Título: Cade pode aprovar compra da AmBev, mas olharia distribuição
Autor: Basile, Juliano
Fonte: Valor Econômico, 29/03/2007, Empresas, p. B4

A compra de duas fábricas da Cintra pela Ambev pode ser aprovada pelo Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) do Ministério da Justiça porque a primeira companhia pouco acrescentará (cerca de 1,2%), à participação de mercado à Ambev, de 67,2%.

Segundo explicou o ex-assessor do Cade e consultor da Câmara dos Deputados, César Mattos, o órgão antitruste costuma considerar que, quando o acréscimo na participação de mercado é pequeno, as conseqüências serão insignificantes para a concorrência.

"O Cade terá de fazer uma relação de causalidade entre a operação e um eventual aumento na participação de mercado", diz Mattos. "Mas, se a variação é pequena, não é um negócio significante para a concorrência", completou.

Essa tese de que grandes companhias devem obter a aprovação de seus negócios quando adquirem empresas que pouco acrescentam à sua participação de mercado já foi aplicada com sucesso em outros processos no setor de bebidas, inclusive envolvendo a Ambev. A união da Ambev com a Interbrew - uma das maiores fusões já ocorridas no mundo - foi aprovada no Brasil justamente porque, a despeito de a Ambev possuir alta participação de mercado, a Interbrew detinha menos de 1% do mercado nacional. Logo, a união com a Interbrew não acrescentou muita coisa no mercado brasileiro, sendo mais significante do ponto de vista internacional.

Mattos faz, porém, um alerta. Reiterou que o Cade é bastante cauteloso na análise do sistema de distribuição de bebidas. O órgão antitruste verificará se o acréscimo de fábricas poderá interferir na distribuição. No caso da Cintra, a Ambev deverá passar de 30 para 32 fábricas, mas o sistema de distribuição poderá ser vendido para outra empresa pela Cintra até 28 de outubro deste ano. O mesmo acontece com a marca Cintra. O dono poderá vendê-la a outros concorrentes até aquela data. O Cade deverá fazer uma análise cuidadosa sobre como ficará o mercado de distribuição após o negócio.

O Cade tem sido cauteloso com a distribuição de bebidas desde as associações entre Brahma e Miller e a Antarctica e a Anheuser-Busch (dona da marca Budweiser), diz Mattos. Nesses negócios, desfeitos com a criação da Ambev, em 1999, as empresas estrangeiras alegaram que não entrariam sozinhas no mercado de cervejas no Brasil por ser difícil montar um sistema de distribuição.