Título: Pearson traça estratégia para crescer em países emergentes
Autor: Malta, Cynthia
Fonte: Valor Econômico, 26/10/2006, Empresas, p. B4
Marjorie Scardino fez recentemente sua primeira visita ao Brasil. Seu nome no país é praticamente desconhecido. Ela é a principal executiva da Pearson, britânica, um dos mais importantes grupos de mídia do mundo e possivelmente o maior na área de educação. O objetivo da viagem foi conhecer o mercado brasileiro.
A educação é o principal negócio da Pearson, responsável por dois terços da receita de US$ 7 bilhões no ano passado. O grupo controla também a editora de livros Penguin e o jornal Financial Times. As operações estão muito concentradas nos Estados Unidos (66%) e na Europa (24%), e Scardino pretende ampliar as atividades do grupo para outras regiões de renda mais baixa.
Na semana passada, ela disse ao Valor que cem executivos do setor de educação viajaram a diversos países em fase de desenvolvimento - como China, Índia, África do Sul, Dubai, Egito, Polônia e Brasil - para estudar suas características e avaliar o potencial do mercado. Em anos anteriores, os executivos se reuniam num único país. Esta foi a primeira vez que Scardino decidiu espalhar a cúpula para identificar oportunidades em outras regiões antes de decidir onde investir. Ela fez questão de vir ao Brasil e teve encontros durante três dias com editores, professores e economistas.
A Pearson já vende no país material didático universitário. Uma das possibilidades, agora, é entrar no ensino médio. "Somos fortes nas universidades. Não somos nas escolas, mas queremos ser", disse Scardino. Seu diagnóstico sobre o mercado é cauteloso, mas faz uma sugestão: "O brasileiro está olhando muito para a China, mas deveria estar prestando atenção na Índia, onde a evasão escolar é de apenas 3,5% e não de 30% como no Brasil".
Ela aposta no ensino por computador. Menciona especificamente o software "Math Lab", algo como Laboratório de Matemática, que acredita ser útil para o Brasil. O sistema foi desenvolvido para acompanhar o raciocínio do aluno enquanto ele tenta resolver uma equação matemática. Seus erros são interpretados pelo computador, que traça um diagnóstico do estudante e ajuda o professor a direcionar as aulas. Em escolas da Califórnia, onde o sistema foi usado, o rendimento dos alunos melhorou 50% nas aulas.
Nos Estados Unidos, o "Math Lab" tem um preço fixo por aluno, para um período escolar de seis meses. Scardino reconhece que desenhar uma política de preços para países de baixa renda é um dos desafios que tem pela frente. No caso do Laboratório de Matemática, por exemplo, ela lembra que a tecnologia, que é a parte mais cara de um projeto desse porte, já está desenvolvida. Traduzir o sistema para o português, com ajuda de professores recrutados nas universidades brasileiras, deixaria o produto pronto para ser vendido - por um preço inferior ao dos EUA.
A CEO do grupo Pearson também espera um aumento do investimento na educação básica. Ela lembra que o Chile, por exemplo, gasta US$ 1,5 mil em cada criança, por ano; o Brasil, apenas US$ 500. No entanto ela é otimista em relação ao futuro da educação no país, onde a Pearson decidiu operar com foco regional e abriu recentemente um escritório no Recife. Os consumidores no Nordeste não estão comprando apenas mais alimentos, roupas e cosméticos. Há também sede de conhecimento. "Estamos muito otimistas com as perspectivas no Nordeste", disse Guy Gerlach, presidente da Pearson brasileira.
Scardino não descarta a possibilidade de fechar parcerias ou fazer aquisições no Brasil ou nos demais países para onde despachou seu exército de executivos na semana passada. Ela vai reuni-los no final de novembro, quando serão apresentados os relatórios sobre as oportunidades de negócios nesses mercados. Este encontro será decisivo para os investimentos da Pearson no Brasil.