Título: Entre a intenção e o voto
Autor: Wilner, Adriana
Fonte: Valor Econômico, 27/10/2006, EU & Fim de Semana, p. 4
Faltava menos de um mês para as eleições de 1º de outubro quando o diretor do Instituto Vox Populi, Marcos Coimbra, encontrou-se com o então candidato petista ao governo da Bahia, Jacques Wagner. Pelas pesquisas, Wagner estava 20 pontos atrás do pefelista Paulo Souto. Mas o candidato do PT mostrava-se tranqüilo, ao dizer a Coimbra: "Não tem a menor importância".
A virada de Wagner, que acabou vencendo no primeiro turno, só foi inesperada ou espetacular para os que lêem pesquisas ao pé da letra, avalia Coimbra. "Wagner sabia que era preciso dar um desconto, pois o eleitor mais humilde tem medo de dar uma resposta que contraria o poder dominante na Bahia."
Os grandes institutos de pesquisa brasileiros têm um índice de acerto dentro dos padrões internacionais. Se consideradas as eleições presidenciais de 1989 para cá, 90% dos levantamentos têm antecipado os resultados. Nem por isso, dizem especialistas, deve-se confiar nas pesquisas como se fossem manifestações de oráculos. Baseadas na estatística, chamada a "ciência da incerteza", as pesquisas tentam se aproximar da realidade, mas trazem o erro no seu DNA.
Além disso, uma amostra mal levantada, a mudança na ordem de uma questão ou a impaciência do entrevistador ou do entrevistado fazem com que o xis flutue entre os quadradinhos em branco do questionário. Não é trivial traduzir o que se passa na cabeça do eleitor em determinado momento. E nada garante que, na hora de pôr o voto na urna, o cidadão já não tenha mudado de idéia (como ocorreu nas 48 horas que antecederam o primeiro turno, com uma reviravolta que levou para uma segunda votação a decisão de quem será o próximo presidente), ou mesmo não consiga digitar o número que tinha em mente. "Não dá para olhar só para a aritmética", adverte Coimbra. "Se os números da pesquisa forem considerados auto-suficientes, pode-se ter mais desinformação do que informação."
"Está havendo um certo fetichismo da pesquisa", concorda Pergentino Mendes, um dos fundadores da Levantamentos e Pesquisas de Marketing (LPM), pioneira no uso do índice de rejeição a políticos em pesquisas de campo. "A pesquisa indica uma tendência, não é isso ou aquilo", diz.
Otavio Magalhães/AE Vem de longe a polêmica em torno da confiabilidade das pesquisas de opinião pública. É histórico o caso da revista "The Literary Digest", dos EUA, que em 1920, 1924, 1928 e 1932 conseguiu prever quem seria o próximo presidente, por meio de avaliações da popularidade dos candidatos. As sondagens eram feitas com o envio de questionários a mais de dois milhões de pessoas. Mas em 1936 a revista errou feio, depois de postar 20 milhões de questionários, agora a todos os donos de carro e de telefones. Previu, então, que Alf Landon venceria. George Gallup, que acabara de fundar o American Institute of Public Opinion, entrevistou 3 mil pessoas e previu que Franklin Roosevelt ganharia. Foi o que aconteceu. "The Literary Digest" caiu em descrédito (e logo foi adquirida pela "Time"). Gallup virou sinônimo de pesquisa.
Numa época como a dos anos 1930, leitores de revistas, donos de carros e de telefones obviamente não somavam um público representativo da população americana. Tamanho não é documento, dizia Gallup. Importa saber se a amostra representa os diferentes matizes de opinião da população. Gallup introduziu a amostra por cotas, método utilizado pelos institutos brasileiros. Divide-se a população em grupos, por critérios como sexo, idade, escolaridade e renda - aqueles que ajudam a prever as opiniões da população como um todo. Os institutos brasileiros usam esse método para, com 2 mil entrevistados, prever o comportamento de 125 milhões de eleitores na hora da votação - o que corresponde a 0,016% do total.
"Teoricamente, se a variabilidade na opinião for nula, você precisa de somente uma entrevista", diz Coimbra, dando um exemplo extremo para explicar como o tamanho da amostra deve ser dosado em função da representatividade das opiniões. Na prática, critérios como os citados definem as diferenças na intenção de voto. Seu peso, porém, pode mudar, na medida em que há mudanças na escala de valores da sociedade. Religião, por exemplo, não é mais tão importante quanto no passado, no caso de eleições para presidente, mas certamente ainda tem força para a composição do Poder Legislativo. Raça é fator mais relevante na África (onde o Vox Populi também realiza pesquisas), do que no Brasil. "No futuro, acho que teremos que incluir na estrutura da amostra dados sobre acesso à informação", diz Coimbra. A existência de computador em casa, por exemplo, determina possibilidades de informação que influenciam a opinião do eleitor.
