Título: Sob suspeita, governo argentino divulga IPC de 1,1% em janeiro
Autor: Rocha, Janes
Fonte: Valor Econômico, 06/02/2007, Internacional, p. A10
Uma grande celeuma criada em torno do índice oficial de inflação do mês de janeiro na Argentina promete continuar hoje, depois que o governo divulgou, com grande atraso, um número muito menor do que esperava o mercado e os próprios funcionários do órgão responsável pelo cálculo, o Instituto Nacional de Estatísticas e Censos (Indec). O índice ficou em 1,1%, 0,1 ponto percentual acima do de dezembro. A alta foi influenciada pelo aumento nos preços dos alimentos e bebidas (1,9%), e entretenimento (1,8%), itens que em parte foram neutralizados pela queda no vestuário (-2,5%).
A alta da inflação de janeiro já era esperada, mas o governo desatou a polêmica quando, na semana passada, a Ministra da Economia, Felisa Miceli, demitiu a diretora responsável pela compilação do Índice de Preços ao Consumidor (IPC), Graciela Bevacqua, substituindo-a por uma funcionária ligada à Secretaria de Comércio, Beatriz Paglieri. Houve então uma forte reação dos funcionários da área de pesquisa do IPC no Indec, que acusaram o governo de intromissão com finalidade de manipulação do índice de janeiro, supostamente para beneficiar o presidente Kirchner num ano eleitoral.
O caso esquentou ainda mais quando os funcionários organizaram manifestações na porta do órgão contra a mudança no comando da equipe do IPC. A resposta do Ministro do Interior, Aníbal Fernández, foi xingar os manifestantes de "mafiosos". O clima ficou tenso e a polícia foi chamada para evitar confusões.
Enquanto o governo esperava um índice de no máximo 1,1%, consultores privados falavam em algo entre 1,3% e 1,5%. Em seu relatório semanal sobre a economia argentina, o analista Ricardo Amorim, do Banco WestLB em Nova York, estimava 1,2% para a inflação de janeiro. "O governo tem feito de tudo para impedir aumentos de preços, mas não estava conseguindo. Agora estão tentando mudar o termômetro", comentou Amorim.
Nitidamente, os preços estão subindo no país. Os táxis, que tiveram um reajuste de 9% em agosto, subiram mais 9% em janeiro e já se fala em um novo aumento. Os alimentos frescos, destacadamente alface e acelga, mais do que dobraram de preço nas gôndolas dos supermercados desde dezembro.
Mas o nó da discórdia, segundo a imprensa local, são os planos de saúde. Depois de uma negociação que tomou todo o segundo semestre de 2006, as operadoras de saúde foram autorizadas a reajustar as mensalidades em 22,4%. Com uma condição: que oferecessem aos clientes uma alternativa a esse reajuste, através de um plano chamado co-pago. Nessa modalidade - distribuída em uma fatura à parte da fatura normal - os clientes seriam beneficiados com um reajuste de só 2%, mas deverão aceitar pagar uma parte de cada procedimento médico usado com o plano, ou seja, uma espécie de franquia como a do seguro de carro.
Os funcionários asseguravam que Guillermo Moreno, secretário de Comércio Interior, responsável pelo controle de preços, teria pedido ao Indec que, diante do acordo com as operadoras, fosse computado como alta de preço dos planos de saúde apenas os 2%, e não os 22,4%, o que a funcionária Bevacqua teria recusado. Segundo os funcionários, se fossem computados os 22,4%, o índice de janeiro teria subido para 2,1%.
Além disso, disseram em entrevistas à imprensa que Moreno teria ordenado que o Indec abrisse o segredo estatístico das pesquisas, a lista de 800 estabelecimentos comerciais onde são levantados os preços mensalmente pelos pesquisadores, o que a funcionária demitida também teria recusado.
A crise chegou ao topo do governo Kirchner quando entrou no debate o Ministro do Interior, Aníbal Fernández. Em entrevista ontem à Rádio "La Red", Fernández subestimou a mudança dos titulares do Indec, dizendo que Bevacqua era "uma funcionária de quarto escalão", não concursada e, além do mais, a substituição do cargo seria "atribuição constitucional" do presidente. Questionado por que teria ofendido os funcionários do órgão, respondeu que eles tinham "ameaçado o presidente Néstor Kirchner" e que essa "ameça não é outra coisa que duvidar da honestidade". "O presidente é um senhor honesto", defendeu.
Para Ricardo Amorim, do WestLB, a atitude do governo argentino não terá efeitos práticos a curto prazo, do ponto de vista de atração de investidores para os papéis emitidos pelo governo. Isso porque, disse ele, "atualmente sobra liquidez no mercado e tudo (as emissões de títulos) que se coloca no mercado, se vende, até mesmo Argentina". No entanto a intromissão no indicador de preços poderá criar uma incerteza entre os investidores que pode se refletir negativamente a médio prazo se o cenário internacional se altera. Essa incerteza já afetou ontem o mercado de bônus indexados à inflação emitidos pelo país. Segundo a agência Dow Jones, estes papéis sofreram uma baixa de 0,61%, cotados a 154 pesos argentinos.