Título: Espanha negocia detalhes de socorro internacional
Autor: Toyer , Julien
Fonte: Valor Econômico, 24/08/2012, Finanças, p. C11
A Espanha está negociando com os parceiros da zona do euro condições para uma ajuda à redução dos custos de seus empréstimos, embora o país ainda não tenha tomado uma decisão final sobre o pedido de uma operação de salvamento. A informação foi dada ontem por três fontes a par do assunto. A opção preferida que está em discussão é a possibilidade de o Fundo Europeu de Estabilização Financeira (EFSF, na sigla em inglês) adquirir títulos da dívida da Espanha em leilões primários, enquanto o Banco Central Europeu (BCE) interviria no mercado secundário para baixar os rendimentos pagos.
Nenhum valor específico de ajuda foi discutido até agora nas negociações, que começaram há várias semanas, segundo informou uma das fontes à "Reuters". Outras fontes graduadas da zona do euro se mostram mais cautelosas. Uma delas disse que não há nada definido sobre uma ajuda à Espanha, enquanto que outra garantiu que não está havendo nenhuma negociação.
O gabinete do primeiro-ministro espanhol não quis comentar o assunto. Um porta-voz do Ministério da Economia disse que não há mudanças na posição espanhola, que é a de que o país vai esperar até a próxima reunião do conselho diretor do BCE, em 6 de setembro, para ter mais detalhes sobre como a autoridade monetária pretende intervir, antes de decidir por qualquer movimentação.
Neste mês, o primeiro-ministro Mariano Rajoy chegou mais perto de pedir à União Europeia um socorro financeiro para seu país, mas disse que precisava saber primeiro quais condições estariam atreladas e que tipo de resgate seria.
A Espanha é a bola da vez na crise da dívida da zona do euro, que já dura dois anos e meio, depois que seu deficitário setor bancário, que em junho pediu um socorro de € 100 bilhões, e suas regiões altamente endividadas deixaram os investidores internacionais nervosos. No mês passado, os custos dos empréstimos para o país atingiram seus maiores níveis desde o lançamento do euro há 13 anos.
"As negociações começaram e estão progredindo bem. No momento, a opção preferida, a que está sendo ativamente negociada, é o EFSF comprar bônus no mercado primário e o BCE comprar no mercado secundário", disse uma das fontes à Reuters sob condição de permanecer no anonimato.
A fonte disse que nenhum anúncio formal será feito antes de 12 de setembro, mas as coisas poderão se acelerar depois disso.
Duas das fontes disseram que um eventual anúncio deverá ocorrer algumas semanas depois da metade de setembro. Uma delas observou que a agência de avaliação de crédito Moody"s deverá rever a classificação de crédito da Espanha por volta do mesmo período, e que o país poderá perder sua classificação de grau de investimento.
Segundo as fontes, as negociações vão se intensificar quando os ministros das finanças da UE se reunirem no Chipre no próximo mês. Uma autoridade da zona do euro disse à Reuters em julho que a Espanha reconheceu pela primeira vez, em um encontro entre o ministro da Economia, Luis de Guindos, e seu colega alemão Wolfgang Schaeuble que poderá precisar de uma ajuda de € 300 bilhões se os custos de seus empréstimos continuarem insustentavelmente altos.
Um socorro soberano nos moldes do concedido a Grécia, Irlanda e Portugal seria muito mais caro e forçaria aos limites os recursos do bloco. As três fontes, que conversaram com a Reuters ontem, disseram que as negociações estão concentradas na condicionalidade da ajuda, que será incluída em um memorando de entendimento.
Há um consenso político de que as condições devem se limitar ao que já está incluído nas recomendações europeias à Espanha, que vem implementando uma série de medidas dolorosas de austeridade. Mas duas fontes disseram que os países da zona do euro insistem em estabelecer uma agenda mais dura de monitoramento das reformas.
"Haverá relatórios a cada três meses e um controle muito rígido do orçamento e das reformas", disse a primeira fonte. "Basicamente, as condições já estão todas incluídas nas recomendações que fizemos em 31 de maio. Não há nada a mais. Contudo, estamos olhando para cada uma delas e tornando-as mais específicas."
O BCE está participando das negociações, mas deixará para os Estados-membros a decisão sobre as condições do auxílio, informou uma fonte. Separadamente, duas das fontes disseram que os parceiros da Espanha na zona do euro e a Comissão Europeia frustraram as esperanças do país de conseguir uma linha emergencial de liquidez para seus bancos antes do desembolso da primeira parcela da ajuda de € 100 bilhões, que deverá ocorrer no quarto trimestre.
De acordo com um rascunho da legislação que está sendo preparada, a Espanha planeja impor prejuízos a acionistas e credores dos bancos que forem socorridos. O documento, com base no acordo do pacote de ajuda da UE, deve aumentar os poderes do BC da Espanha para intervir nas instituições problemáticas. O periódico "Expansión" publicou o rascunho em seu site e um porta-voz do ministério das Finanças confirmou a autenticidade do documento. (Com agências internacionais)