomerado nas regiões metropolitanas, que foi a falta de horizonte nos interiores do Brasil. Resolver a falta de infra-estrutura para aumentar a exportação, que é a única condição para gerar emprego e renda no país. E assim por diante. Essas outras discussões são super antigas e, mais ainda: eu não ouvi eles discutirem projetos de desenvolvimento. A não ser com essa derrapada ética do ministro Mantega, que usou seu cargo de ministro para dar entrevista de campanha. Foi o único sujeito que pretendeu discutir alguma coisa de programa de governo.
Valor: Os Estados mais produtivos ficaram com Alckmin, enquanto os menos produtivos com Lula. Estenão é um recorte?
Meirelles: Não concordo e pediria para você ver a quantidade de cestas básicas distribuídas no Estado de São Paulo. Infelizmente, não há nenhum Estado que tenha tanta pobreza como em São Paulo. Até porque muitos pobres do país vieram para cá e nós desgraçadamente não conseguimos resolver todos os problemas. Talvez o que você esteja dizendo é sobre o efeito do Bolsa-Família. Talvez tenha mais Bolsa-Família no Estado de São Paulo, mas em outros Estados o efeito eleitoral é melhor. E ele se constitui numa deformação democrática extremamente perigosa, que é o neocoronelismo. Quem é que distribui o Bolsa-Família? O prefeito do município, que cria uma relação duvidosa, se você não tiver saídas para isso. Os efeitos desse neocoronelismo são mais sentidos nas regiões mais depauperadas do país, como também nas mais depauperadas das regiões metropolitanas do Rio, Belo Horizonte e São Paulo. Além disso, o que houve no primeiro turno foi uma velocidade maior de tomada de consciência de propostas do Geraldo em alguns Estados, do que em outros, pela dificuldade de acesso à informação. Em alguns lugares a campanha não chegou. Tudo isso tem ainda outro componente, que são as relações das lideranças regionais. O prefeito está ligado ou ao deputado federal ou ao estadual. E em algumas regiões essa relação é muito mais direta. No Nordeste isso é muito claro, até mais que na região Norte. Isso tudo levou a essa configuração eleitoral. Acho que para o segundo turno, quando deixa de haver uma relação de causa e efeito do deputado estadual e federal, essa relação permitirá uma votação bem maior do Geraldo.
Valor: Lula está organizando uma reação forte a partir de comparações com FHC e colocando ministros na campanha. A ex-prefeita Marta Suplicy também ajudará na periferia de São Paulo. Isso não pode anular esse prognóstico?
Meirelles: Acho muito bom a Marta entrar na campanha porque ela perdeu para o Serra em 2004. É ótimo que ela venha. Mas o que eu quero ver e o que a população quer saber é o que você tem de programa concreto que atende expectativas de quem mora na periferia. Por esse raciocínio é que nós ganhamos eleições. A vinda desses ministros também acho muito boa, para a população poder comparar como cada um faz eleição. O governo ontem reuniu 17 ministros da República, alguns com chapa fria no carro, segundo a imprensa. E outros com carro oficial. O que é isso? Onde nós estamos? O Mantega anteontem ir para imprensa e dizer que nosso programa é isso ou aquilo? Até imaginei que ele já tivesse sido afastado do ministério para fazer campanha. Muito justo. Agora, como ministro? É um escândalo atrás do outro. Só fazem coisas equivocadas. Não é assim que se faz a boa política. E estamos encantados com o Lula estar falando agora em discutir ética. Finalmente eles vão discutir ética. Demorou quatro anos, mas agora vão discutir. E é muito bom, até porque esperamos que passem a praticar isso em suas vidas pessoais depois que saírem do governo. Só que ética é pressuposto, não é tema de discussão. Eleição não é concurso de ética. Ou você é ou não é e eles não são. Ética para nós é premissa. Acho ótimo, porque nós vamos discutir outra coisa: política de desenvolvimento. O que vamos fazer com a economia, baixar juros, melhorar relação com o dólar.
Valor: E as comparações com o governo FHC?
Meirelles: Não estamos discutindo isso. Essa discussão se faz na academia. Ela não produz efeitos porque o relógio não anda para trás. Eu estou discutindo daqui para a frente. Comparar com FHC não cola. Não tem a menor hipótese de colar. O Geraldo não foi ministro do governo FHC. As coisas certas que o governo FHC fez estão certas. As que fez erradas nós mesmos criticamos muitas vezes. Portanto, não está em discussão. FHC não é candidato. Candidato é o Lula e o Geraldo. O Lula vai fazer o quê? O que vem fazendo. E nós vamos fazer algo absolutamente novo. A discussão deles é atávica. Não tem nada a ver com a realidade eleitoral. Lula não passa da discussão do "eu descobri o Brasil, eu fiz a Petrobras". Tudo o que foi feito no Brasil foi ele. Até estou encantado agora com o próprio Mantega dizendo "vamos fazer reforma tributária". Estou encantado. Só que tudo isso já passou. O parâmetro é o que o Lula vai fazer. E nós vamos fazer a revolução que o Brasil esta esperando. Então, eles estão no passado e nós estamos no futuro.
