Título: Lula e Alckmin fazem debate mais objetivo e programático
Autor: Ferreira, Jorge e Felício, César
Fonte: Valor Econômico, 20/10/2006, Política, p. A8

O debate sobre o crescimento da economia dominou boa parte do debate realizado ontem pelo SBT com os candidatos à Presidência da República. Em pergunta dirigida a Geraldo Alckmin, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva questionou como seria possível realizar todos os investimentos que o tucano tem prometido, quando apenas R$ 22 bilhões, de um Orçamento de R$ 455 bilhões, não estão comprometidos. Em sua resposta, o ex-governador afirmou, por exemplo, que vai reduzir o número de ministérios e cortar cargos em comissão. "Eu vou cortar gastos, porque sem isso não vai dar para reduzir a carga tributária. Vou respeitar seu dinheiro. Vou fazer mais para o Brasil crescer, porque se continuar desse jeito, o Brasil não vai crescer", discursou.

Em sua réplica, Lula foi incisivo: "É mais fácil falar do que fazer. O Brasil não tem como cortar, o Brasil precisa ter investimento econômico, porque todo o tempo em que vocês governaram, o Brasil não cresceu como cresceu conosco, a renda não cresceu como cresceu conosco".

Embora em um tom mais cordial do que o observado no primeiro encontro, o candidato do PSDB iniciou o debate de ontem na ofensiva contra o presidente. Mesmo respeitando a ordem dos temas propostos, o tucano responsabilizou seu adversário pela crise na agricultura - "a maior dos últimos 40 anos" -, relacionou uma longa lista de escândalos de corrupção surgidos no governo federal e questionou a qualidade dos serviços públicos de saúde. O presidente só saiu da defensiva quando o assunto abordado foi segurança. Após ouvir as críticas de Alckmin, ironizou: "Que as pessoas que estão em São Paulo não ouçam, porque vão pensar que temos o PCC no Brasil inteiro".

A partir daí, os ataques ganharam intensidade. Ao citar reportagem da revista "The Economist" sobre o baixo crescimento da economia brasileira, ouviu o contra-ataque: "O candidato Alckmin é daqueles que só acreditam no que deu no 'New York Times'. É uma mentalidade colonizada". E se disse triste ao ouvir comparações entre o Brasil e o Haiti. "O brasileiro é inteligente e sabe como nós pegamos esse país. Eu só fico triste é com a comparação com o Haiti. O Brasil não pode ser comparado com Haiti ou a China. O Brasil tem de ser comparado com ele mesmo, com o seu passado", reclamou. E, em uma resposta sobre as condições da saúde, desejou que "um dia o governador precise da saúde pública, e vai ver que ela melhorou muito".

Ao ser confrontado com dados sobre os maus resultados obtidos pelo Estado de São Paulo na área da educação, Alckmin reagiu: "Não estamos aqui para discutir o Estado de São Paulo. Aqui, a eleição já acabou, e nós vencemos. Estamos aqui para discutir o Brasil", disse, antes de enumerar algumas realizações de seu governo.

O presidente também voltou a explorar o tema das privatizações e Alckmin defendeu as alienações realizadas no governo Fernando Henrique Cardoso, citou a telefonia como exemplo de sucesso. "Se estivéssemos errados, você devia ter reestatizado e não o fez. O que não pode é mentir, porque não vou privatizar o Banco do Brasil, a Petrobras e a Caixa Econômica Federal".

Antes do debate, dirigentes do PT presentes ao evento mostraram apreensão diante da possibilidade de vazamento de informações relativas ao inquérito envolvendo o dossiê contra os tucanos. O coordenador da campanha da reeleição, Marco Aurélio Garcia, que acumula a presidência do PT, enviou ontem correspondência à Justiça Federal do Mato Grosso pedindo o fim do segredo de Justiça em relação ao caso e renunciando formalmente aos sigilos bancários do diretório nacional do PT e da campanha da reeleição. "Encareci que fossem tomadas essas providências para evitar o 'diz-que-me-diz' e os vazamentos. Todo dia tem especulação. O antídoto é a transparência das informações".

Em meio aos temores por novas notícias a respeito do dossiê, os petistas procuraram sinalizar que desejam dialogar com a oposição assim que a campanha eleitoral termine. A iniciativa do diálogo, a princípio, não viria do presidente. "Respeitamos a oposição e não há nenhum problema em dialogar, mas o espaço mais apropriado para este diálogo é o Congresso Nacional e os partidos políticos, preservando o presidente da República", disse o líder do governo na Câmara, Arlindo Chinaglia. Marco Aurélio Garcia, entretanto, disse que "o presidente vai chamar todos os partidos para um diálogo" e citou a reforma política como primeiro tema a ser discutido. "O projeto da reforma política não pode ser exclusivamente do governo", afirmou.

Entre os tucanos, a disposição não era de conciliação e a preocupação era com o tom que a campanha do PSDB precisa encontrar para tratar a questão das privatizações. "Talvez tenhamos sido um pouco lentos para reagir à questão da privatização, mas ainda há tempo suficiente. O quadro é muito volátil. Serão dez dias que abalarão o país", disse o líder do PSDB no Senado, Arthur Virgílio Neto (AM). Segundo ele, "é preciso dizer que as privatizações foram muito boas para o país. O presidente do PSDB, senador Tasso Jereissati (CE), afirmou que a campanha de Alckmin não baixará o tom de agressividade. "O Brasil não pode ir às eleições sem esclarecer determinadas situações". Tasso procurou associar seus ataques não só ao candidato Lula, mas também ao governo federal. "O que temos sobre a questão da privatização é uma central de mentiras que parte mais do governo do que da campanha de Lula", acusou.

Momentos antes do debate, Lula procurou conter o otimismo sobre pesquisa Vox Populi , favorável à sua campanha, e disse que ainda há mais dois debates e uma semana de campanha. Segundo levantamento divulgado ontem pela TV Bandeirantes, Lula aumentou de 10 para 20 pontos sua vantagem em relação à Alckmin. O petista subiu de 51% para 57% das intenções de voto, enquanto Alckmin caiu de 41% para 37%. Nos votos válidos, Lula tem 61% contra 39% do tucano.