Título: Captações externas crescem 86% no trimestre com juro estável nos EUA
Autor: Lucchesi, Cristiane Perini
Fonte: Valor Econômico, 16/10/2006, Finanças, p. C4

O mercado externo se abriu novamente aos países emergentes após a decisão do Fed, banco central americano, de manter os juros básicos estáveis nos Estados Unidos, tomada pela primeira vez na sua reunião do dia 8 de agosto. O resultado foi um salto no total de captações externas de empresas, bancos e governo brasileiros no terceiro trimestre.

Segundo o Valor Data, o total obtido em julho, agosto e setembro chegou a US$ 6,59 bilhões, um aumento de 86% na comparação com os US$ 3,535 bilhões do trimestre anterior. Os números incluem títulos e empréstimos sindicalizados (com a participação de vários bancos) do setor privado e público.

O grande destaque foi o mês de setembro - com o fim das férias de verão no Hemisfério Norte, as empresas e bancos fizeram fila para lançar títulos. Por causa dos juros mais estáveis nos EUA, os investidores dos fundos de hedge mais alavancados, que tomam dinheiro emprestado nos mercados do Primeiro Mundo para comprar papéis brasileiros, se animaram a ampliar suas operações com o Brasil. Até o investidor asiático voltou a comprar papéis brasileiros, principalmente os de bancos pequenos e médios. A oferta de títulos brasileiros foi tão grande em setembro na Ásia que alguns bancos chegaram a perceber uma saturação momentânea do mercado.

Apesar disso, as perspectivas para o último trimestre do ano continuam positivas para as captações brasileiras. As apostas são mais fortes para depois do segundo turno das eleições presidenciais. "Não é que o mercado parou, mas os investidores de private banking (as pessoas físicas) reduziram um pouco a demanda neste mês de outubro por causa das incertezas eleitorais", diz Carlos Gribel, sócio-diretor da Queluz Securities. Ele vai sair em visita a investidores agora para lançar, possivelmente no início de novembro, um papel do Paraná Banco, de US$ 20 milhões a US$ 25 milhões.

"A turbulência está menor, pois o mercado avalia que a desaceleração na economia americana será moderada", diz Ricardo Lacerda, responsável pelo banco de investimento do Citigroup no Brasil. Segundo ele, a tendência dos juros básicos nos EUA é de estabilidade e as preocupações com a inflação forte demais e a desaceleração brusca se arrefeceram. "O mercado está estável e o cenário é benigno, com preços ainda atrativos para as empresas brasileiras", avalia. Além disso, o próximo movimento do Fed deve ser de redução nos juros e não de alta, lembra o especialista.

Neste contexto, os rendimentos pagos pelos papéis brasileiros continuam a se manter atrativos, ainda mais considerando-se as perspectivas de queda nesses juros com o país ganhando o "grau de investimento", o selo de investimento não-especulativo.

Hoje, o emissor que alonga o prazo de seus papéis só tem a ganhar, diz Lacerda. Isso porque a curva de juros nos Estados Unidos permanece invertida, com os juros de curto prazo em 5,25% ao ano, acima portanto dos pagos pelos papéis do Tesouro americano de vencimento em dez anos, em torno de 4,8% ao ano. As empresas brasileiras pagam um prêmio justamente sobre essas taxas de juros americanas quando vão lançar seus papéis.

Por isso, as companhias de primeira linha brasileiras tendem a continuar a emitir papéis de vencimento em 10 anos, mas emissões de até 30 anos não estão descartadas. Compram esses papéis de até 30 anos os investidores institucionais americanos, com destaque neste momento para os fundos de hedge.

Até mesmo a volta dos eurobônus perpétuos, sem vencimento final, não está descartada, acredita Lacerda, embora não para já. Os perpétuos foram uma verdadeira coqueluche no primeiro trimestre. "Depois do susto de maio os investidores de varejo da Ásia, principais compradores dos perpétuos, se recolheram um pouco", afirma Lacerda. Após a reunião do dia 10 de maio do Fed, o mercado passou a apostar que os juros básicos nos Estados Unidos seriam puxados para cima com mais força do que o inicialmente esperado e a volatilidade cresceu, dificultando a definição de preços nas captações.

José María Barrionuevo, estrategista para América Latina que saiu do Barclays Capital e agora está no BBVA, vê incertezas neste momento para os mercados emergentes. A principal delas é o ritmo do crescimento econômico nos Estados Unidos e do mundo e suas consequências sobre o preço dos commodities e do petróleo. Há também "a grande exposição ao risco de fundos de hedge", que não têm apresentado resultados satisfatórios em muitos casos e estão enfrentando resgates, comenta Barrionuevo.

Para os investidores, a falta de direção do mercado e a pequena possibilidade de valorização dos ativos dos emergentes daqui para frente já começam a ser um foco de preocupação, avalia ele. Mas, "apesar das incertezas, há um sentimento claro de que a longa disputa entre os otimistas (bullish) operadores do mercado e os pessimistas (bearish) economistas americanos foi resolvida, como sempre, a favor dos operadores."

Foi esse otimismo que permitiu ao governo federal alongar sua dívida externa denominada em reais, emitindo US$ 743 milhões para liquidação em setembro pelo prazo de vencimento em 15 anos, em operação que foi reaberta agora em outubro com mais US$ 300 milhões. Os bancos pequenos e médios captaram para dívida externa subordinada, que entra como capital no balanço e é mais arriscada, e a Petrobras voltou a lançar títulos - US$ 500 milhões em dólares e US$ 300 milhões denominados em ienes e vendidos no Japão.

Os bancos internacionais também ampliaram suas linhas de crédito ao país e ofereceram às empresas prazos mais longos e spreads menores nos grandes empréstimos externos sindicalizados. A Petrobras levantou US$ 750 milhões, a Samarco, US$ 800 milhões, e a Embraer, US$ 500 milhões. A Vale acaba de obter o maior empréstimo sindicalizado da história dos mercados emergentes, de US$ 18 bilhões, com oferta de crédito que chegou a US$ 34 bilhões, para comprar a canadense Inco. Mas, como foi finalizada em outubro, a operação não entrou na soma de captações feita pelo Valor Data dos três primeiros trimestres.

Do total acumulado até o final de setembro, o volume de captações externas no Brasil chegou a US$ 16,083 bilhões neste ano, uma queda de 35% na comparação com os US$ 24,899 bilhões do mesmo período do ano passado. O grande responsável pelo tombo foi o governo federal. Excluídas as captações da República, o total nos três primeiros trimestres deste ano vai a US$ 12,977 bilhões, um valor 2% maior do que os US$ 12,704 bilhões do mesmo período do ano passado.