Título: BC vai mirar 4,5%, garante Mantega aos senadores
Autor: Izaguirre, Mônica e Galvão, Arnaldo
Fonte: Valor Econômico, 14/03/2007, Brasil, p. A4

O ministro da Fazenda, Guido Mantega, deu a entender, ontem, que o Banco Central estaria sendo mais conservador do que desejaria o governo no controle da inflação. "O BC tem de perseguir 4,5% como centro da meta de inflação e não como teto ou coisa parecida", disse Mantega, acrescentando que o atual governo "não tem uma pauta conservadora".

A afirmação foi feita após a sessão do Senado em que ele e mais dois ministros - Dilma Roussef, da Casa Civil, e Paulo Bernardo, do Planejamento - fizeram uma exposição do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). A frase foi dita no contexto de um esclarecimento pedido pelos jornalistas sobre outra declaração sua, dada durante a sessão. Concordando implicitamente com uma reclamação do senador Aloizio Mercadante (PT-SP), Mantega havia prometido aos senadores, pouco antes, que determinaria ao BC o cumprimento da meta fixada pelo Conselho Monetário Nacional para a variação do IPCA em 2007 - como se não fosse esse o efetivo alvo da mira da autoridade monetária ao fixar a taxa básica de juros .

"O BC tem sim que cumprir 4,5%. O centro (do intervalo de tolerância) é 4,5% e não outro. Isso será determinado ao Banco Central.... de modo que possibilite crescimento econômico." Essa foi a resposta ouvida por Mercadante, depois de sugerir que os juros só não caíram mais porque o BC estaria buscando um nível de inflação inferior ao determinado. Propositadamente ou não, em 2006, o IPCA subiu só 3,14 %, variação inferior à meta central, embora acima do piso, de 2,5%. Para o senador, "sem uma inflexão na política monetária", o país não terá, como pretende, taxa de crescimento econômico real ao redor de 5% ao ano.

O tom de enquadramento usado por Mantega em relação ao BC, diante dos senadores, vem cerca de uma semana depois da saída do diretor de política econômica, Afonso Bevilaqua - considerado um monetarista conservador por diversos segmentos do governo.

Mantega concordou com os senadores ao dizer que "a Selic (12,75% ao ano, taxa básica de juros) ainda está elevada". Ele assegurou que há condições para continuidade do processo de queda, no entanto, mesmo com a previsão de um pequeno aumento da inflação. Segundo ele, há razões objetivas para a inflação do IPCA atingir 4,5% ou mesmo 5% em 2007, subindo, portanto, em relação a 2006. Como o dólar já caiu muito, ao contrário do ano passado, "o câmbio não será um fator antiinflacionário", disse o ministro. O próprio aquecimento da economia "tende a puxar a inflação um pouco para cima", acrescentou.

Abordado ao entrar no prédio do Ministério da Fazenda, o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, evitou polemizar. Mas negou que a instituição tenha como referência de suas decisões sobre juros algo diferente do centro do intervalo fixado para a variação do IPCA. Segundo ele, durante os quatro últimos anos, o BC tem perseguido o centro do meta.

Outra preocupação muito presente nas intervenções dos senadores, durante a sessão sobre o PAC, ontem, foi a capacidade energética do país. Valdir Raupp (PMDB-RO) questionou se o país tem mesmo capacidade de crescer 5% ao ano sem que isso provoque um novo colapso, como o que levou ao racionamento de energia no governo Fernando Henrique Cardoso. A ministra da Casa Civil, que já foi titular da pasta de Minas e Energia, afastou essa hipótese. Segunda ela, os projetos do PAC na área de energia e as mudanças ocorridas desde então afastam esse risco. Como exemplo, ela citou a maior capacidade de transmissão de energia de uma região para outra. Na tentativa de tranqüilizar os senadores, ela lembrou que Operador Nacional do Sistema (ONS) monitora constantemente o risco de falta de energia.

O ministro Paulo Bernardo, por sua vez, pediu apoio para medidas de suporte fiscal do PAC, a principal delas a limitação do crescimento dos gastos da União com pessoal, a 1,5% ao ano acima da inflação do IPCA. Do total de 81 membros do Senado, 56 passaram pela sessão. Uma nova sessão poderá ser marcada pelo Senado para discutir o PAC.