Título: Venezuela vai às urnas sob temor de resultado apertado
Autor: Murakawa, Fabio
Fonte: Valor Econômico, 05/10/2012, Internacional, p. A21

Disputa na Venezuela: o presidente Hugo Chávez (esq.), que tenta a reeleição, e o oposicionista Henrique Capriles

Na véspera da eleição presidencial, os venezuelanos vivem um clima de incerteza. Com a ascensão do candidato de oposição Henrique Capriles nas pesquisas mais recentes, ninguém mais dá como certa uma vitória do presidente Hugo Chávez, há 14 anos no poder e que tenta se reeleger para um novo mandato de seis anos. Além disso, e mais preocupante, há dúvidas sobre se o lado perdedor, seja qual for, aceitará o resultado das urnas.

A divulgação de pesquisas de intenção de voto está proibida desde o último domingo no país. Mas analistas dão como cenário mais provável uma vitória, mas apertada, do presidente Chávez. Outros dois cenários possíveis seriam uma vitória do atual presidente por uma margem folgada de votos ou um triunfo de Capriles, também por uma pequena diferença.

São justamente os cenários de vitória apertada os que causam mais preocupação, apesar de os dois candidatos e as Forças Armadas já terem prometido que acatarão o resultado, seja ele qual for. A preocupação, dizem analistas e empresários, é com radicais de ambas as partes, que podem não necessariamente seguir a postura defendida publicamente pelos candidatos.

"O cenário mais complicado seria um resultado eleitoral muito apertado, que prolongue demais o anúncio oficial ou que faça com que uma das partes peça uma recontagem de votos", diz Jorge Botti, presidente da Fedecámaras, a principal entidade empresarial do país. "Isso significaria um cenário de instabilidade por algum tempo. Algo parecido com o que aconteceu com Andrés Manuel López Obrador no México. Um cenário de muita tensão na rua, até que finalmente se aceite o resultado."

Em meio a uma certa desconfiança sobre a reação dos militares a uma eventual derrota de Chávez, Capriles deu uma sinalização importante. Nesta semana, o candidato de oposição afirmou já ter escolhido seu ministro da Defesa, que seria, segundo ele, um general na ativa das Forças Armadas.

"Ele tentou dizer com isso que não haveria problemas caso fosse eleito. E deu um sinal importante aos militares de que trabalharia com os recursos de que hoje dispõem as Forças Armadas", diz Héctor Briceño, professor do Centro de Estudos de Desenvolvimento da Universidade Central da Venezuela (UCV). "Isso ajudou a diminuir um pouco o clima de incerteza."

A campanha eleitoral na Venezuela terminou oficialmente ontem, com megacomícios dos dois candidatos. Tida como a disputa mais acirrada da história recente venezuelana, ela expôs como nunca a polarização que existe no país. Essa divisão entre chavistas e antichavistas ficou explícita não somente nas conversas sobre política - um dos temas preferidos dos venezuelanos. Ficou evidente também nas emissoras de TV, nas páginas de jornais e nos institutos de pesquisa, cada qual pendendo para um lado.

A doença do presidente - um câncer do qual ele se diz curado - tirou-lhe parte do fôlego para o corpo a corpo com o eleitor, deixando-o em desvantagem contra o rival nesse quesito. Enquanto Capriles percorreu mais da metade dos municípios do país, a maratona de Chávez foi na TV. Aproveitando-se de suas prerrogativas como presidente, ele apareceu por 57 horas em cadeia nacional desde o início da campanha, em julho, em eventos não ligados diretamente à campanha. Da entrega de casas de seu principal programa social, o "Gran Misión Vivienda", ao lançamento do satélite Simón Bolívar, na China, lá estava o presidente em aparições que duravam, em média, 90 minutos, segundo o jornal "El Nacional".

Nas últimas duas semanas de campanha, no entanto, Chávez fez um esforço de retomada da campanha de rua. Fechou o ciclo ontem, com um megacomício em Caracas, sob forte chuva e com um discurso emotivo, como de costume. "Com esta chuva, nos consideramos abençoados pela mão de Deus. É um prelúdio do que vai ocorrer no domingo. Ganha Chávez no dia 7 de outubro."

Capriles fechou a campanha visitando três Estados diferentes, dizendo que sua vitória é a vitória de todos. "Nós vamos ganhar as eleições no próximo domingo, mas esse triunfo não se trata de colocar outra pessoa na Presidência. Esse triunfo se trata de que você, senhora, viva tranquila e aqui não haja violência, não haja medo de falar, de dizer o que se pensa."