Título: Sindicatos do Canadá ficam apreensivos com chegada da Vale
Autor: Balthazar, Ricardo
Fonte: Valor Econômico, 25/10/2006, Empresas, p. B8

Os empregados da mineradora canadense Inco tiveram poucos motivos para se queixar ultimamente. O trabalho nas minas continua uma dureza, mas o pagamento nunca foi tão bom. Com a alta dos preços do níquel, o metal que é a fonte principal da riqueza da companhia, cada operário levará para casa neste ano um bônus equivalente a US$ 10 mil. Fora o salário, que é o melhor da indústria no Canadá.

Um acordo fechado em junho pela Inco com o sindicato que representa os trabalhadores impede demissões na companhia por três anos, até 2009. Talvez nem fosse necessário. A empresa precisa de gente para tirar todo níquel que puder de baixo da terra e recentemente abriu suas portas para novas contratações.

Apesar da bonança, há um clima de apreensão em Sudbury, a pequena cidade no interior do Canadá onde a Inco nasceu há mais de um século e até hoje mantém o grosso de suas atividades. Com a venda da mineradora para a Companhia Vale do Rio Doce (CVRD), todos no lugar têm medo de que a alegria dos últimos tempos chegue ao fim.

A maioria das pessoas que vivem na cidade sabe pouco sobre o Brasil e nunca tinha ouvido falar da Vale antes de ela aparecer nos jornais canadenses. A falta de informações sobre a empresa e seus planos para a Inco tem alimentado desconfianças de todo tipo, um problema com o qual a Vale precisará lidar logo que assumir o controle da empresa.

O sindicato dos trabalhadores vai receber os novos patrões de cara feia. "Nossos recursos minerais são como o ar, a água e as árvores, e deveriam ser administrados para o benefício dos canadenses", diz Wayne Fraser, diretor dos Metalúrgicos Unidos (USW, na sigla em inglês) na província canadense de Ontario. "O governo nos traiu ao permitir a venda da Inco para a CVRD."

Ele quer saber se a Vale vai manter os investimentos planejados pela Inco na região. Espera que a empresa contrate executivos canadenses em vez de trazer brasileiros para dirigir a Inco. E não quer saber de mudanças nos compromissos assumidos pela mineradora com os empregados e os milhares de aposentados que recebem da Inco, além das pensões, ajuda para cuidar da saúde e comprar remédios.

Também há preocupação entre os empresários. Centenas de pequenas empresas da região dependem de contratos assinados com a Inco e a outra grande mineradora que explora o níquel de Sudbury, a Falconbridge. Muitas dessas companhias estão em grande forma e vendem seus serviços para vários outros países, mas elas temem que os novos donos da Inco decidam trocá-las por novos fornecedores.

Com 155 mil habitantes, Sudbury é uma cidade em que os executivos podem tratar de negócios enquanto vêem os filhos jogando hóquei nos fins de semana. "As pessoas se acostumaram a trabalhar com relações muito próximas e por isso estão ansiosas para saber o que vai acontecer", diz Richard DeStefano, diretor de uma associação que defende 54 fornecedores de equipamentos e serviços de engenharia para as mineradoras.

-------------------------------------------------------------------------------- Conhecimento de geólogos canadenses pode ser valioso para exploração de minas subterrâneas da Inco --------------------------------------------------------------------------------

Muito dessa ansiedade é resultado do processo turbulento que a Inco atravessou antes de virar propriedade da Vale. A empresa esteve perto de ser absorvida por três diferentes mineradoras nos últimos meses e todos os esforços para mantê-la sob controle canadense fracassaram. Sua vizinha em Sudbury, a Falconbridge negociou uma fusão com a Inco, mas também acabou sob controle de uma empresa estrangeira, a suíça Xstrata.

O sindicato dos trabalhadores, empresários e líderes políticos locais trabalharam o tempo todo contra a venda das duas empresas para concorrentes estrangeiros. Na tentativa de persuadir o governo a vetar a Xstrata, o sindicato promoveu até uma campanha de difamação contra seus acionistas, com anúncios em jornais e pressão sobre o Parlamento canadense.

Embora o governo tenha se revelado indiferente a essas pressões, há uma preocupação crescente no Canadá com o aumento da presença estrangeira. "Alguns dos investidores por trás dessas aquisições só pensam em obter retornos elevados e não se interessam pelas pessoas e pelas comunidades em que essas empresas estão", diz a presidente da Câmara de Comércio de Sudbury, Debbi Nicholson.

Há uma impressão geral de que a transferência dos centros de decisão de companhias como a Inco para longe do país traz perdas significativas. Executivos canadenses acham que suas carreiras serão abortadas e as melhores posições passarão a ser ocupadas por forasteiros. "É um fator que pode afetar muito nossa competitividade no longo prazo", afirma o professor Joseph D´Cruz, da Escola de Administração Rotman, de Toronto.

Esse ambiente pode criar dificuldades para a Vale, mas alguns desses temores podem ser atenuados rapidamente. Fechada a aquisição da Falconbridge, a Xstrata contratou profissionais canadenses para postos-chave na administração de suas operações em Sudbury, desfazendo a má impressão deixada pela agressividade que exibiu na batalha pela posse da companhia.

A mineradora suíça manteve a maioria dos contratos da Falconbridge com fornecedores locais. Ela percebeu logo o valor da experiência acumulada por seus engenheiros e geólogos, que conhecem as minas de Sudbury melhor do que os concorrentes estabelecidos em outros países. É um conhecimento ainda mais valioso para a Vale, acostumada a explorar minas a céu aberto, muito diferentes dos depósitos subterrâneos da Inco.

O relacionamento com os trabalhadores pode ser mais complicado. Neste ano uma greve organizada pelo USW paralisou por dois meses as atividades de uma mina aberta recentemente pela Inco em Voisey´s Bay, na costa Leste do Canadá. A empresa queria pagar ali salários e benefícios menores que os de Sudbury, mas teve de mudar seus planos para ver a greve acabar.

O USW é um sindicato poderoso, que representa operários de vários setores da indústria e atua nos Estados Unidos e no Canadá. Em setembro, uma delegação foi despachada para o Brasil para levantar informações sobre a Vale. Seus integrantes falaram com dirigentes da Central Única dos Trabalhadores (CUT) e ouviram coisas ruins sobre a empresa e suas relações com sindicatos e ambientalistas no Brasil.

"Tivemos muitas brigas com a Inco no passado, mas ela pelo menos era o diabo que conhecíamos", diz Dan O´Reilly, coordenador da área internacional do USW em Sudbury e chefe da delegação que visitou o Brasil. O´Reilly aprendeu bastante sobre a distância que separa o Brasil do Canadá. Entre outras coisas, ele descobriu que um mineiro canadense ganha em uma semana o equivalente ao que um trabalhador da Vale ganha ao longo de um mês.