Título: Mudança de governo na Bahia preocupa 15 mil comissionados
Autor: Cruz, Patrick
Fonte: Valor Econômico, 20/10/2006, Política, p. A9

A transição entre as administrações do atual governador da Bahia, Paulo Souto (PFL), e do eleito, Jaques Wagner (PT), tem sido elogiada pelo petista, em vista do ambiente sereno e solícito em que tem ocorrido. Clima oposto, entretanto, tem vivido boa parte dos funcionários comissionados e terceirizados do governo baiano, receosos pelo futuro de seus empregos.

Ainda que se suponha ser natural haver mudanças de equipe na transição de um governo pefelista para um do PT, as alterações ganham cores mais fortes na Bahia porque o PFL comandou o Estado por 16 anos. Muita gente está no governo desde o início da série de quatro mandatos pefelistas. Até membros do primeiro escalão, como Paulo Gaudenzi, que presidiu a Bahiatursa entre 1991 e 1994 e, a partir do ano seguinte, passou a secretário de Cultura e Turismo.

Em 17 secretarias, 19 autarquias, 10 empresas públicas e 6 fundações, o governo baiano contabiliza 15.579 cargos comissionados. "A reação foi de surpresa total. As pessoas estavam muito confiantes na permanência de Paulo Souto. Agora, o comentário é de que a festa de ano novo será fúnebre", diz uma funcionária terceirizada de órgão do governo, que pediu para não ser identificada.

A máquina estatal baiana tem pouco mais de 171 mil empregados. Quase 22 mil deles têm contrato temporário pelo regime especial de direito administrativo (Reda). Jaques Wagner afirma que ainda está analisando os primeiros dados sobre a estrutura de governo. Por isso, argumenta ele, ainda não sabe se o número de comissionados e terceirizados será mantido, reduzido ou mesmo ampliado.

Ele já deu sinais, entretanto, de que pretende restringir o uso do Reda para contratações. "Ainda vamos ver os dados. Pode ser até mesmo que tenhamos que aumentar o número de pessoas em algumas áreas, mas não sabemos. A máquina pública não pode viver só com funcionários concursados, mas vamos privilegiar os concursados", disse Jaques Wagner.

Em algumas áreas, há gente que, ao se sentir preterida, já se antecipou e preferiu sair antes do fim do mandato de Paulo Souto. Passada a eleição, a Propeg, agência de publicidade que prestou serviço ao governo durante o domínio pefelista, demitiu seus 35 funcionários que trabalhavam para o Estado. O número representava 35% da força de trabalho da empresa na Bahia.

"Ainda tínhamos mais um tempo de contrato, mas preferimos sair e deixar o novo governo à vontade para reconfigurar a administração. Não alimentamos expectativa de continuar a trabalhar para o governo do Estado", diz Fernando Barros, presidente da Propeg. Entre 25% e 30% do faturamento da agência era representado pela conta governamental, mas esse não era seu maior cliente, afirma Barros.

Pelo tempo de serviço prestado ao PFL baiano, a imagem da Propeg ficou fortemente identificada como de uma agência que trabalha com governos. Barros quer agora buscar clientes em outras áreas, como o ramo imobiliário, mas não descarta trabalhar com governos em outros Estados. Em sua unidade de Brasília, a agência presta serviços para o Ministério da Saúde.

Em outros setores, a iminência de mudança de governo tem atraído a atenção da iniciativa privada para os profissionais que podem deixar a área pública em pouco mais de dois meses. "Estamos vendo muitos headhunters agora. Toda hora aparece um", diz o presidente da Bahiatursa, Cláudio Taboada. A empresa de promoção do turismo baiano tem 208 funcionários. Desses, cerca de 20% são terceirizados, estima ele.