Valor: Desde o início houve uma divisão entre os que achavam que Alckmin deveria discutir programa, no qual o sr. se inclui, e os que achavam que ele deveria bater no Lula. A virada da eleição aconteceu depois do dossiê. A turma da pancadaria estava certa?
Meirelles: Nunca na história aquele que vive de acusação ganhou eleições. Você está votando no sujeito não pelo passado, mas pela expectativa de futuro. Fomos duramente criticados por amigos, companheiros, durante toda a campanha para elevar o tom, bater. Uma coisa forte no Brasil inteiro, dizendo que tem que bater. Não tem nada que bater. Nós estamos mostrando o Brasil para o futuro.
Valor: Mas na reta final a discussão foi centrada no dossiê...
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Meirelles: Não podíamos deixar de falar, se não seria omissão. Se o Brasil inteiro esta discutindo isso e você não fala, você é um omisso.
Valor: O sr. não acredita que foi o dossiê que levou a disputa ao segundo turno?
Meirelles: Absolutamente não. Basta analisar, de forma isenta, que a curva de crescimento do Geraldo não teve salto. Seria verdade, é uma hipótese plausível, se de repente ele estivesse lá embaixo e subisse bruscamente. Não. E a trajetória de queda do Lula também é constante. Só que eles caíram muito mais do que eles previam. Na verdade, o episódio do dossiê serviu para outra coisa: excitar a eleição, que vinha morna. O dossiê foi como se dissesse: "Olha gente, tem eleição aí, e tem bandido que está preso e tal". Foi isso. E olha, não é nenhuma novidade no governo Lula esse dossiê. Trata-se de só mais um escândalo. Não há nada de novo. Seguramente, até o fim do ano surgirão outros. E em janeiro estaremos lá para fazer essa limpeza. Então, acho que foi um grande benefício o dossiê para o eleitorado. Qual a característica da estratégia da nossa campanha? Continuidade. Em nenhum momento derrapamos. Há uma faixa pela qual estamos construindo essa avenida eleitoral. Evidentemente que se passa debaixo de um poste, de uma sombra de árvore, mas a faixa é a mesma e nos últimos dias o tema do dossiê tomou todo o país e toda a imprensa. O dossiê nos empolgou, mas não nos tirou do rumo. Nós só falamos sobre isso quando seria desonesto não falar. Seria uma omissão gravíssima. O que é isso? O caboclo (Lula) está no céu? E olha que ainda assim não tiramos proveito disso.
Valor: Para este segundo turno, os quadros eleitorais estaduais são mais favoráveis a Alckmin?
Meirelles: Vamos começar pelo pior, nos Estados em que perdemos as eleições. Na Bahia, onde o PFL e seus aliados, que vinham de vitórias sucessivas há muitos e muitos mandatos, sofreu um revés e, portanto, perdeu um governo e não elegeu senador. O que isso simbolicamente significa? Fomos derrotados na Bahia? Não, não fomos. O Geraldo teve uma votação bastante expressiva na Bahia se compararmos com as votações passadas dos nossos candidatos. E agora nossos aliados na Bahia estão absolutamente empenhados na eleição do Geraldo. A solidariedade do PFL está absolutamente concentrada na possibilidade de demonstração da sua competência política, que é extraordinária. E é o que eles farão. Há os Estados em que fomos ao segundo turno: Rio Grande do Sul e Pernambuco, por exemplo. Naturalmente, o que está acontecendo agora? Uma rápida imantação. Rapidamente, você atraiu para os dois pólos a posição de que não dá para ficar mais ou menos Geraldo e mais ou menos Lula. Não dá pela peculiaridade da política local. Em Pernambuco, afastada a candidatura do PT e concentrada a nossa, vai polarizar. O que aconteceu em Pernambuco, acontecerá em outros Estados com essa situação. No Rio Grande do Sul ficou mais explícita essa polarização por conta do PT ter um candidato que já foi governador emblemático. Isso está permitindo que polarize, do outro lado, a Yeda e o Geraldo. O terceiro bloco é esse onde a eleição foi definida no primeiro turno. Os candidatos todos estão liberados. Nenhum deles tem que pensar mais em suas eleições. Vamos pegar aqui os Estados do MT, MS, SP e MG. Em Minas perdemos para o Lula, mas tivemos uma vitória espetacular. Se nós pegarmos nos registros, as pesquisas no mês de maio, junho e julho, qual era a intenção de voto do Geraldo? Era um traço. E no final ele teve mais de 40%. No MS elegemos o governador e uma senadora. Evidentemente, Lula foi para o segundo turno derrotado. Durante meses, desde 2003, o projeto do PT era ganhar as eleições sem qualquer problema. Apesar de todo prestígio pessoal, pompa e circunstância de um presidente, ele disputa o 2º turno derrotado.
