Título: Ibsen e Simon rebatem ex-presidente
Autor: Ulhôa, Raquel e Jayme, Thiago Vitale
Fonte: Valor Econômico, 22/03/2007, Política, p. A12

Enquanto era confrontado pelo senador Pedro Simon (PMDB-RS) no plenário do Senado com detalhes das acusações que resultaram em seu impeachment, o ex-presidente Fernando Collor de Mello (PTB-AL) era alvo, na Câmara, de um duro discurso do deputado Ibsen Pinheiro (PMDB-RS), ex-presidente da Casa na época do processo de afastamento contra o atual senador do PTB de Alagoas.

Para Ibsen, Collor tentou uma "recriação histórica" no discurso da semana passada, em que considerou uma "farsa" o processo que resultou em seu afastamento.

"Sua excelência renunciou ao direito de defesa para tentar exercê-lo a destempo em uma revisão histórica, que não cabe, que ninguém deseja, porque é impossível revisar a história escrita nas ruas e nas instituições", disse. "Penso que o ex-presidente seguramente teve outra abordagem, tentando uma recriação histórica. Não serei partícipe desta recriação", afirmou Ibsen.

Os dois parlamentares gaúchos subiram às tribunas da Câmara e do Senado em reação ao pronunciamento da estréia de Collor no Senado, uma semana antes, no qual o ex-presidente considerou o processo contra ele "uma farsa", apontou "atropelos" nos prazos e nos ritos e cerceamento de defesa e chamou de "conspiradores" aqueles que o acusaram.

O ex-presidente foi especialmente duro com Ibsen, que, segundo ele, transformou o instituto do impeachment num "instrumento de vingança política, de afirmação pessoal e de desforra particular".

Ontem, Ibsen respondeu: "Lamento talvez que sua excelência não tenha voltado como eu esperava: ligado no presente e no futuro do país. Se preferiu voltar-se para trás, é uma opção, que respeitamos e até compreendemos", disse. "Mas não posso encontrar justificativa para o ataque às três instituições republicanas que atuaram naquele episódio: a Câmara, o Senado e o Supremo Tribunal Federal", completou. Para o deputado, é "impossível" que o ex-presidente tenha sido injustiçado.

Ao mesmo tempo em que Ibsen discursava, Collor era emparedado por Simon no Senado. Por duas horas, o gaúcho contestou ponto a ponto o discurso do ex-presidente feito num dia em que ele viajara.

Sob o olhar atento de Collor, sentado na primeira fila, Simon defendeu os procedimentos da CPI, negou que tenha havido "farsa" e afirmou que havia "evidências" e eram "robustas" as provas apontando um esquema de corrupção comandado por Paulo César Farias. "O seu mandato de hoje é legítimo, como legítimo foi o seu afastamento em 1992", disse Simon.

"Não há como fugir da concretude dos fatos. Não foi a melhor estratégia tentar negar tamanhas evidências. Contrapor-se à veracidade desses fatos ou tentar atribuir aos trabalhos da CPI alguma pecha de farsa não é o melhor caminho", afirmou o senador.

Para Ibsen, se o Senado não cometeu crime algum, a Câmara muito menos. "Não nos cabia julgar o presidente porque este não é o papel institucional da Câmara no procedimento do impeachment. Somos apenas o juízo de admissibilidade. Tão só nos cabia dizermos se podia o Senado processar ou não o presidente . E devíamos fazê-lo", discursou.

Ao conceder a palavra a Ibsen, o presidente da Câmara, Arlindo Chinaglia (PT-SP), deu a entender que o ex-ocupante de seu cargo falava em "nome da Casa". Ibsen rememorou seu discurso na época do impeachment de Collor. "Lembro ter dito desta tribuna, 15 anos atrás, 29 de setembro de 1992, que há momentos em que calar é mentir", disse.

O ex-presidente fez vários apartes. Pareceu irritado apenas quando Simon falou em "roubalheira". "Roubalheira não. Protesto" reagiu Collor. Em suas intervenções, contestou o argumento de Simon a respeito da "robustez" das provas, lembrando que o Supremo Tribunal Federal (STF), ao julgá-lo, considerou que não havia provas de relação entre suas contas e PC Farias.

"Como eu gostaria de poder dar-lhe razão. Lamentavelmente, foi triste a decisão do Supremo Tribunal Federal. Aliás, com todo o respeito, têm sido tristes as decisões do Supremo Tribunal Federal, nas grandes horas de decisão da política brasileira", respondeu Simon.