Título: Para múltis, AL tem logística ineficiente
Autor: Landim, Raquel
Fonte: Valor Econômico, 30/10/2006, Brasil, p. A21

As multinacionais instaladas na América do Sul consideram que as ineficiências logísticas são o principal entrave para a integração do continente, superando as dificuldades com serviços financeiros e até energéticos. De acordo com pesquisa coordenada pela Prospectiva Consultoria de Assuntos Internacionais, 57% dos executivos de transnacionais avaliam que os serviços de logística oferecidos na região são de baixa qualidade.

As multinacionais se dividem sobre as causas do mau funcionamento da logística na América do Sul: 28% culpam a falta de infra-estrutura física e regulatória da região e outros 29% responsabilizam os serviços privados oferecidos pelas operadoras de logística. Apenas 19% das empresas informaram que consideram boa a qualidade da logística no continente e 24% disseram que a logística não influencia nos negócios.

Entre as deficiências dos serviços governamentais na logística, estão a falta de padronização nos procedimentos aduaneiros, o horário de funcionamento distinto das aduanas dos países, as greves constantes, e a má qualidade das estradas e dos portos. Sobre os serviços das operadoras, os executivos reclamam da falta de vôos regionais, da ausência de empresas de logística regionais e da disparidade de oferta de navios e aviões entre países.

"A pesquisa evidencia que, se essa parte burocrática fosse resolvida, haveria um impacto muito significativo na integração", diz Paula Pedroti, gerente de projetos da Prospectiva e responsável pelo estudo. Para Ricardo Mendes, diretor da consultoria, "os acordos comerciais com os países andinos foram fundamentais para a exportação de alguns produtos, mas não adianta só baixar tarifa se os procedimentos aduaneiros não forem harmonizados."

Os pesquisadores entrevistaram 54 executivos de multinacionais dos setores energético, farmacêutico, bancos, tecnologia, alimentos e automotor, entre outros. As empresas são de origem americana, japonesa, coreana ou latino-americana e possuem filiais em pelo menos três de cinco países da região: Brasil, Argentina, Chile, Colômbia e Peru. O trabalho foi financiado pela Agência Suíça para o Desenvolvimento e Cooperação e realizado em parceria com consultorias locais em cada país.

"Esse trabalho é uma análise da integração regional do ponto de vista dos negócios", diz Mendes. Paula explica que um dos objetivos do trabalho era mensurar o quão integrada estão as operações das multinacionais na região. Das empresas entrevistadas, 49% identificaram a América do Sul como uma região muito importante para seus negócios - 36% das empresas são latino-americanas (o que explica seu interesse) e 19% têm uma presença global, mas investem no continente uma boa parcela de seus recursos. Para 41% da amostra, a América do Sul representa apenas 10% a 15% dos investimentos. E, para outros 10%, a importância da região em seus negócios é quase irrelevante.

A pesquisa avaliou também a qualidade dos serviços financeiros e energéticos. Mais da metade das empresas entrevistadas, 54% do total, informaram que a qualidade dos serviços financeiros não impacta os negócios ou a integração das atividades no continente. O restante das empresas se dividiu sobre o impacto dos serviços financeiros: 23% consideraram bom e outros 23%, ruim.

Um dado que surpreendeu os organizadores da pesquisa foi a pouca relevância atribuída pelos empresários à questão energética. 81% dos executivos entrevistados afirmaram os serviços energéticos não afetam os negócios da empresa e não impactam a integração das atividades no continente. "A questão energética tem relevância na hora da empresa fazer um investimento. No dia-a-dia de um negócio já instalado, as empresas não querem saber de onde vem a energia ou se a América do Sul está integrada nesse aspecto", avalia Mendes. A consultoria não divulgou o nome das empresas que participaram do estudo.