Título: Ideli monta alianças em SC para palanque de Dilma na reeleição
Autor: Casado , Letícia
Fonte: Valor Econômico, 04/10/2012, Política, p. A6
Num Estado em que o PSD aglutinou a oposição em torno do governador Raimundo Colombo, a ministra das Relações Institucionais, Ideli Salvatti, atuou para assegurar que PT e aliados tenham um desempenho eleitoral capaz de manter um palanque competitivo à reeleição da presidente Dilma Rousseff em 2014.
O projeto político do PT a capital de Santa Catarina, passa, necessariamente, pelo PCdoB. O partido não tem força para garantir uma candidatura à Prefeitura de Florianópolis e ficou a reboque de um nome forte no município, que encontrou em Angela Albino, do PCdoB. A ministra de Relações Institucionais Ideli Salvatti ajudou a costurar Nildomar Freire (PT) como vice na chapa. A aliança se tornou essencial para o projeto político do Partido dos Trabalhadores de governar a cidade, tradicionalmente comandada por opositores do PT. As famílias Amin e Bornhausen ainda têm grande influência na capital e no Estado, um dos dois que o PSD governa. O outro é o Amazonas.
"A questão mais decisiva foi antes do processo eleitoral, para construir a unidade no PT e a aliança com o PCdoB", diz Ideli. "Não foram coisas públicas, mas eu me dediquei bastante", conta a ministra. "A partir disso, fiquei mais recolhida."
Sua articulação envolveu desde a discussão sobre prévias até a aliança entre PT e PCdoB e conversas com o PMDB. Sua atuação política, afirma, foi o mais importante de sua contribuição para a campanha da capital. "Conversamos, eu, Angela [Albino] e Dario [Berger, do PMDB, atual prefeito e que apoia Gean Loureiro, candidato pelo mesmo partido]. O adversário comum é o Cesar Souza [Junior, do PSD, apoiado pelo governador Raimundo Colombo, do mesmo partido]", diz a ministra.
PT e PMDB formam chapa pela prefeitura em São José, na região metropolitana de Florianópolis. O atual prefeito Djalma Berger, irmão de Dario, prefeito de Florianópolis, tenta a reeleição, e tem como vice Círio Vandresen (PT). A principal oponente é a chapa formada por PSD e PSDB, com Adeliana Dal Pont na cabeça e José Natal como vice.
Com 142 mil eleitores e 210 mil habitantes, São José é a quarta maior cidade do Estado. Em Florianópolis, a chapa de Angela Albino e Nildomar Freire evita confrontar com a de Gean Loureiro e Rodolfo Luz, ambos do PMDB.
Ideli Salvatti foi a autoridade do governo federal com maior participação nas campanhas em Santa Catarina; ela visitou em torno de 50 cidades catarinenses em todas as regiões do Estado. Nas maiores, foi mais de uma vez. O PT tem nesta eleição 92 candidatos a prefeito e 74 a vice, num Estado de 293 municípios. Atualmente, tem 36 prefeituras e ocupa a vice em outras 30.
A ministra, que participou da fundação do PT em Santa Catarina, não se concentrou apenas nas cidades onde o seu partido disputa uma vaga. Ideli foi a Lages - duas vezes governada por Colombo -, fazer campanha para Elizeu (PMDB) e seu vice Toni Duarte (PPS).
José Fritsch, presidente do diretório estadual do PT em Santa Catarina, diz que, como os ministros não podiam fazer campanha durante a semana, Ideli viajou com frequência nos fins de semana. "Fizemos um mutirão para cobrir todas as 91 cidades", afirma, acrescentando que outras lideranças do partido, como o ministro Alexandre Padilha, da Saúde, e líderes regionais participaram dessa organização.
Os acordos de PT e PMDB foram cruciais para ambos. "Temos um número significativo de aliados com o PMDB", diz Ideli. Felipe Damo, vice-presidente do diretório estadual, diz que um levantamento feito no primeiro semestre deste ano mostrou que o PMDB já é o principal aliado do PT em Santa Catarina.
Natural de São Paulo, a ministra do PT fez sua carreira política em Santa Catarina. Foi eleita duas vezes deputada federal (1994 e 1998) e senadora (2002). Foi também ministra da Pesca e da Aquicultura no governo de Dilma Rousseff e comanda o Ministério de Relações Institucionais desde o ano passado. "É a autoridade pública [de Santa Catarina] que está no mais alto escalão do governo federal", resume Angela Albino, justificando a importância de Ideli Salvatti em sua campanha. E acrescenta: "Ela é uma liderança, ajuda a atrair votos e é uma grande articuladora também".
