Título: Lula pede a petistas trégua na luta interna
Autor: Costa, Raymundo
Fonte: Valor Econômico, 09/02/2007, Política, p. A12
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva interveio e conseguiu esfriar, pelo menos por enquanto, a disputa entre as principais tendência do PT pelo controle do partido. Lula pediu calma aos dois principais contendores, o ministro Tarso Genro (Relações Institucionais) e o ex-chefe da Casa Civil José Dirceu, que desde o domingo passado trocavam farpas. A expectativa agora é que o encontro que o PT realiza neste fim de semana em Salvador, para comemorar seus 27 anos, concentre as discussões e as críticas no Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) e juros.
Hoje, Lula participa de um jantar do partido em comemoração aos 27 anos. No dia seguinte, o diretório nacional convocará o 3º Congresso do PT, que ocorre em junho, em Brasília, e está na origem da disputa entre os dois grupos, pois terá poderes para encurtar o mandato do deputado Ricardo Berzoini (SP) na presidência do partido. Lula deve pedir uma trégua na luta interna do PT e pedir o apoio do partido ao PAC, que já enfrenta problemas na Câmara devido à insatisfação do PMDB com a indefinição do novo ministério.
O clima de tensão se instalou no domingo, num encontro preliminar do PT. Num documento intitulado "Mensagem ao Partido", redigido basicamente por Tarso Genro, o ministro falava em "corrupção programática" ao se referir à crise vivida pelo partido desde 2005. Genro também insistia na tese de "refundação" da sigla. No mesmo encontro, foi discutida a anistia ao ex-deputado José Dirceu, tese encampada pelo assessor especial de Lula para assuntos internacionais, Marco Aurélio Garcia.
Dirceu e integrantes do chamado campo majoritário, que controla o partido, reagiram ao documento de Tarso. Ontem, após a intervenção de Lula, a versão final já não continha a expressão "corrupção programática", mas as críticas ao grupo que controla o PT ainda são contundentes. "É verdade que a crise do nosso partido foi influenciada pela crise de perspectivas da esquerda mundial, no âmbito de uma forte hegemonia liberal", escreveu Genro, "mas também o foi pela ausência entre nós de uma cultura republicana que reconheça os limites claros entre as funções do partido, de um lado, e de outro, a ação de militantes que cumprem responsabilidades públicas".
A "Mensagem ao Partido" foi subscrita por 214 militantes do PT, dentre os quais os governadores de Sergipe, Marcelo Déda, do Piauí, Wellington Dias, e do Pará, Ana Júlia Carepa, a filósofa Marilena Chauí, a professora Maria Vitória Benevides e o ex-ministro Olívio Dutra. Grande parte dos subscritores é ligada à tendência Democracia Socialista, mas há integrantes do grupo majoritário, como é o caso de Déda, que além de integrar a mesma corrente de Lula, é compadre do presidente da República.
"A ausência de uma cultura antipatrimonialista em nosso país também constitui uma fonte de apelo, na esfera do Estado, para que os partidos se tornem 'tradicionais' para governar", prossegue o manifesto. "O sistema político eleitoral, movido pela forte concorrência entre candidatos avulsos, em geral bancados por vultosos gastos de campanha, ajudou a fragilizar a cultura partidária e expôs, mesmo os partidos que se reclamam do socialismo, a relação não-transparentes com os financiadores".
Numa evidente referência ao grupo do ex-deputado José Dirceu, o documento afirma: "O autoritarismo de grupo, em nosso meio, abrigado nestes expedientes, desconstituiu o debate político, a democracia interna e o diálogo entre posições; permitiu gestos de mandonismo burocrático e abriu espaços ao uso da força política do Estado para manter os controles no partido".
Um outro documento, apresentado por um grupo de deputados ligados à ex-prefeita de São Paulo Marta Suplicy, alimentou o clima de tensão. Assinado pelos deputados Cândido Vaccarezza, Carlos Zaratini, José Mentor e Devanir Ribeiro, entre outros, critica a tese da "refundação", mas admite que a nova direção, eleita em 2005 (com Ricardo Berzoini na presidência) "não conseguiu dar respostas aos problemas políticos que se acumulavam" e decreta: "No quadro atual, somos da opinião que o Campo Majoritário - assim denominado embora já não mais detenha a maioria do Diretório Nacional isoladamente - esgotou seu papel dirigente. Sua composição e métodos de direção, talvez funcionais num determinado período, mostram-se inadequados diante do vulto e da complexidade dos desafios atuais".
O documento, no entanto, ficou mais conhecido por um trecho que permite a interpretação de que o grupo pode propor um plebiscito para aprovar um terceiro mandato para Lula: "Se o presidente da República pode editar medidas provisórias - cada vez mais sob o crivo das críticas por seu vezo autoritário - por que não pode ele, sem este vício originário, convocar plebiscitos sem autorização legislativa para decidir questões de grande alcance nacional"? A interpretação é rejeitada por um de seus autores, Carlos Zaratini: "Não era essa a intenção", diz.