Título: Haddad vai contra-atacar as críticas pelo mensalão
Autor: Taquari, Fernando; Peres, Bruno
Fonte: Valor Econômico, 09/10/2012, Política, p. A5

A coordenação da campanha do candidato do PT a prefeito de São Paulo, Fernando Haddad, decidiu ontem reforçar o discurso ético no segundo turno da eleição para se contrapor aos já anunciados ataques do tucano José Serra (PSDB) sobre o julgamento do processo do mensalão, em curso no Supremo Tribunal Federal, no qual a tendência é de condenação de todos os petistas.

Em uma extensa reunião ontem na sede do diretório municipal do PT paulistano, da qual participaram vereadores, eleitos e não eleitos, e deputados, discutiu-se de que forma o candidato deveria responder ao tucano. Há a avaliação de que, por ser segundo turno, o tema deve ganhar mais destaque do que no primeiro, devido ao confronto direto e ao maior tempo de televisão dos dois candidatos.

A ideia é endurecer o discurso apresentado pro Haddad durante o primeiro turno. Ele foi focado em sua "ética pessoal" - ou seja, no seu não envolvimento com os fatos em julgamento - e no discurso de que os mecanismos do mensalão petista tiveram início com o PSDB em Minas Gerais. Agora, a estratégia é ampliar esse discurso e apontar as acusações de irregularidades tanto do PSDB quanto do prefeito Gilberto Kassab (PSD), aliado de Serra. Isso, inclusive, foi colocado em prática logo quando Haddad deixou a reunião.

"A gestão Kassab, que ele [Serra] tanto defende, tem quatro ou cinco escândalos graves - da Controlar, do Aref, da Merenda, dos uniformes -, que inviabilizam a administração da cidade. Tudo isso tem que ser debatido", afirmou. "Depois da decisão do Supremo, também tem o julgamento do mensalão do PSDB, sobre o qual ele [Serra] nunca emitiu nenhum juízo, não sei se com a intenção de esconder os problemas para debaixo do tapete."

O discurso ético foi repetido à exaustão nas 17 entrevistas que Haddad concedeu a veículos de imprensa ontem, na maioria emissoras de televisão e rádio. Segundo um participante da reunião, Haddad não teria como fugir do assunto com a volta da polarização entre PT e PSDB no segundo turno, sob o risco de aumentar o antipetismo na cidade.

Ciente disso, o candidato do PT tornou a divulgar sua "ficha limpa", com "30 anos de carreira academia, mais de uma década de vida pública e quase sete anos no comando do Ministério da Educação, que tem o dobro do orçamento da cidade de São Paulo". "Minha biografia está à disposição", afirmou.

A linha de ataque também foi reforçada pelo presidente nacional do PT, Rui Falcão. "O José Serra quer fugir de discutir os problemas da cidade, sobre os quais é responsável, para fazer um debate sobre ética [tema] no qual ele também deve explicações", acusou.

Para o petista, Serra deve explicar a suposta compra de votos para aprovar a reeleição do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB) antes de discutir ética. Perguntado sobre qual a relação de Serra com este caso, Falcão disse que é a mesma de Haddad com o mensalão. "Por quem perguntam do mensalão para o Fernando Haddad? Qual é a relação dele com isso?", questionou.

Na reunião também foi discutida a inclusão na campanha do ministro da Fazenda, Guido Mantega. O objetivo é aproximar a candidatura dos setores financeiro e produtivo paulistano, tradicionalmente mais próximos ao PSDB. Além disso, Mantega é o único ministro que ainda não entrou na campanha. No domingo à noite, todos os quatro ministros petistas e paulistas participaram da apuração de Haddad. Estavam lá Alexandre Padilha (Saúde), Aloizio Mercadante (Educação), Marta Suplicy (Cultura) e José Eduardo Cardozo (Justiça). A operação, contudo, precisaria ser autorizada pela presidente Dilma Rousseff.