O PT, segundo Ideli Salvatti, tem objetivos "muito claros" no Estado: manter os municípios que governa e reconquistar os que perdeu.
Em 2008, Angela Albino e Nildomar Freire disputaram a prefeitura, independentes um do outro. Perderam. Ela ficou em quarto lugar, com 12% dos votos e ele, em quinto, com 6,8%. Perderam também para o atual líder nas pesquisas desta eleição, Cesar Souza Junior (PSD), para a ex-prefeita Ângela Amin (PP) e para o atual prefeito, Dario Berger (PMDB), que se reelegeu.
Este ano foi diferente. "Nossa leitura é que se tivéssemos nos dividido com o PT, como em 2008, íamos dividir entre nós quem poderia fazer mais votos. Isso não nos interessa", diz Angela Albino. "O PCdoB sem o PT não tinha viabilidade. E o PT sem o PCdoB também não. Juntamos forças e temos viabilidade. Tanto é que estamos disputando cabeça a cabeça a liderança em Florianópolis."
PSD e PP também se uniram - Souza Junior encabeça a chapa e está empatado tecnicamente com Angela no primeiro lugar das intenções de voto, segundo o Ibope, e tem João Amin, filho do deputado federal Esperidião Amin e da ex-prefeita Ângela Amin, como vice.
Essa reorganização e polarização de forças prepara o Estado para a corrida eleitoral de 2014. "Nossa prioridade para 2014 é o projeto nacional, é Dilma", diz Ideli. "Nós temos um projeto comum hoje, que é a reeleição da Dilma", confirma Angela Albino.
O atual governador, Raimundo Colombo, é candidato "natural" de seu partido à reeleição, diz o deputado Esperidião Amin (PP). O atual prefeito de Florianópolis Dário Berger (PMDB) termina seu segundo mandato no fim deste ano e tenta eleger Gean Loureiro, do mesmo partido e em terceiro lugar nas pesquisas, como seu sucessor.
"Eu não vejo um nome no PCdoB para disputar o governo do Estado. Naturalmente isso viria do PT", diz Angela Albino. Ela acrescenta que o PT tem "muitas lideranças que podem cumprir essa tarefa" de se candidatar ao governo estadual e que as possibilidades passam pela capacidade de construção da aliança. Angela cita alguns nomes, como "a própria ministra Ideli", Cláudio Vignatti (secretário-executivo da Secretaria de Relações Institucionais), Décio Lima (deputado federal), Carlito Merss (atual prefeito de Joinville, que tenta a reeleição), Pedro Uczai (deputado federal que tenta se eleger prefeito de Chapecó) e Luci Choinacki (deputada federal).
Fritsch diz que o PT tem a meta de aumentar sua força no Estado e construir uma candidatura estadual. "Queremos de fato disputar a eleição de 2014", afirma, porém sem citar nomes que poderiam ocupar o cargo. "Não temos nenhuma discussão sobre nomes, por enquanto."
Damo, também do diretório estadual, diz que projeto do partido para 2014 passa por alianças que começarão a ser discutidas depois da eleição de outubro.
"Aqui em Santa Catarina a matriz do PSD é muito próxima de Jorge Bornhausen", diz. "Isso à luz de hoje", acrescenta, sem descartar a possibilidade do PSD se tornar aliado.
O PT disputa outras prefeituras importantes no Estado. Em Joinville - maior cidade catarinense, com 365 mil eleitores e 515 mil moradores - deve sofrer uma derrota e não reeleger Carlito Merss, que tem 15% das intenções de voto e está em quarto lugar na pesquisa do Ibope, atrás de Kennedy (PSD), Tebaldi (PSDB) e Udo Dohler (PMDB).
Em Blumenau, a deputada estadual petista Ana Paula Lima está empatada tecnicamente em primeiro lugar com Jean Kuhlmann (PSD). Em Itajaí, o Ibope aponta Jandir Bellini (PP) com 60% das intenções de voto, seguido por Níkolas Reis (PT), com 14% e Dr. Deodato (PSDB), com 13%. "Eleição não é só ganhar prefeito. Tem vereador também", diz Damo, do diretório estadual.