Título: Eleição legislativa nos EUA será mais cara da história
Autor: Balthazar, Ricardo
Fonte: Valor Econômico, 26/10/2006, Internacional, p. A14
As eleições legislativas de novembro nos Estados Unidos serão as mais caras da história. Empresas, sindicatos e grupos de interesse devem contribuir até o fim da campanha com US$ 2,6 bilhões para financiar os dois partidos que dominam a política americana, conforme um estudo divulgado ontem pelo Centro para a Política Responsiva (CRP, na sigla em inglês).
Esse valor representa um aumento de 18% em relação às doações registradas pelos candidatos que concorreram às eleições legislativas de 2002. Em 2004, as contribuições para os partidos somaram US$ 4,2 bilhões, mas naquele ano houve eleições para presidente junto com a disputa pelo Congresso, que se repete a cada dois anos.
O aumento das contribuições reflete o acirramento da campanha deste ano. As pesquisas indicam que o Partido Democrata tem boas chances de retomar o controle sobre o Congresso, encerrando mais de uma década de domínio do Partido Republicano. As eleições serão no dia 7 de novembro. Estão em jogo as 435 cadeiras da Câmara e 33 das 100 que compõem o Senado.
Para voltar a ter a maioria no Congresso, os democratas precisam ganhar 15 cadeiras na Câmara e seis no Senado. Do jeito que o sistema político americano funciona, é dificílimo tirar a reeleição de um congressista no meio do mandato, mas a impopularidade do governo George Bush, as notícias ruins da guerra no Iraque e uma série de escândalos envolvendo políticos republicanos aumentaram as chances dos democratas desta vez.
As projeções do CRP indicam que os republicanos terão cerca de US$ 1,4 bilhão para gastar na eleição e os democratas, US$ 1,2 bilhão. A diferença reproduz um padrão de campanhas passadas, mas grandes doadores que estavam acostumados a apostar quase todas as fichas nos republicanos ampliaram neste ano suas contribuições para os democratas.
Gigantes como a seguradora AIG, o laboratório farmacêutico Roche e o grupo Time Warner aumentaram suas doações para os democratas, de acordo com um levantamento produzido recentemente pela PoliticalMoneyLine, uma empresa que mantém uma base de dados minuciosa sobre o tema na internet.
Dinheiro não é tudo numa eleição. Mas numa disputa acirrada como a deste ano ele pode ser decisivo na reta final da campanha, aumentando a capacidade dos partidos de bombardear os adversários com anúncios na televisão e pôr para trabalhar os exércitos de ativistas necessários para fazer os eleitores sair de casa para votar, num país em que o voto é facultativo e o desinteresse do eleitorado é enorme.
De acordo com o CRP, escritórios de advocacia, lobistas, bancos, seguradoras e o setor imobiliário foram os maiores contribuintes deste ano, mantendo uma tendência observada em eleições anteriores. O maior contribuinte individual foi a Associação Nacional dos Corretores de Imóveis, que gastou quase US$ 2,7 milhões até setembro.
O segundo maior doador foi o banco de investimentos Goldman Sachs, que distribuiu pouco mais de US$ 2,6 milhões até meados de setembro. Candidatos do Partido Democrata ficaram com 61% do dinheiro. O banco foi presidido até recentemente pelo atual secretário do Tesouro, Henry Paulson, que deixou a posição em maio para trabalhar no governo republicano.
A análise do CRP sugere que surtiram pouco efeito os esforços recentes para conter os gastos das campanhas eleitorais nos EUA e restringir a permanente troca de favores entre os políticos e seus financiadores. Mudanças introduzidas na legislação em 2002 estabeleceram limites mais rigorosos para as doações de grandes empresas e sindicatos, mas o estudo mostra que as contribuições cresceram.
Boa parte do dinheiro agora flui por meio de grupos de interesse e comitês beneficiados por uma brecha legal que lhes permite gastar com grande liberdade se determinadas condições forem respeitadas. Eles não podem apoiar candidaturas individuais, mas podem beneficiar os partidos indiretamente, financiando esforços para mobilização de eleitores e anúncios políticos de caráter mais genérico.
O investidor George Soros, que há alguns anos se tornou um dos maiores financiadores do Partido Democrata, distribuiu mais de US$ 2,9 milhões para grupos desse tipo desde que a atual campanha começou. Em 2004, quando Bush se reelegeu, Soros gastou US$ 23,5 milhões tentando ajudar os democratas a vencer os republicanos.