Título: BrT deve receber R$ 700 mi do BNDES até fim do ano
Autor: Balarin, Raquel
Fonte: Valor Econômico, 13/10/2006, Empresas, p. B2
O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) deverá liberar em no máximo dois meses a primeira parcela, no valor de R$ 700 milhões a R$ 800 milhões, do empréstimo aprovado na semana passada à Brasil Telecom (BrT). O financiamento total, de R$ 2,1 bilhões, é o maior já concedido pela instituição a uma operadora de telefonia brasileira.
O restante do financiamento será liberado em outras duas parcelas anuais, de acordo com Charles Putz, vice-presidente financeiro da BrT. Segundo ele, na prática, os investimentos previstos para a primeira parcela já foram feitos. "Fazem parte de um projeto trienal para o período 2006/2008, elaborado em novembro do ano passado", diz Putz. Em 2006, os investimentos devem ficar pouco acima de R$ 1,8 bilhão. Nos dois anos seguintes, os valores não são divulgados, mas, segundo Putz, devem ser semelhantes aos deste ano.
A Brasil Telecom vive uma situação curiosa. Enrolada em uma disputa societária envolvendo acionistas como os fundos de pensão (capitaneados pela Previ), o Citigroup, a Telecom Italia e o Opportunity, a empresa é penalizada no mercado acionário. Suas ações em bolsa, na maior parte do tempo, são negociadas com um desconto em relação às outras operadoras. Mas, do lado do crédito, a operadora é bem avaliada por analistas e agências de classificação de risco.
Com receita bruta anual de cerca de R$ 15 bilhões, a empresa tem uma dívida líquida (que exclui os recursos em caixa) de R$ 1,9 bilhão, segundo Putz. Além dos recursos do BNDES recém-aprovados, a BrT já realizou neste ano uma captação de R$ 1,08 bilhão em debêntures. A captação foi usada para substituir dívida com vencimento em curto prazo por dívidas mais longa - e barata.
Para um analista entrevistado pelo Valor, na prática, o empréstimo do BNDES também será usado para substituir dívida mais cara. O raciocínio do analista é o seguinte: hoje, a companhia vem fazendo investimentos com sua geração de caixa. O dinheiro do BNDES libera esse caixa para o pagamento de dívidas mais caras. "Não creio que a Brasil Telecom irá ampliar sua alavancagem (endividamento em relação à geração de caixa), embora tenha espaço para ser três vezes mais alavancada", disse o analista.
Segundo o especialista, do ponto de vista do acionista minoritário, é ruim ter pouca dívida. "As despesas financeiras reduzem o pagamento de Imposto de Renda. Com pouca dívida, paga-se IR desnecessariamente."
Entre os analistas, comenta-se que a baixa alavancagem da BrT pode ser uma estratégia com o objetivo de, no futuro, captar recursos para aquisições. Uma compra que faria todo o sentido para a empresa, do ponto de vista operacional, seria a da TIM - operação de telefonia móvel da Telecom Italia. Embora tenha a maior média de receitas por usuário entre seus clientes de celular, a empresa tem um baixo número de assinantes em relação aos seus principais concorrentes e foi a última a lançar o serviço no mercado. Está, portanto, atrasada.
Teoricamente, com a venda da TIM, a Telecom Italia também levantaria recursos para adquirir a parte de seus sócios na BrT, encerrando anos de disputa societária. A estratégia chegou a ser estudada, mas hoje, segundo o Valor apurou, está fora de cogitação. Em primeiro lugar, pela situação do grupo italiano, que tem uma dívida de 80 bilhões de euros e que anunciou sua reestruturação em 11 de setembro. Após o anúncio, pressões políticas levaram o presidente do conselho de administração, Marco Tronchetti Provera, a renunciar.
Hoje, a Telecom Italia não admite a intenção de vender a TIM, embora representantes do grupo, quando procurados por bancos de investimento, digam que estão abertos a propostas interessantes. Oficialmente à venda está a fatia de 38% que os italianos detêm na Solpart, controladora da Brasil Telecom. O processo está sendo conduzido pelo banco JP Morgan. A Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) havia dado prazo até o dia 28 deste mês para que a Telecom Italia resolvesse sua sobreposição de licenças - participação na BrT e controle da TIM.
No início da semana, os italianos protocolaram na Anatel proposta que prevê o depósito de suas ações na BrT em um fundo fiduciário administrado pelo banco Credit Suisse. Se a proposta for aceita, a Telecom Italia deixará de participar, oficialmente, do bloco de controle da BrT, de onde se afastou em agosto de 2002 para criar a TIM.
Um analista diz que a aquisição da TIM pela BrT também é pouco provável porque, embora a Brasil Telecom tenha pouca alavancagem, os recursos envolvidos numa aquisição desse porte são muito altos. "O valor de mercado da TIM é de cerca de R$ 27 bilhões, entre seis e sete vezes o valor da BrT", diz. Para ele, as declarações nesta semana do ministro das Comunicações, Hélio Costa, de que gostaria de que a participação da Telecom Italia fosse parar nas mãos de brasileiros, é uma indicação de que o governo poderá vir a "ceder às pressões para flexibilizar o entendimento da lei (geral de telecomunicações". Hoje, a legislação não permite a fusão de concessionárias como a Telemar e a BrT.
Se a operação de pulverização do controle da Telemar for bem-sucedida, esse analista acredita que será aberto espaço para a aquisição do controle da BrT pela Telemar. Outra opção, que resolveria a disputa societária, seria a pulverização do controle da BrT. "Os analistas têm dado pouca importância ao negócio dessas duas empresas. Só se importam com a questão da possibilidade de pulverização", afirma.
Putz, da BrT, não quis comentar questões societárias. Segundo ele, isso é da alçada dos acionistas.