Título: "FHC foi cabo eleitoral de Lula", diz especialista
Autor: Agostine, Cristiane
Fonte: Valor Econômico, 27/10/2006, Política, p. A12

A radicalização da campanha eleitoral marcou as eleições e a ausência de debates programáticos abriu espaço para a disputa marcada pelo carisma. A vantagem recaiu sobre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, cujo mandato foi marcado pelos altos índices de popularidade, sempre maiores que a avaliação de seu governo. E mesmo a avaliação de seu governo foi sempre melhor do que a do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. A opinião é da doutora em Ciência Política e professora livre docente da PUC-SP, Vera Chaia.

Especialista na área de mídia, política e opinião pública, Vera investiu parte de sua carreira acadêmica nos estudos sobre eleições, comportamento político e escândalos no poder. Para ela, a herança deixada pelo tucano FHC foi pesada para Geraldo Alckmin e mal-administrada por sua campanha política. O erro estratégico, e que pode ter sido o tiro fatal na candidatura tucana foi a compra da agenda colocada pela campanha do PT. A seguir, trechos da entrevista concedida na 30ª edição do encontro da Associação Nacional de Pós Graduação e Pesquisa em Ciências Sociais (Anpocs).

Valor: A campanha eleitoral, que termina hoje, foi marcada por denuncias envolvendo apenas um dos candidatos. Apesar de ter sido uma das disputas com mais acusações, não conseguiu reverter a liderança do presidente Lula. Quais outras peculiaridades dessa campanha?

Vera Chaia : A radicalização do PT e do PSDB foi a maior novidade desse processo eleitoral. São os dois partidos políticos mais significativos hoje na arena política brasileira, que nasceram no mesmo berço das lutas sociais. Ambos têm uma característica bem marcante, paulista, mas agora radicalizaram em função das posições políticas, que são muito diferentes. Não são necessariamente diferentes na política econômica, em uma série de propostas do governo passado. Mas são diferentes na maneira de governar, na personalidade política. Isso se acentuou e a radicalização se deu de ambas as partes. Por conta dos candidatos, das lideranças, das propagandas eleitorais, dos debates.

Valor: O acirramento da disputa já não era presente em 2002, quando Lula disputou com Serra?

Vera: Era notada, mas não havia os escândalos políticos provocados por uma facção política do PT, que fez eclodir uma animosidade muito grande por parte do PSDB. Mas outra novidade foi a desvinculação de Lula em relação a esses escândalos. A imagem dele continua positiva em relação a tudo o que aconteceu. Há um lado muito importante de Lula que é o carisma. Isso o diferencia dos outros políticos de modo geral, mas especialmente de Alckmin. Outra característica é a personalidade política. Nela fica mais evidente o carisma.

Valor: Durante o governo Lula, a imagem pessoal do presidente sempre foi melhor do que a avaliação do seu governo. Como explicar essa manutenção da imagem?

Vera: O lado pessoal e marcante. Lula se desvencilhou da imagem negativa do PT e dos escândalos. Houve uma blindagem em torno dele. Mas não foi só o carisma. Em todos os escândalos apresentados, houve uma reação imediata do governo, com a divulgação das propagandas institucionais, uma contraposição. Foi uma estratégia fantástica do ponto de vista da campanha eleitoral. Não se deixava o assunto repercutir de forma demasiada. O presidente foi bombardeado pela imprensa em todas as ocasiões, desde a reportagem de Larry Rother, correspondente do "The New York Times", até o relacionamento com o filho, denuncias contra a família. O governo foi bombardeado por todos os lados, o PT foi tripudiado - e com razão, por conta de todos os escândalos -, mas, mesmo assim, manteve um índice alto de aprovação. A última pesquisa do Datafolha (do dia 24) mostra que 53% consideram ótimo ou bom o governo. Houve uma reversão do processo. Não é só a imagem do Lula.

Valor: A oposição ao governo reconhece que o denuncismo foi ineficaz e analisa que "três denúncias teriam um efeito mais devastador do que as três mil que foram divulgadas". A falha está na forma como as denúncias foram apresentadas?

Vera: Escândalos políticos têm um limite. Chega um ponto em que o eleitor não está mais interessado naquilo. Existe um desgaste da denúncia. Se não há resposta imediata, fica pior ainda: quando é adiada a resposta, ela perde a força, se desgasta e não "vende" mais (jornal, revista). Há um limite da imprensa e também da memória do eleitor.

Valor: Se as denúncias não surtiram efeito, como avaliar o peso da ética na escolha do voto?

