Título: Bônus espanhol recua com demora em pedido de ajuda
Autor: Charlton, Emma ; Mnyanda, Lukanyo
Fonte: Valor Econômico, 05/10/2012, Finanças, p. C2

Os bônus do governo da Espanha caíram ontem pelo segundo dia consecutivo, num momento em que o país resiste em pedir um pacote de socorro e diante da declaração do presidente do Banco Central Europeu (BCE), Mario Draghi, de que o país ainda enfrenta desafios significativos.

Os títulos espanhóis recuaram após o país ter vendido € 3,99 bilhões em títulos de dois, três e cinco anos, enquanto resiste a pedir ajuda financeira - fator que desencadearia a compra de seus papéis pelo BCE. As notas de dois anos da Alemanha caíram depois de Draghi dizer que as autoridades não discutiram um corte de juro em sua reunião (a taxa de refinanciamento foi mantida em 0,75%).

Os bônus da Finlândia, de classificação máxima, também recuaram, em vista de o dirigente do BCE ter reafirmado que o euro é "irreversível". "O mercado quer ver uma solicitação de ajuda, e isso está pressionando os bônus espanhóis", disse Alessandro Giansanti, estrategista-sênior do ING em Amsterdã. "O leilão foi bastante bom em termos da demanda, porque os bônus foram vendidos na área em que o BCE poderá comprar, caso a Espanha peça ajuda."

Os rendimentos dos papéis espanhóis de dois anos subiram 6 pontos-base, ou 0,06 ponto percentual, para 3,29% no fim da tarde. O retorno do título de 10 anos subiu 9 pontos-base, para 5,90%. A Espanha vendeu notas com vencimento em 2015 ao rendimento médio de 3,956%, superior aos 3,845% da venda anterior, de 20 de setembro.

O país leiloou papéis com vencimento em outubro de 2014 a um retorno de 3,282%, e em julho de 2017 a 4,766%. Os investidores revelaram interesse de compra correspondente a 1,98 vez o número de notas de três anos postas à venda, demanda maior que a de 1,56 vez registrada no mês passado.

Autoridades supervisoras da União Europeia (UE) disseram à Espanha que o plano do país de reduzir o déficit público para 4,5% do Produto Interno Bruto (PIB) em 2013 se baseia em suposições excessivamente otimistas, disseram duas pessoas familiarizadas com a questão. Olli Rehn, o comissário europeu encarregado de policiar as normas orçamentárias, entregou a avaliação preliminar ao ministro da Economia da Espanha, Luis de Guindos, em reunião realizada em Madri no dia 1º.

O BCE está preparado para realizar compras de bônus "no momento em que os pré-requisitos tiverem sido atendidos", disse Draghi. De Guindos afirmou que as autoridades ainda examinam a necessidade de ajuda da União Europeia. O primeiro-ministro da Itália, Mario Monti, disse na semana passada que o auxílio não deveria depender de outras condições além das que já contaram com o compromisso dos dirigentes.

O crescimento econômico da região "deverá permanecer fraco, em vista das tensões em curso em alguns mercados financeiros da zona do euro e do alto grau de incerteza que ainda pesa sobre o nível de confiança e o sentimento [do mercado]", disse Draghi. Mesmo assim, as autoridades monetárias não discutiram a redução das taxas de juros. Os "bunds" (títulos alemães) caíram após a reunião do BCE de 6 de setembro, com a revelação por Draghi do novo programa de compra de títulos.

O BCE agirá se os países solicitarem ajuda ao fundo de socorro financeiro da zona do euro, o Mecanismo de Estabilidade Europeia (ESM, na sigla em inglês), que passaria então a adquirir bônus dos governos no mercado primário. "A situação da zona do euro está longe de estar solucionada", disse John Wraith, estrategista de renda fixa do Bank of America Merrill Lynch, em Londres. "Consideramos que vai piorar antes de voltar a melhorar, dado que o mercado forçará a Espanha a pedir resgate financeiro."