Título: Lula promete comandar acordo com Congresso
Autor: Agostine, Cristiane e Landim, Raquel
Fonte: Valor Econômico, 30/10/2006, Política, p. A3

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse, em suas primeiras declarações após ser reeleito, que irá pessoalmente interferir mais nas negociações com o Congresso. "Vou conversar com todo mundo, porque aprendemos lições importantes no primeiro mandato na relação com o Congresso Nacional. Vamos ter a mesma coordenação política, mas posso dizer que eu, pessoalmente, irei interferir mais nas negociações com o Congresso."

"Passada a eleição, agora não tem mais adversário. Agora nosso adversário é a injustiça social. Todo mundo deve se juntar para o Brasil crescer. Quero conversar com todos, sem distinção. O problema agora é de todos nós."

Para minimizar os problemas de governabilidade enfrentados nos primeiros quatro anos, o presidente afirmou que irá conversar com todos os partidos até dezembro. Prometeu uma relação "mais profícua" e disse que a partir de agora, vai acompanhar com "lupa" os projetos e as negociações.

Nas mudanças previstas na relação com o parlamento, Lula disse que tentará agilizar o tempo entre a chegada de projetos ao Executivo e execução das leis. "Uma decisão tomada que chega na minha mesa não poderá ficar mais de 30 dias sem ser executada", disse. Lula reclamou que muitas vezes, os projetos enviados pelo Executivo são engavetados no Congresso.

O presidente afirmou que pretende discutir a reforma política no início do próximo mandato. Para o presidente, os partidos políticos precisam se fortalecer, assim como as instituições públicas. "O Brasil não pode temer o fortalecimento da democracia no país, mas é necessário fortalecer os partidos e amadurecer o processo eleitoral. O processo eleitoral mostrou que quanto mais fortes as instituições, mais forte será país." Prometeu diálogo com todos os partidos, "sem veto a ninguém".

No plano econômico, Lula afirmou que seu governo terá uma política fiscal dura, sem aumentar a dívida - "não gastaremos mais do que receberemos" - e previu crescimento de 5% já para 2007, patamar que deve aumentar nos anos seguintes.

Vestindo camiseta com a frase "A vitória é do povo", Lula iniciou o discurso cerca de 15 minutos depois que seu adversário na disputa pela Presidência, Geraldo Alckmin, ligou reconhecendo a derrota. O presidente ofereceu a vitória ao povo, sobretudo à população mais carente, beneficiada pelos programas de transferência de renda de seu governo.

"O povo sentiu que a vida tinha melhorado e contra isso não há adversário. Melhorou na mesa, no prato, no bolso", disse o presidente. E foi enfático em diversos momentos: "Os pobres terão preferência em nosso governo".

Em balanço sobre o primeiro mandato, disse que o governo conseguiu resolver os problemas da macroeconomia, conseguiu a estabilidade e melhorou as relações internacionais. Nas palavras do presidente, a gestão tornou o país "mais equânime e mais justo" do ponto de vista geopolítico, econômico e social. "O segundo mandato vai ser muito melhor. Vai crescer mais, distribuir mais renda, aumentar a consolidação da política externa."

Lula disse estar confiante, "como nunca estive em minha vida". Afirmou que fará uma política fiscal dura, mas sem "fazer o povo sofrer com ajustes pesados", e que a estrutura do governo deverá se manter, com a manutenção dos 34 ministérios. O presidente disse ainda que vai acelerar as obras de infra-estrutura e sinalizou mais parcerias público-privadas (PPPs) nos próximos quatro anos. "Não temos tempo a perder", disse o presidente.

Lula afirmou ainda que o próximo mandato será "muito melhor do que o primeiro" e disse não ter dúvida que o país deixará de ser emergente. "Não tenho dúvidas sobretudo que o Brasil irá atingir um padrão de desenvolvimento, que será colocado entre os países desenvolvidos do mundo. Nós cansamos de ser uma potência emergente. Queremos crescer.

O presidente acompanhou a apuração em um hotel próximo à avenida Paulista, em São Paulo, onde foi realizada a festa da vitória. Ao seu lado na mesa, os ministros Dilma Rousseff (Casa Civil), Márcio Thomaz Bastos (Justiça), Guido Mantega (Fazenda), Luiz Dulci (Secretaria Geral), Tarso Genro (Relações Institucionais), Celso Amorim (Relações Exteriores) e Matilde Ribeiro (Igualdade Racial).

Participaram também a ex-prefeita de São Paulo, Marta Suplicy e integrantes dos partidos aliados ao PT. A ausência mais significativa foi a do vice, José Alencar. Lula o homenageou e disse que Alencar estava se recuperando de uma cirurgia.

A festa prosseguiu na avenida Paulista. Em cima de um trio elétrico, o presidente discursou para cerca de 4 mil mil pessoas, público bem menor do que na festa realizada em 2002. Demonstrando cansaço, Lula disse que "não temos mais o direito moral, ético nem político de cometer erro". Aos militantes, o presidente disse que "foi a a vitória do andar de baixo, que chegou lá em cima."

Pela manhã, logo depois de votar em São Bernardo do Campo, Lula já falava como vitorioso e em tom de conciliação com as forças de oposição. Ele acenou com alianças com os partidos e com os governadores, garantiu que o Brasil deve crescer mais nos próximos quatro anos e ressaltou que a prioridade do segundo mandato será a educação.

"Todos vamos ter que privilegiar - governo e oposição - a educação como pilar principal para que o Brasil dê um salto de qualidade", disse. O presidente prometeu que, depois da eleição, o Brasil "viverá um momento de crescimento econômico e distribuição de renda".

Lula era esperado por uma multidão nos portões da escola onde vota, que o recebeu aos gritos de "Lula-lá". Sorridente, cumprimentou as pessoas e balançou a bandeira do Brasil. Diferente do primeiro turno, o clima era de festa na Escola Estadual Dr. João Firmino Correia de Araújo.

O presidente afirmou que o Brasil é "indivisível" e que o resultado as eleições vai mostrar que o país "está mais unido do que já esteve em qualquer outro momento de sua história". Lula agradeceu ao povo pelo segundo turno, que classificou como um "momento mágico".

Na hora do voto, Lula estava acompanhado da mulher, Marisa Letícia, do coordenador da campanha, Marco Aurélio Garcia, do ministro do Trabalho, Luiz Marinho e do senador reeleito, Eduardo Suplicy. Durante o dia, ele saiu algumas vezes na sacada de seu apartamento em São Bernardo do Campo para para acenar para os eleitores que se aglomeraram na frente do prédio. (Com agências noticiosas)