Título: Na zona leste, revolta contra poder comanda o voto
Autor: Casado, Letícia
Fonte: Valor Econômico, 21/09/2012, Política, p. A7

"Eu não voto no PT. Votei no [prefeito da capital paulista, Gilberto] Kassab [do PSD], aquele pilantra, e em menos de um ano, ele aumentou duas vezes a passagem de ônibus. Votei na Dilma também." Indignado com a situação do bairro onde mora, a Cohab de Cidade Tiradentes, no extremo da zona leste de São Paulo, o inspetor de escola Jalmir Martins, de 39 anos, decidiu votar em Celso Russomanno (PRB) nas eleições de outubro. "O Kassab manda a Rota [polícia estadual] vir na comunidade matar todo o mundo".

Sua cunhada, Vera Lúcia Moraes, dona de casa, também vai votar em Russomanno. "O Silas Malafaia [líder da igreja Assembleia de Deus] disse que precisamos ter atenção em quem vamos dar o voto", diz. Questionada se o fato de Russomanno ter sua campanha coordenada por bispos da Igreja Universal, cujo líder é Edir Macedo, grande rival de Malafaia, Vera Lúcia se mostra surpresa, pois desconhecia a ligação entre o PRB e a Universal. "Ele [Russomanno] vai fazer a parte dele", diz, "e vamos todos prestar contas com Deus".

As reivindicações de Jalmir e Vera Lúcia são diversas e parecidas com as das outras 30 pessoas com quem o Valor conversou ontem no bairro. Eles dizem que faltam transporte, segurança e espaços públicos, como praças e parques. Reclamam da violência e, segundo Jalmir, "os políticos são mais perigosos que os traficantes daqui". Sua mãe, diz ele, está até hoje pagando o apartamento na Cohab - eles moram lá há 26 anos. Em suma, os moradores da Cohab de Cidade Tiradentes se sentem abandonados pelo poder público.

Questões como essas ajudam a explicar o resultado da pesquisa Datafolha divulgada ontem pela "Folha de S. Paulo". De acordo com o levantamento, Russomanno tem 46% das intenções de voto na "zona leste 2". A área abriga 16 distritos e é considerada um reduto petista. No primeiro turno da eleição para prefeito em 2008 em Cidade Tiradentes, Marta Suplicy teve 62% dos votos válidos, e Kassab, 18%. Sua votação também foi altamente expressiva em outros bairros da região, como Guaianases, São Mateus, Teotônio Vilela, Itaim Paulista e Jardim Helena.

Entre os ouvidos pela reportagem, seis disseram apoiar o candidato do PRB e outras seis, Fernando Haddad (PT); a maior parte está indecisa e alguns se dividem entre outros candidatos.

"Ele [Russomanno] é lá do Procon, né", diz a dona de casa Luciana Gomes, de 35 anos, referindo-se ao candidato do PRB, em quem pretende votar e que nunca trabalhou na entidade, mas que fez programas na TV sobre direitos do consumidor. Ela afirma que já votou no PT, mas que eles "não fazem nada". "O ônibus é cheio, não transporta bem."

São muitas as informações desencontradas em relação à disputa de outubro. Os entrevistados confundem siglas de partidos, cargos em disputa ("O Netinho [candidato a vereador, não a prefeito, pelo PCdoB] veio aqui, mas vou votar no Russomanno mesmo") e regras eleitorais ("Se eu anular vou votar no Kassab?"). Nenhum dos entrevistados soube dizer porque escolheu determinado candidato. Quem já tem um nome diz que "gosta das propostas", mas não sabe falar uma, ou que vota no partido.

A dona de casa Valdirene Aragão ia votar em Russomanno, mas não gostou da entrevista do candidato no SPTV 1ª Edição, da Rede Globo, de ontem. Seus filhos estudam à tarde no CEU de Cidade Tiradentes, e, antes de levá-los à escola, ela assistiu ao jornal e mudou de opinião. Ela diz que não sabia que a Igreja Universal está envolvida na campanha e que o candidato não soube justificar o emprego de verba pública para pagar uma funcionária em São Paulo, quando questionado pelo repórter César Tralli.

Há alguns quilômetros dali, no Tatuapé, começo da zona leste, Russomanno fez uma caminhada no fim da tarde. Abraçou comerciantes, tirou fotos com fãs e, sobre o uso de verba pública indevidamente, disse que "são apenas acusações".