Título: As commodities e as contas externas brasileiras
Autor: Fernandez, Cassiana
Fonte: Valor Econômico, 09/02/2007, Opinião, p. A14

O movimento de preços de commodities nas últimas semanas suscitou dúvidas a respeito do desempenho das economias emergentes em 2007, especialmente aquelas mais dependentes de exportações de commodities, como México, Rússia, Chile e Brasil. O debate sobre a sensibilidade dessas economias às cotações internacionais de commodities não vem de hoje. De fato, existe uma extensa literatura que busca medir o impacto dessas variações de preços sobre economias exportadoras de commodities, mais especificamente sobre a moeda destes países (para uma revisão desta literatura ver Chen, Y., Rogoff, K., 2002. "Commodity currency and empirical exchange rate equations". IMF Working Paper No. 02/27). De forma geral os trabalhos concluem que os preços de commodities são uma importante variável explicativa para os movimentos da taxa de câmbio real de países exportadores de commodities, principalmente em países como Austrália e Nova Zelândia, pequenas economias abertas e estáveis. Simplificadamente, espera-se que aumentos nos preços internacionais das commodities provoque uma apreciação real da moeda dos países exportadores destes bens, em função de um choque favorável nos termos de troca.

Esses resultados explicam, em parte, a preocupação do mercado com o desempenho de algumas economias num ambiente de maior volatilidade nos preços de commodities. No entanto, uma lição importante que deve ser tirada desta literatura é que, em geral, países intensivos em exportações de commodities tendem a possuir uma pauta concentrada em poucos produtos, enquanto a pauta de importações tende a ser mais diversificada, com peso maior para produtos manufaturados. Logo, deve-se evitar generalizações sobre o efeito dos movimentos de preços de commodities: por exemplo, enquanto o México tem sua pauta de exportações dominada pelo petróleo, o Brasil ainda é importador líquido deste produto - assim, uma queda nos preços de petróleo como a recente tende a apreciar o real frente ao peso mexicano. Não é razoável, portanto, esperar que ambas moedas tenham reações semelhantes. Além disso, existem trabalhos empíricos que mostram que os movimentos de preços das commodities não são sincronizados, uma razão a mais para evitar generalizações.

Para identificar se os movimentos recentes de commodities foram positivos ou negativos para o Brasil, criamos um índice de preços desses produtos de acordo com nossas exportações líquidas (descontadas de importações) de commodities. Desta forma, o índice mede o impacto de variações dos preços das commodities no saldo comercial brasileiro, ou seja, uma elevação do índice é favorável à nossa balança (seja porque subiram preços de exportação e/ou porque caíram preços de importação) e vice-versa. O peso atribuído a cada item do índice foi calculado com base no valor de seu saldo comercial no ano de 2005, sendo positivo para commodities nas quais somos exportadores líquidos e negativo nos itens em que somos importadores líquidos.

A evolução deste índice de preço computado diariamente está no gráfico a seguir. Como se pode perceber, o movimento recente foi bastante favorável para nós, o que implica que teremos, para as mesmas quantidades físicas de exportação e importação, saldos comerciais mais positivos. Desde setembro do ano passado, quando o FMI divulgou um estudo alertando para o risco de uma correção mais forte nos preços internacionais de commodities, sobretudo metálicas e energéticas, o índice brasileiro valorizou-se quase 12%, e encontra-se hoje nos níveis mais altos. A implicação direta é que, em prevalecendo os atuais níveis de preço dos produtos que compõe nossa pauta comercial, o nível de câmbio que deve prevalecer em 2007 é ainda mais apreciado do que o observado em 2006.

-------------------------------------------------------------------------------- Movimentos de preços de algumas commodities têm sido liderados pela busca de combustíveis mais limpos e alternativos --------------------------------------------------------------------------------

O que nos faz acreditar que esses preços mais elevados das commodities podem perdurar por um tempo mais prolongado? Em primeiro lugar, o fato do desempenho do PIB mundial continuar surpreendendo. Mesmo depois de 4 anos - 2003 a 2006 - crescendo a uma média de 4,9% (frente à média dos últimos 20 anos, de 3,7%), os primeiros sinais de 2007 apontam para uma manutenção do ritmo de crescimento.

Mais especificamente para as commodities, o fato do crescimento ser liderado pela China - um gigante demandante de commodities como soja e minério de ferro - dá um caráter estrutural ao movimento de preços. Naturalmente, quando a China alcançar um estágio mais maduro de desenvolvimento, estas demandas serão amainadas. Porém, não acreditamos que isso vá acontecer nos próximos anos.

Em segundo lugar, os movimentos de preços de algumas commodities agrícolas têm sido liderados pela busca de combustíveis mais limpos e alternativos ao petróleo. Este movimento tende a pressionar a demanda por produtores de etanol e biodiesel - como cana, milho, soja e outros grãos - e consequentemente manter pressionados seus preços. Da mesma forma, enxergamos esta tendência como algo, se não permanente, bastante prolongado.

De forma resumida a mensagem que buscamos passar com esse artigo é que uma análise mais detalhada do impacto do movimento recente de preços de commodities para os países emergentes mostra que o Brasil está sendo, e deve continuar a ser, um dos países mais beneficiados, ao contrário do que se temia no início desse ciclo. Se estivermos certos que esse movimento tende a se prolongar, teremos perspectivas ainda mais favoráveis para a as contas externas brasileiras em 2007, e a taxa de câmbio deve se apreciar.

Cassiana Fernandez e Caio Megale são economistas da Mauá Investimentos.