Título: Copom deve afastar pressão política e sustentar ritmo de corte da Selic
Autor: Guimarães, Luiz Sérgio
Fonte: Valor Econômico, 13/10/2006, Finanças, p. C2

Pressões eleitorais em favor da ampliação do corte do juro básico tornam peculiar e tensa a penúltima reunião do ano do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central, agendada para quarta-feira. Mas o BC irá ignorá-las: pesquisa feita pelo Valor com 19 analistas mostra que o Copom irá sustentar o ritmo de queda da Selic em 0,50 ponto pela quarta reunião em seqüência. A taxa cairá de 14,25% para 13,75%. Após um ano de desaperto monetário gradativo, a taxa acumulará queda de seis pontos.

Os comentários que rondam as mesas de operações são de que as pressões por uma queda de 0,75 ou de 1 ponto são muito fortes. Superam em intensidade as que, no ano passado, ficaram conhecidas como "fogo amigo". Embora existam condições técnicas para a intensificação do desaperto, os analistas descartam essa possibilidade. Em primeiro lugar, porque em nenhum momento o BC sinalizou a intenção de aumentar a dose. Pelo contrário, em suas atas as indicações são sempre de "maior parcimônia". Em segundo porque um recuo maior que 0,50 ponto tornaria muito evidente a ingerência política. "Ficaria muito na cara", diz o economista-chefe da consultoria UP Trend, Jason Vieira. "O BC não fez concessões políticas no passado e não se admite que ceda agora justamente quando as pressões se tornam mais evidentes", agrega o economista-chefe do Banco Pátria, Luis Fernando Lopes. "Mesmo que o Copom ampare uma decisão de corte de 0,75 ponto em sólidos argumentos técnicos, sempre ficará a impressão de que a opção foi política", diz o consultor Miguel Daoud, da Global Financial Advisor.

A autonomia operacional do BC, respeitada durante todo o governo Lula, seria infringida justamente no desfecho do primeiro mandato, colocando sombras sobre o segundo. Uma vez quebrada a independência, o governo poderia tornar a interferência rotineira, abalando um dos pilares do sistema de metas: a credibilidade do BC e a transparência de suas ações. Sob critérios políticos, o Copom pode decidir qualquer coisa, o que retira confiabilidade dos parâmetros hoje utilizados para a definição dos juros prefixados de longo prazo, como os das LTNs e dos swaps longos. O swap de 360 dias está hoje no menor nível nominal - 13,30% - da série histórica porque há confiabilidade nas projeções. Em termos reais (descontado o IPCA previsto para o mesmo período pelo Focus, de 4,08%), o juro está em 8,86%, aproximando-se do recorde de 8,55% estabelecido em janeiro de 2004.

Por todas essas razões, os economistas desconsideram a possibilidade de um desvio político. E preferem projetar a decisão com base em critérios técnicos. Mas reconhecem que haverá muita tensão no ar na próxima quarta-feira. Passado o pleito, o BC até pode aumentar o compasso na queda na última reunião do ano, marcada para 29 de novembro. É o que pensa o economista Sidney Nehme, diretor da NGO Câmbio. Ele aposta que, após reduzir a Selic em 0,50 ponto agora, o BC ampliará o corte para 0,75 ponto em novembro para que a Selic feche o ano em 13%, melhorando a perspectiva de crescimento econômico para 2007. O economista-chefe da Grau Gestão de Ativos, Pedro Paulo da Silveira, diz que logo estará visível novo estímulo à continuidade dos cortes. Ele acredita que dentro de quatro semanas a expectativa de IPCA do Focus para 2007 já estará em 4%, ante 4,20% hoje.

Mas o passo seguinte que o Copom dará ao do dia 18 é um ponto de divergência entre os analistas. Estão muito divididos entre a ala que vê chance de nova queda ao ritmo de 0,50 ponto e a corrente que sustenta que o BC fará finalmente prevalecer a parcimônia, desacelerando a baixa para 0,25 ponto.

Se não fosse pela eletricidade política, o encontro de outubro do Copom seria um dos mais fáceis, previsíveis e monótonos do ano. O consenso de baixa para 13,75% é absoluto. Integrante da ala que defende duas baixas de 0,50 ponto até o fim do ano, Roberto Padovani, da Tendências Consultoria, indica três elementos que permitem ao BC fechar o ano com Selic a 13,25%. O primeiro é a atividade econômica. "Ainda que seja mantida a dinâmica de crescimento, os dados vêm mostrando que a economia opera abaixo do seu potencial, não gerando pressões inflacionárias que comprometam a obtenção da meta de inflação em 2007", sintetiza uma opinião quase consensual entre seus pares.

O segundo é o câmbio. Tanto por avanços nos fundamentos - menor risco político e melhores condições de solvência da dívida pública - quanto por um quadro externo que não indica, de modo claro, alguma reversão importante nos fluxos de comércio e capital, o câmbio deverá continuar mostrando relativa estabilidade. Por último, os avanços nos fundamentos e a queda da inflação corrente sugerem que "o risco de surpresas inflacionárias será menor nos próximos meses, reduzindo o risco na condução da política monetária".

Para Padovani, o BC tem ótimos argumentos para contrapor às pressões políticas. Há três fontes de incertezas que inibem uma velocidade maior. A primeira é a mudança de comportamento da economia. O mercado de crédito amplia a potência da política monetária. O segundo ponto é que não se conhece o nível de equilíbrio de longo prazo da taxa de juros, o que implica prudência. E, finalmente, será preciso avaliar qual o impacto sobre a economia dos cortes já feitos. .

O economista-chefe da Concórdia Corretora, Elson Teles, representa a ala dos analistas que aposta na desaceleração dos cortes no mês que vem. "Em algum momento, o BC deverá quebrar o excesso de otimismo do mercado, pois o custo do açodamento na condução da política monetária costuma ser elevado", diz Teles. Ele lembra que o BC terá que reduzir o juro numa velocidade menor do que a projetada pelos analistas de mercado, pois a estimativa de IPCA incorporada ao cenário de mercado encontra-se acima de 5% para 2007.