Título: Susto não estanca queda da Selic
Autor: Guimarães, Luiz Sérgio
Fonte: Valor Econômico, 01/03/2007, Finanças, p. C1
A rápida recuperação dos mercados financeiros globais após o susto de terça-feira retira argumentos para um novo endurecimento da política monetária brasileira pelo Comitê de Política Monetária (Copom), que volta a se reunir na semana que vem. Mas se o Banco Central não tem justificativa para estancar a trajetória de queda da taxa Selic, iniciada em setembro de 2005, a tormenta deve cristalizar o ritmo de corte de 0,25 ponto adotado na última reunião, dia 24 de janeiro. Os analistas não têm dúvida de que as turbulências de anteontem abortam o movimento até então crescente em favor de uma retomada do compasso anterior de declínio do juro básico, o 0,50 ponto que vigorou de maio a novembro de 2006.
O economista-chefe da Austin Rating, Alex Agostini, acredita que o Copom não olhará isoladamente para os "ajustes de preços" dos ativos financeiros ocorridos na terça-feira para decidir a nova Selic em sua reunião de quarta-feira. Isso porque "nenhuma mudança estrutural" aconteceu no mundo que amparasse o terremoto cujo epicentro localizou-se na China. "Os mercados derreteram porque a bolsa de Xangai caiu 8,8%, mas ninguém se lembra que na véspera ela tinha subido 10%", compara Agostini. Embora transitório, o distúrbio pode integrar o rol de argumentos que o Copom deve utilizar para escorar sua decisão de prosseguir cortando a taxa em 0,25 ponto. Os outros dados à disposição do Comitê são a alta recente do petróleo e a recuperação da renda das famílias, mostrada pelo informe do IBGE sobre o PIB.
Tecnicamente, diz Agostini, há espaço para o Copom reduzir o juro básico em 0,50 ponto ou até 0,75 ponto. "A política monetária está correta em essência, mas errada na dose. Não há inflação de demanda que peça juros tão altos", diz o economista da Austin Rating. A renda caiu 22% de 1998 a 2004, e subiu 6,4% nos dois últimos anos. Para voltar ao pico do Plano Real e, com isso, gerar inflação de demanda a renda ainda precisa avançar 15,6%.
O economista da MB Associados, Sergio Vale, acredita que a tendência é de o Copom continuar no corte de 0,25 ponto. A turbulência não foi suficiente para mudar o prognóstico do BC. "O que será fundamental é o comportamento da inflação e da atividade. Esta veio bem no último trimestre de 2006, o que reforça ainda mais a moderação do BC em 0,25 ponto", diz Vale. Ao lado do superávit primário menor, tem-se todos os elementos que o BC poderia usar para justificar a continuidade da queda em 0,25 ponto.
A turbulência externa atual assemelha-se, segundo Vale, à que aconteceu em maio do ano passado, esta até mais grave pois envolvia indefinições acerca do comportamento de Ben Bernanke em relação ao ponto final no ciclo de alta dos juros americanos. "A turbulência agora foi muito mais afetada por um sopro no mercado chinês, e que, na verdade, já era esperado, só não se sabia o timing correto para acontecer", diz o consultor da MB. Além disso, toda a ênfase posta na queda das encomendas de bens duráveis, de 7,8%, também tem de ser relativizada. "Esse dado é muito volátil e sempre tem quedas e altas muito fortes", explica Vale.
O cenário americano indicativo de uma desaceleração econômica sob controle não é nefasto à economia brasileira. "Não creio que o cenário de recessão seja o mais provável. Na verdade, a notícia de que o desaquecimento da economia continua e que o PIB no quarto trimestre foi bem menor do que o divulgado anteriormente reforça a expectativa de manutenção dos juros no atual patamar, tirando o viés de alta que existia para o final do ano", diz Vale.
Para o mercado brasileiro isso é positivo pois sinaliza a continuidade da entrada de capitais pressionando o câmbio para baixo e ajudando a controlar a inflação.
Marcelo Ribeiro, economista da Pentágono Asset, diz que o BC perdeu a oportunidade de ter sido mais agressivo nos cortes anteriores enquanto a volatilidade e a aversão a risco estavam baixas. Agora, as incertezas internacionais impedem que volte a reduzir a taxa em 0,50 ponto. "Não descarto a manutenção da taxa em 13% se os mercados piorarem até quarta-feira", diz Ribeiro.
Para o economista-chefe da Concórdia Corretora, Elson Teles, o Copom deverá "citar a turbulência recente como um aviso de que poderemos conviver com maiores riscos no front externo nos próximos meses, o que deverá reforçar a maior parcimônia na condução da política monetária". Se houver mudança importante no grau de aversão ao risco global, a taxa de câmbio poderá buscar, no entender de Teles, novo nível de equilíbrio, mais depreciado. "Com isso, poderemos perder a principal âncora que tem mantido a inflação num nível abaixo do centro da meta."