Título: Previ apresentará candidato para conselho da Sadia
Autor: Bautzer, Tatiana
Fonte: Valor Econômico, 12/02/2007, Empresas, p. B2

A Previ deve apresentar candidato ao conselho da Sadia na próxima assembléia de acionistas, marcada para 19 de abril. O fundo de pensão ganhou recurso à Comissão de Valores Mobiliários (CVM) contra uma proposta de mudança do estatuto que inviabilizaria sua entrada no conselho.

A Sadia propunha proibir a entrada no conselho de representante de qualquer acionista que participasse de concorrente. A justificativa é "conflito de interesses". O presidente do conselho da Sadia, Walter Fontana, diz que a empresa levará em conta as observações da CVM, mas continuará com a intenção de mudar o estatuto para "proteger a companhia de conflitos de interesses no conselho". O texto será modificado pelos advogados da empresa e, então, reapresentado.

O diretor de participações da Previ, Renato Chaves, diz que a Sadia foi a única companhia que tentou barrar a presença do fundo de pensão no conselho por sua participação em outras empresas do mesmo setor. O fundo faz parte do grupo de controle da Perdigão, junto com Petros, Fapes, Valia, Sistel, Real Grandeza, Previ-Banerj, PSPP e a WegParticipações.

Os fundos de pensão rejeitaram a oferta hostil de compra da Perdigão feita pela Sadia no ano passado. Esse é um dos principais argumentos do presidente do conselho da Sadia, Walter Fontana, contra a presença da Previ no conselho. "Como poderíamos discutir nosso interesse em fazer uma oferta de compra da Perdigão com um membro do conselho que também é da Perdigão?", argumenta.

"A Previ é o maior investidor institucional do país e nosso objetivo é sempre aumentar o valor dos investimentos. Fazemos parte do conselho do Itaú e do Banco do Brasil e nunca tivemos problemas por isso", afirma Chaves. "Não queremos prejudicar nenhuma das companhias nas quais investimos, isso corresponde a rasgar dinheiro", disse o diretor da Previ. Fontana acredita que os investimentos são diferentes porque a Previ faz parte do grupo de controle na Perdigão. "Se o interesse nas duas empresas é igual, por que não permitir que os acionistas da Perdigão avaliassem a oferta?", pergunta.

No ano passado, a Previ apresentou como candidato um nome independente do fundo de pensão, Fernando Tigre, depois de negociar com Fontana. Na época a empresa já queria fazer uma reforma estatutária e abriu mão dela porque a Previ concordou em indicar um candidato que fosse de mercado e não dos quadros do Banco do Brasil. Na votação da assembléia, a superintendente da varejista Magazine Luiza, Luiza Helena, foi eleita com apoio de fundos estrangeiros. Agora, Chaves diz que "a decisão será dos minoritários", mas que pretende apresentar um candidato que contribua para a companhia, com experiência nas áreas de logística ou varejo e com um perfil também independente. A definição sobre o melhor nome será tomada num momento mais próximo à assembléia.

As relações entre Previ e Sadia só fizeram piorar depois que os fundos recusaram a oferta pela Perdigão. Walter Fontana diz que "os fundos nem deram a chance aos acionistas de avaliar o negócio. Nossa oferta adicionava R$ 700 milhões aos preços de hoje em bolsa". O presidente do conselho da Sadia nega que esteja magoado com a Previ, mas diz que não teve mais contato com o fundo desde a oferta frustrada. A Previ não foi consultada sobre a proposta de mudança do estatuto. Chaves diz que a oferta da Sadia pela Perdigão foi rejeitada não apenas pela Previ, mas por um grupo de acionistas que detêm juntos mais de 50% da companhia - e, como a oferta era pelo controle, não fazia sentido apresentá-la aos demais acionistas.

Em novembro, o fundo de investimentos americano Dodge & Cox, comunicou à CVM e à SEC, órgão regulador do mercado americano, ter atingido participação de 10,2% em ações preferenciais, o que lhe daria prioridade na indicação do conselheiro dos minoritários. Mas o executivo do fundo, Thomas Mistele, disse por telefone ao Valor que a indicação de conselheiros "não é prática de nossos fundos".

À parte a disputa em torno da composição do conselho, a Sadia ainda está lidando com as consequências das investigações pela CVM e SEC por suposto uso de informação privilegiada com ações da Perdigão durante o período da oferta. Depois da saída do ex-diretor financeiro Luiz Gonzaga Murat, a companhia anunciou no início de dezembro a renúncia do conselheiro Romano Ancelmo Fontana Filho. O presidente do conselho diz que a companhia não tem conhecimento de que Romano seja alvo de investigações.

O representante da família Furlan no conselho de administração, Osório Henrique Furlan, pai do ministro do Desenvolvimento Luiz Fernando Furlan, transferiu todas as ações de sua propriedade para uma empresa de participações cujo controle acionário está dividido entre seus cinco filhos. Aos 85 anos, retirou-se da empresa de participações Administradora e Comercial Old, e permanece no conselho sem deter ações diretamente. O ministro Furlan é o que tem a maior participação na Old, de 20,06%, o que reacendeu rumores de que ele deixaria Brasília para voltar ao cargo na Sadia. Fontana diz que não sabe se Furlan voltará ou não à companhia.

O parecer da CVM diz que a reforma estatutária proposta pela Sadia não pode, por exemplo, proibir um acionista de indicar um conselheiro. Cabe à assembléia decidir se ele é ou não independente e, portanto, eficaz para a companhia. A empresa também não pode impedir que seja apresentado um candidato novo dos minoritários na data da assembléia, embora possa recomendar que os nomes sejam apresentados com 10 dias de antecedência.