Valor: No primeiro turno, vocês confiavam muito no empenho das lideranças regionais nordestinas. O que deu errado?
Meirelles: Por falta de uma visibilidade clara, muitos dos candidatos a deputado, senador, e até ao governo ficaram quase que neutros em relação à candidatura de presidente. Naqueles Estados em que o Lula tinha 60%, 70%, o indivíduo dizia "como é que eu vou fazer campanha para esse tal de Geraldo? De repente meu eleitor não quer Geraldo e eu como é que fico?" O que é um erro. Todos que pensaram assim se deram mal. Não é assim que se faz política. Política se faz com clareza. Agora, veja só, em Pernambuco, o que nós vamos ter? Uma campanha única e todo mundo junto na rua. Não tem esse negócio de que não é bom que o candidato seja identificado com o candidato Geraldo Alckmin. Agora passou a ser condição necessária.
Valor: Lula, então, entra em desvantagem no segundo turno?
Meirelles: Entramos na segunda etapa, onde 16 Estados estão sem disputa de governo. As forças políticas estão concentradas nessa escolha dual. Ou é Geraldo, ou é Lula. E, naturalmente, o que estamos percebendo é um crescimento do apoio a Geraldo Alckmin normal nos Estados, por segmentos não-convencionais da vida política, como entidades do comércio, empresários, trabalhadores. Lula entra derrotado pela simples razão de que eles deram a vitória como certa. Desde o fim do ano passado, tinham a engenharia de que ganhariam no primeiro turno e ficaram absolutamente impactados com o fato de não ter levado. Tanto é assim que você verifica essas coisas escandalosas, como reunião de ministros no Planalto para discutir campanha. Além disso, o que representa o Geraldo? Duas coisas essenciais para o Brasil neste momento: o moderno e o novo. Novo porque nunca foi candidato a presidente. Não era nome nacional. E o moderno, com linguagem moderna. Representa o médico, que no consciente popular é um sujeito sempre decente, limpo, direitinho, com cara higiênica, barbeadinho. Tudo certinho, sempre arrumado, nunca está estrupiado. Tem também uma linguagem oral nova, um discurso sempre claro, honesto, transparente, cristalino. Tem toda espontaneidade do sujeito que é autêntico. Quem não é autêntico, a frase fica falsa. Você vê o Lula querendo fazer determinadas travessuras intelectualóides. Soa falso. Ele não é intelectual.
Valor: A coligação de Alckmin elegeu na Câmara cerca de 150 deputados. A governabilidade em um eventual governo tucano não corre grande risco?
Meirelles: Há um equilíbrio de forças no Brasil hoje, o que é saudável. Só que o tratamento da governabilidade com a nossa vitória -e não vejo hipótese de vitória do Lula e do ponto da discussão sou obrigado a contemplá-lo- é completamente diferente. Até por conta do relacionamento que existe entre as bancadas do PSDB, PFL e PPS e de outros partidos que seguramente estarão conosco em um governo, não como parte do governo, mas como base de uma grande aliança nacional pela governabilidade, que, para nós, não nos preocupa. O que nos preocupa é a eficiência da relação e o respeito da relação com o Parlamento. O que é que distingue o governo do Alckmin do hipotético segundo governo do Lula? É que o modo pelo qual eles tratam o assunto é ditatorial. Eles precisam de base? Mandam comprar. Inclusive em São Paulo temos exemplos claros de insucesso político, como na eleição para a Assembléia. Depois de 10 anos, perdemos a eleição. E outro aspecto é que jamais pretendemos levar ao Congresso aquilo que não seja do efetivo interesse público. Portanto, entendemos que pode ser feito aquilo que a democracia exige, ajustes no Parlamento. Mando o projeto e o Congresso entende que não é bem assim. É esta relação que se faz. Por isso, não temos a menor preocupação nesse sentido.
Valor: Mesmo assim, para aprovar esses projetos é preciso de maioria. Vocês não correm o risco de ter que se aliar aos mesmo partidos que o governo Lula se aliou e depois teve problemas?
Meirelles: Nossa aliança na verdade é um pouco mais ampla porque houve coligação nos Estados com outros partidos que não tinham candidato a presidente. Aqui em São Paulo, por exemplo, tivemos uma coligação para a proporcional diferente da nacional. Em São Paulo e em vários outros Estados. No RS, nosso aliado é o PP, que lá é um primor de partido. Gente da melhor qualidade, de tradição, de respeito. Aqui em SP o PTB sempre esteve conosco, há anos. Temos tradição de trabalhar com aliados. Definitivamente, não estamos preocupados com essa conta, mas, seguramente, se você fizer essa soma, deve dar muito mais do que 250 deputados.