Vera: Todos os escândalos foram muito próximos ao Lula, mas em todas as situações o Lula foi poupado. Ele sempre negou envolvimento. Isso pesou muito em uma parcela do eleitorado, crente da não culpabilidade do presidente, e que também é beneficiário das políticas sociais. Mas existe outra parcela, que desconfia da culpa, mas acha que deve dar outra chance. É o voto constrangido. Não é o voto cínico, de pessoas mal-informadas. Mas é um voto de pessoas que sabem o que aconteceu. Todo mundo assiste à televisão, ouve rádio, poucos lêem jornais, mas esses assuntos sempre foram veiculados. Como explicar essa reação? É porque o Brasil melhorou. Esse voto mais consciente, mais constrangido, é do setor mais informado.

Valor: Pode-se comparar, então, esta eleição à de 1994, quando o eleitor votou em uma proposta bem-sucedida, no caso, o Plano Real? É um voto pragmático, mais de aprovação do governo e menos de aceitação do candidato?

Vera: São as duas coisas. Nem só os beneficiados pelos programas sociais votarão no Lula. Não se explica o resultado só pela economia. Não é que o eleitor vota em quem rouba mas faz. Sou contra essa idéia. Houve beneficiamento da população e isso se reverte em votos. Há também um grupo de eleitores que sabe de tudo, mas que vai dar uma segunda chance. Foi assim com Collor, Maluf, Jânio Quadros. Deve-se ponderar o peso da mídia na influência da escolha.

Valor: As denúncias ocuparam quase toda a campanha e a discussão programática ficou em segundo plano. Essa ausência pode influenciar diretamente no voto?

Vera: Isso foi benéfico para o presidente. É possível saber o que Lula vai continuar, mas não se sabe o que Alckmin vai fazer. E as propostas mais expostas por Alckmin, o "crescimento", o "desenvolvimento", essas palavras se esvaziaram de sentido, sem propostas claras. O eleitor não sabe o que é isso. São slogans, lemas que não foram esclarecedores.

Valor: Apesar da discussão reduzida sobre propostas, a candidatura de Lula polarizou os programas entre aquele que seria voltado às elites, e o outro, do PT, que daria atenção especial aos pobres. A classe media ficou fora da discussão?

Vera: Sim. Para essa parcela ficou a estabilidade econômica, que melhorou. O primeiro mandato do governo Fernando Henrique foi marcado pela estabilidade, mas esse quadro se reverteu no segundo governo. É um tema importante para acalmar os ânimos da classe média, os mercados financeiros. Foi a proposta assimilada pelos setores não envolvidos nos programas sociais.

Valor: A imagem dos partidos também foi pouco destacada. Na campanha de Lula, ficou mais evidente o distanciamento do candidato do PT. O presidente perdeu votos sem essa vinculação?

Vera: Lula teve um cabo eleitoral fantástico que foi Fernando Henrique. A partir do momento em que o FHC falava alguma coisa, isso revertia positivamente para Lula. Fernando Henrique queria criticar o governo Lula, mas ele não é político com popularidade para isso. A avaliação de seu governo não foi boa e quando ele aparece ao lado do Alckmin, também deixa de agregar votos. Cabo eleitoral péssimo pro Alckmin e bom pro Lula.

Valor: Foi uma decisão acertada concentrar o segundo turno na comparação dos dois governos?

Vera: Sim. O problema é que os números apresentados pelos dois candidatos não podem ser avaliados diretamente pelo eleitor. Na campanha, não tem como saber se estão corretos, se são integrais, que o governo Lula fez isso, construiu tantas universidades enquanto o outro não fez.

Valor: A candidatura Alckmin chegou ao segundo turno surpresa pela quantidade de votos que conseguiu. Aproveitou-se a vantagem conquistada no primeiro turno?

Vera: Alckmin comprou logo no início a agenda de Lula em relação à privatização. Foi o ponto mais problemático da gestão do FHC. Ele comprou da mesma forma que Marta Suplicy comprou a agenda de Serra, em 2004, na disputa pela prefeitura paulistana. Ela comprou a agenda da saúde e perdeu as eleições. Tem que saber se distanciar da agenda do rival e manter sua própria agenda. Alckmin não conseguiu reverter para a dele, que era o debate da ética. Quando tentou, foi tarde demais. Agora, muitos dos que votaram em candidatos como Cristovam Buarque migrarão para o PT contra o PSDB de Alckmin. É o famoso voto útil.