Título: Lucros à vista
Autor: Cotias, Adriana
Fonte: Valor Econômico, 22/01/2007, EU & Investimentos, p. D1

Com o início da temporada de balanços corporativos referentes a 2006, montar uma carteira de ações oportunista, com o objetivo de amplificar os ganhos em bolsa com os dividendos que se concentram no primeiro semestre, pode ser uma estratégia frutífera neste início de ano. A prevista continuidade do ciclo de cortes de juros faz com que empresas mais generosas na distribuição de resultados ganhem relevância no portfólio dos investidores. Foi sob essa perspectiva que as corretoras participantes desta primeira edição da Carteira Valor de Dividendos de 2007 fizeram as suas escolhas.

Alguns papéis, como Telesp PN (preferencial, sem voto) e AES Tietê PN continuam sendo quase unanimidade nas recomendações das corretoras. Em relação à carteira passada, de outubro, Gerdau Metalúrgica PN e CSN ON saíram do portfólio das mais indicadas, substituídas por CPFL Energia ON e Cemig PN. Nas recomendações, há novidades também, com nomes como Comgás PNA, CCR ON (ordinária, com voto) e até Banespa PN pontuando a seleção dos analistas.

Apesar de o antigo banco estadual manter apenas 2,5% de suas ações em circulação no mercado, negociando de R$ 100 mil a R$ 200 mil ao dia, a liquidez é suficiente para a pessoa física adquirir os papéis com o objetivo de fisgar os dividendos que vêm por aí, diz o chefe de análise da Link Corretora, Adriano Blanaru. "O racional é que a administração do Santander (o dono do Banespa, desde a privatização de 2000) tem que pagar muito dividendo para a matriz na Espanha, a ação está próxima de ficar 'ex' (ex-dividendo) e pode ser um momento oportuno para o investidor individual." O especialista calcula para Banespa PN um "dividend yield" (o retorno em dividendos) entre 10% e 11%, ante a média na casa dos 5% do Ibovespa.

Quando as empresas anunciam a distribuição de dividendos ou juros sobre capital próprio, normalmente referentes ao exercício anterior, costumam fixar uma data para o ajuste do papel na Bovespa, tornando-o "ex-dividendo", retirando do preço normal a parcela referente ao provento. Só que rapidamente a ação volta ao valor anterior e "o processo de ajuste é um verdadeiro milagre do mercado", afirma o chefe de análise da Concórdia, Eduardo Kondo. "É algo mais explicado pela psicologia do que pela matemática", diz.

É aí que o investidor ganha, tanto no dividendo quanto no retorno do papel ao preço anterior ao anúncio da distribuição. Kondo chama a atenção para a importância de se reinvestir o benefício na própria ação de forma a potencializar os lucros. Na seleção do trimestre ele incluiu Comgás PNA e Coelce PNA, que no ano passado tinham um "yield" projetado em 8,4% e 12,6%, respectivamente, e costumam concentrar o pagamento de seus proventos em abril.

Kondo manteve CSN ON na sua lista, enquanto a siderúrgica - em meio à disputa pela anglo-holandesa Corus - ainda não redefiniu a sua política de distribuição de resultados. A empresa conta com um dos retornos em dividendos mais elevados do mercado, de 12,5%.

Mas para quem quiser abocanhar esses retornos integralmente é preferível montar a carteira de dividendos agora e manter os papéis pelo ano completo, diz o analista da Geração Futuro Lucas Brendler, computando os ganhos com os dividendos em 2008. Mesmo porque o mercado acaba incorporando um adicional ao preço das ações de empresas tradicionalmente mais pródigas na distribuição de lucros no primeiro semestre, período em que grande parte das companhias concentra a distribuição de lucros referentes ao ano anterior.

"Para se desfazer da ação da empresa boa pagadora, o dono pede um prêmio pelo dividendo que vai perder, e a estratégia pode ficar cara para quem estiver comprando só por um prazo curto", afirma Blender. Sob essa ótica, a oportunidade pode surgir nos momentos de depressão do mercado, quando as ações caem em bloco, e é mais fácil garimpar boas opções, defende. Na seleção da Geração Futuro, ele incluiu CPFL Energia ON em substituição a Usiminas PNA, que tem planos mais ambiciosos de investimentos e pode ter o seu "yield" reduzido.

Manter uma carteira de dividendos também pode ser uma forma de atenuar eventuais viradas do mercado, especialmente se a seleção for pautada por papéis com bons fundamentos. Isso porque as empresas que dividem melhor o bolo de resultados normalmente estão num estágio mais maduro de negócios, têm certa previsibilidade de geração de caixa, mas ainda carregam algum potencial de crescimento.

O mix de ações composto pela Ativa Corretora combinou justamente os maiores retornos em dividendos com previsibilidade de caixa futuro e alguma perspectiva de crescimento setorial. Na sua estréia na carteira, a chefe de análise Mônica Araújo escolheu Telesp ON, AES Tietê PN, Cemig PN, Copesul ON e CSN ON, que, no conjunto, têm um "dividend yield" projetado entre 9% e 9,5% em 12 meses.

Ela recomenda o portfólio de dividendos para o investidor com visão de médio e longo prazos. "É uma opção para quem começa a participar do mercado acionário, mas não quer entrar de cabeça na volatilidade que lhe é inerente", diz. "É uma forma de combinar uma carteira mais agressiva na renda variável com uma mais conservadora, que visa o retorno em dividendos."

Com os juros em queda, as grandes pagadoras de dividendos ganham evidência em 2007, apontam os analistas Pedro Martins Jr. e Fernando Ferreira, da Merrill Lynch. Considerando que a Selic pode terminar o ano em 12% ao ano, ante os 13,25% atuais, a corretora americana indica seis papéis de empresas brasileiras com foco nos dividendos na sua lista de América Latina: AES Tietê PN, Tractebel ON, Telesp PN, Eletropaulo PNB, Tele Norte Leste ON e CPFL Energia ON.

O maior "dividend yield" projetado pela Merrill Lynch é, disparado, de Telesp fixa, de 13,1% neste ano e de 12,6% em 2008. Logo depois vêm Tractebel, com 7,7% e 7%, e, AES Tietê, com retorno em dividendos estimado em 7,5% para 2007 e em 7,9% no ano que vem.