O método por cotas não segue estritamente a teoria científica. Pela estatística, seria necessário sortear um número determinado de pessoas da população e insistir para entrevistar apenas aquelas assim escolhidas. "É um processo muito caro e lento", diz Alberto Almeida, diretor da Ipsos Opinion e autor do livro "Como São Feitas as Pesquisas Eleitorais e de Opinião" (Editora FGV). Há institutos que precisam fazer pesquisas em dois ou três dias, prazo inviável pelo método probabilístico, que chega a custar o equivalente a entre três e seis vezes o gasto necessário para a pesquisa por cotas.
A diferença de custos se explica por peculiaridades do método probabilístico. Sorteia-se determinado número de pessoas a serem entrevistadas - que nem sempre estarão em locais de fácil acesso, poderão não estar em casa quando procuradas, e talvez se recusem a ser entrevistadas. No método de cotas, divide-se a amostra com base nos fatores que interessam, na proporção da população: certa porcentagem de homens com baixa escolaridade, de renda abaixo de tal nível etc. Tudo é mais fácil e rápido.
"O processo de seleção por cotas é o calcanhar-de-Aquiles dos institutos", acredita Marcus Figueiredo, professor do Instituto Universitário de Pesquisa do Rio de Janeiro (Iuperj). "Por mais que se consigam resultados muito próximos do que se obteria seguindo o manual de pesquisa científica, não há como usar testes estatísticos, nem é possível corrigir erros, se necessário."
No Brasil, o pioneiro em pesquisas de opinião foi o Ibope, criado por Auricélio Penteado em 1942. Advogado, Penteado era sócio da Rádio Kosmos e aprendeu a fazer pesquisa com George Gallup. Movido pelo desejo de conhecer os ouvintes de sua rádio, Penteado logo descobriu que a Kosmos estava em último lugar em audiência. Seu negócio era mesmo pesquisa - e não rádio.
Nos levantamentos de audiência das emissoras de rádio, que o Ibope também fazia, sempre alguém se sentia contrariado - empresários da mídia, artistas, anunciantes. Penteado se defendia como podia. Fazia seus pesquisadores deixarem a marca de um carimbo especial na casa dos entrevistados. Enchia sacos e sacos com questionários e os levava para a Associação Paulista de Propaganda para provar que seu trabalho era real - e sério.
A partir de 1945, com o fim do Estado Novo, o Ibope começou a fazer pesquisas sobre política. Em 1954, teve que enfrentar uma contestação à validade de seu trabalho. As pesquisas para governador em São Paulo mostravam Adhemar de Barros à frente. O então prefeito da capital paulista, Jânio Quadros, acabou vencedor, por apenas um ponto percentual. Seus aliados publicaram comunicados nos jornais, nos quais afirmavam que o Ibope teria se curvado aos interesses do candidato Adhemar de Barros. Para o Ibope, a situação mudou, a uma semana da eleição, porque Adhemar havia atacado o então governador paulista Lucas Nogueira Garcez em programa de televisão, o que derrubou sua popularidade.
Foi novamente com Jânio, anos depois, que os institutos de pesquisa voltaram a errar. Era 1984, e seu adversário, para a prefeitura de São Paulo, chamava-se Fernando Henrique Cardoso. Confiante nas prévias, FHC deixou-se fotografar na cadeira de prefeito. Vitorioso, Jânio não perdeu a oportunidade de dizer que a desinfetaria.
Por que, mais uma vez, os institutos falharam? "Jânio apelou para que seus eleitores não respondessem às pesquisas", avalia Mauro Paulino, diretor-geral do Datafolha, criado em 1983.
Difícil é apontar onde nasce a discrepância: se no procedimento estatístico, na forma como é feito o levantamento, no comportamento do eleitor, ou em simples má-fé. "A qualidade das pesquisas varia muito", diz Mendes, da LPM. "Há institutos que surgem quando começam as eleições e saem vendendo resultados."
Almeida, da Ipsos, fez um estudo com 298 pesquisas, nos pleitos de 1986 a 2000, e comprovou que 53% apresentaram discrepância, entre os números da sondagem e o resultado da eleição, de 1 a 15 pontos percentuais, considerada baixa. Outros 28% tiveram discrepância média, entre 16 e 25 pontos percentuais, e 19% chegaram a mais de 25 pontos percentuais.
O estudo verificou que as maiores diferenças ocorreram nos Estados de menor escolaridade, particularmente no Nordeste e Norte, para o cargo de governador, e em sondagens para o primeiro turno. "Em geral, existe um erro recorrente: o candidato que está na frente fica superestimado e os votos brancos e nulos, subestimados", diz Almeida. Ou seja, muitos dizem que querem votar no primeiro colocado, mas na hora do voto se confundem, ou mudam de opinião.
