Título: Títulos embutem projeção de inflação global mais alta
Autor: Pinto, Lucinda
Fonte: Valor Econômico, 24/09/2012, Finanças, p. C2

As expectativas de inflação no mundo ganharam impulso nos últimos dias, com as medidas de estímulo monetário adotadas pelos principais bancos centrais. Essa trajetória, que pode ser observada na negociação de títulos públicos de diferentes países, como Estados Unidos, Alemanha, França, Reino Unido e Japão, tem como pano de fundo a aposta de que a injeção de recursos dos bancos centrais deverá inflar preços de commodities, como do minério de ferro e petróleo.

O movimento de alta das previsões de inflação vem acontecendo gradualmente desde o início de julho, quando começaram a se formar as expectativas de que a intervenção das autoridades monetárias seria inevitável. E ganharam força na semana passada, com o anúncio da nova rodada de injeção de liquidez.

A projeção de inflação dos títulos públicos indexados a índices de preço corresponde à diferença do rendimento do papel e da taxa prefixada de prazo equivalente negociada no país.

No caso dos Estados Unidos, a projeção de inflação embutida em títulos de dez anos oscilava ao redor de 2,50% ao ano, e chegou a atingir 2,64% na sexta-feira, "day after" da reunião do Federal Reserve que anunciou a terceira rodada do "quantitative easing". Levando-se em conta a média móvel relativa a um período de 50 dias (método estatístico que mede com mais clareza a tendência do indicador), é possível observar que a projeção de inflação bateu a máxima em 12 meses e oscilava, na semana passada, perto de 2,11%.

Da mesma forma, papéis do Reino Unido indicam que as projeções de inflação iniciaram uma trajetória de alta em meados de julho e acentuaram a escalada no pós-Fed. Na sexta-feira, as taxas superavam a casa dos 2,57%. Na França, a inflação prevista nos títulos está perto da máxima dos últimos 12 meses, de 2,13%. Na mesma toada, a inflação projetada pelos títulos alemães chegou à máxima em 12 meses, de 1,93% no dia após a decisão do Fed, e encerrou a semana perto de 1,88%. E, no Japão, onde a estabilidade é uma marca dos negócios, as estimativas saíram da casa do 0,50% ao ano no fim de julho para 0,60%. Por lá, as projeções eram negativas há um ano.

Esse movimento tem como pano de fundo a perspectiva de que o dinheiro extra que circulará nas mãos dos mercados globais nos próximos meses provocará valorização de preços de matérias-primas. De fato, a expectativa de que os BCs iriam agir garantiu ganhos importantes de algumas das commodities, embora analistas considerem o movimento especulativo. Tanto é que, depois do anúncio efeito do QE3, as commodities saíram as máximas. De todo modo, as ações de estímulo colocaram de volta no radar a discussão sobre a volta da inflação no mundo, após um período prolongado de preços comprimidos.

No Brasil, esse movimento tem reflexo direto nas NTN-Bs, papéis atrelados ao IPCA. A inflação implícita desses títulos vem avançando nos últimos dias, seguindo de perto o comportamento dos juros no exterior. "A questão externa vem sendo incorporada pelas implícitas há tempos", afirma a economista-chefe da Link Investimentos, Marianna Costa. "A partir da reunião do Fed, essa trajetória ganhou força, porque se imagina que o mundo vai ter mais inflação. Nada explosivo, mas é natural que o afrouxamento monetário seja acompanhado de mais inflação", explica.

A diferença entre os movimentos externos e o local é que, por aqui, a reação aos estímulos monetários ganha reforço da perspectiva de retomada do crescimento econômico e de um mercado de trabalho muito vigoroso. "Lá fora, os estímulos monetários puxam para cima as projeções de inflação, mesmo sem impulso da atividade", afirma Cristiano Souza, economista do banco Santander. "No Brasil, existe a expectativa de crescimento da atividade e o mercado de trabalho segue muito aquecido (a taxa de desemprego caiu para 5,3% em agosto, a menor para o mês na série histórica), o que pode provocar pressão sobre a inflação por meio dos preços de serviços."

A lista de estímulos concedidos, além dos "quantitative easing" dos EUA, Japão e zona do euro, inclui o anúncio de US$ 152 bilhões de investimentos em infraestrutura pela China, que podem garantir alguma recuperação a partir de 2013, dizem analistas.

No Brasil, além do corte de juros em cinco pontos percentuais, o governo flexibilizou o recolhimento de compulsório, cortou imposto da indústria e, recentemente, reduziu a tarifa de energia elétrica - ação que, teoricamente, tem efeito de alívio da inflação, embora seja ainda difícil mensurar em que medida isso acontecerá. "O governo brasileiro tumultuou o cenário de inflação, e é isso que fica claro quando se olha para as projeções de inflação no mercado", diz um analista que prefere não se identificar. "Não há sensação de descontrole inflacionário, mas certamente um desconforto que leva o mercado a pedir um prêmio mais alto para comprar títulos com algum componente prefixado."