Título: Cargill prevê melhores margens em 2007
Autor: Bouças, Cibelle
Fonte: Valor Econômico, 17/10/2006, Agronegócios, p. B12

Após duas safras consecutivas de piora nas margens, a americana Cargill, uma das maiores processadoras de grãos do mundo, projeta melhora na rentabilidade na safra 2006/07, que começou a ser plantada em setembro.

O reaquecimento da demanda interna e externa por farelo de soja pelas granjas de aves e a perspectiva de aumento da demanda de óleo para biodiesel devem ajudar a sustentar os preços desses produtos em 2007, na avaliação de José Luiz Glaser, diretor do complexo soja da multinacional no país.

"O mercado de farelo tende a ser melhor e os preços do óleo devem subir com a exportação do refinado para biodiesel e a conseqüente redução da oferta no mercado interno, o que já começou a acontecer este ano".

Conforme Glaser, a demanda por grãos e derivados apresentou melhora neste semestre. O ritmo das entregas do grão também se acelerou no período, fazendo com que as indústrias elevassem o uso da capacidade instalada, reduzindo custos de produção. "Com a melhora principalmente na produção de óleo, os custos da indústria de modo geral diminuem".

Para o ano de 2007, Glaser prevê melhora na margem de ganhos com derivados da soja, desde que não haja grandes perdas com problemas climáticos. "Se houver problema de safra, a margem [da indústria] vai para o espaço", diz.

Ele observa que Estados como São Paulo, Goiás e Minas Gerais substituíram a soja por cana em parte das áreas. No Mato Grosso também houve redução devido aos problemas de crédito dos produtores. A área plantada no país está entre 5% e 6% menor na safra 2006/07. "No próximo ano haverá mais briga pela soja dessas regiões, porque é onde as indústrias estão instaladas e não compensa substituir a soja desses Estados pela produzida em outras regiões, devido ao custo de ICMS", afirma Glaser.

Ele diz que, no Centro-Oeste, os preços da soja nas últimas semanas foram comprometidos pela falta de produto e pela interferência do governo com os leilões de Pesoja. Seneri Paludo, analista da Agência Rural, afirma que as altas recentes da soja na bolsa de Chicago motivaram vendas pelos produtores do Centro-Oeste e que hoje praticamente não existe grão disponível na região. Ontem, a saca era cotada em Cuiabá (MT) a R$ 22,50, em queda de 2,2% no dia. Há um mês, o preço médio praticado era de R$ 17,50.

Na bolsa de Chicago, os preços futuros da soja registraram queda ontem, com realização de lucro após a forte alta de sexta-feira. O contrato para janeiro recuou 2 centavos de dólar, para US$ 6,0350 por bushel. O contrato de soja da América do Sul para novembro fechou a US$ 6,60, queda de 10 centavos no dia. Para garantir o suprimento de matéria-prima a preços que considera rentáveis, a Cargill fez a compra antecipada de 75% do volume que pretende negociar na temporada 2006/07 - em torno de 10 milhões de toneladas.

A empresa espera encerrar este ano praticamente com margem zero. A previsão é concluir o ano com faturamento 10% inferior ao de 2005, quando obteve US$ 2,4 bilhões. O resultado deve-se à queda nos preços internacionais da soja, principalmente entre abril e maio, quando houve grande queda na demanda por frangos na Europa e, em conseqüência, redução no consumo de farelo para ração.

Na safra 2005/06, a Cargill manteve o mesmo volume de originação de soja registrado na safra anterior, de cerca de 10 milhões de toneladas. Desse total, o volume esmagado ficou entre 3,7 milhões e 3,8 milhões de toneladas, mesmo patamar de 2004/05. "O volume negociado ficou mais ou menos dentro do esperado, embora a comercialização tenha demorado mais por conta da quebra de safra e da dificuldade de compra no primeiro semestre", afirma Glaser.

Na safra 2005/06, a colheita de soja no país totalizou 53,4 milhões de toneladas, ante previsão inicial de 58,5 milhões, conforme dados da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab). A perda deveu-se a quebras de safra na Bahia, no Mato Grosso, Goiás e Minas Gerais, onde houve problemas climáticos. Por conta das quebras em Estados que são tradicionais fornecedores de soja, a multinacional não alcançou a sua meta inicial de exportar 6 milhões de toneladas de soja em grão. Na safra 2005/06, a expectativa é encerrar com embarques de 4 milhões de toneladas, ante 5 milhões no ciclo anterior.

Glaser observa que houve boa procura pelo produto, especialmente pela China. "A Argentina esmagou mais soja e, com isso, cresceu a procura pelo grão brasileiro", diz. As exportações brasileiras tiveram ritmo mais acelerado na safra, com embarques superiores a 3 milhões de toneladas por mês entre março e agosto.

A empresa prefere não revelar seus planos de investimento para o próximo ano, mas Glaser diz que avalia parcerias para produzir biodiesel. Em 2006, a empresa fechou 10 dos 140 armazéns que operava por conta de problemas logísticos. "Com o asfaltamento da BR-163, alguns transbordos no Mato Grosso deixaram de ser necessários", afirma o executivo.