Almeida não descarta a possibilidade de ocorrerem erros na coleta de dados, no trabalho de campo e na aplicação dos questionários. "É preciso desenvolver um método de pesquisa para eleitorados de escolaridade mais baixa, para diminuir esse tipo de erro", afirma. "Os métodos atuais são adequados para pesquisas em estados de escolaridade mais alta." Onde a escolaridade é menor pode ocorrer o chamado erro não amostral. Almeida se refere principalmente à situação em que o eleitor declara preferência pelo candidato que está na frente, mas não a mantém até a hora da votação, pelas mais variadas razões.
Singelas nuances podem mudar completamente o resultado de uma pesquisa. Duas pesquisas feitas em 2000 sobre o voto para prefeito do Rio de Janeiro em Benedita da Silva chegaram a resultados distintos. Na primeira, essencialmente política, em que se perguntava se o entrevistado já havia votado em Benedita, 80% responderam negativamente. Na segunda, quando a pergunta foi feita após uma série de questões sobre preconceito racial no Brasil, apenas 50% responderam negativamente - provavelmente, porque as pessoas não queriam aparentar ser preconceituosas.
As diferenças entre métodos são grandes. O Vox Populi, por exemplo, faz entrevista nos domicílios. O Datafolha, somente na rua. Nem sempre os lugares mais distantes, ou de difícil acesso, entram na amostra dos institutos. As condições de trabalho dos pesquisadores não são lá as melhores do planeta. "Eles têm uma vida difícil, não contam com carteira assinada e, às vezes, querem resolver rapidamente a sua tarefa", diz um especialista em pesquisas, que prefere se manter no anonimato.
Supervisão, portanto, é fator-chave. No Vox Populi, por exemplo, 20% das pesquisas são checados. Verifica-se se a pessoa existe, se deu a entrevista e o questionário é reaplicado para avaliar se a resposta é fidedigna. Trabalham 70 pesquisadores em pesquisas para presidente, com um número total de entrevistados entre 1000 e 2000.
No Datafolha, há um supervisor para cada dois pesquisadores. Ao realizar pesquisa de rua - "mais ágil", de acordo com Paulino - é preciso colher alguns dados para fazer, vez ou outra, uma checagem telefônica dos dados. Como não precisa ir até as casas, o Datafolha consegue entrevistar um número maior de pessoas. Trabalha com 3.500 questionários e 500 pesquisadores, em média, para pesquisas para presidente.
Foram registradas, no Tribunal Superior Eleitoral (TSE), 560 pesquisas para averiguar a intenção de voto para presidente da República desde o início do ano, 475 no primeiro turno e 85 no segundo turno (até o dia 23, segunda-feira). Sem contar as pesquisas encomendadas por candidatos, que não são divulgadas ao público e, portanto, não precisam ser registradas no TSE.
Tal massa de informação pode influenciar o voto do eleitor? A questão é controversa. "A influência é indireta, por exemplo, na capacidade de um candidato arrecadar recursos", diz Almeida. Os candidatos que tomam a dianteira aparecem mais na mídia e, muitas vezes, derrubam as chances de outros aspirantes virarem candidatos. Pesquisas podem, então, servir apenas às estratégias individuais dos candidatos, em vez de expressar opiniões que refletem modos de compreender propostas de trabalho.
"As pesquisas, em sua origem, eram vistas como a voz do povo", diz Fabián Echegaray, diretor da Market Analysis Research e professor da Universidade Federal de Santa Catarina. As sondagens permitiam a manifestação de opiniões e levavam ao auto-conhecimento, à reflexão, acreditava-se. Nos anos 1960, com a criação de uma indústria da opinião pública, passaram a ser vistas como uma forma de "sabotagem da democracia", nas palavras de Echegaray. Estariam substituindo processos de participação popular pela publicação de uma suposta opinião, levantada a partir de uma agenda determinada pelos interesses da elite. "Seria uma forma de domesticar o público", afirma.
"Hoje, acredita-se que as pesquisas evitam fraudes eleitorais, servindo como ferramenta de checagem" diz o diretor da Market Analysis Research. Na América Latina, as pesquisas feitas a partir dos anos 1980 ajudaram a consolidar a democracia. "Na Venezuela e na Argentina, por exemplo, a divulgação de pesquisas impediu tentativas de golpe, desmistificando o discurso de ditadores sobre o preço exagerado a pagar pela volta de um regime civil." Mas também há o exemplo contrário. Em abril de 1992, o presidente Fujimori desferiu o chamado "auto-golpe", quando fechou o Congresso e prendeu líderes políticos, sob o argumento de que pesquisas indicavam ser este o desejo da maior parte da população.
Para todos que defendem a democracia, as pesquisas serão sempre bem-vindas - desde que não se tapem os olhos para os conceitos e usos tão elásticos que se fazem delas.