Título: A luta da Europa contra o terrorismo
Autor: Vries, Gijs de
Fonte: Valor Econômico, 12/03/2007, Opinião, p. A11

Três anos atrás neste mês, o terrorismo internacional golpeou a Europa. Em atentados a bomba simultâneos lançados contra trens em Madri, os terroristas islâmicos mataram 191 pessoas e feriram mais de 2 mil. No mês passado, os suspeitos foram a julgamento num tribunal espanhol.

Extremistas violentos, alegando agir em nome do Islã, atacaram muitos países em todo o mundo, antes e depois dos atentados perpetrados contra os EUA em 11 de setembro de 2001. Os atentados em Madri - e em Londres, em julho de 2005 - mostraram que a Europa é um dos seus alvos primordiais, o que levou os governos europeus a reagir, fortalecendo as suas defesas, inclusive no âmbito da União Européia.

Nos três anos passados, as normas de segurança nos portos e aeroportos europeus foram reforçadas, passaportes biométricos foram introduzidos e o financiamento aos terroristas entrou na mira. Mais de 2 mil suspeitos de terrorismo e suspeitos de outras importantes modalidades de crime foram presos e extraditados com base num Mandado de Prisão Europeu.

Igualmente, os serviços de segurança e de inteligência reuniram recursos em um centro comum para análise de ameaças em Bruxelas. Por meio da Europol e da Eurojust, as forças policiais européias e as autoridades judiciais intensificaram a cooperação, e ministros se preparam para conceder às agências incumbidas do cumprimento da lei de outros países da UE o acesso a bancos de dados nacionais de DNA e de impressões digitais. Pesquisas relacionadas com a segurança figuram com destaque no orçamento da UE, com 1,4 bilhão de euros destinados para esse propósito. As agências policiais e de segurança européias já evitaram muitos atentados terroristas.

Se, por um lado, contudo, as defesas foram consideravelmente fortalecidas, por outro, a ameaça de terrorismo não diminuiu. O risco de novos atentados na Europa e no mundo é grave e assim permanecerá pelo futuro previsível. Para enfrentar esta ameaça global, a cooperação internacional precisa ser aprimorada. Muçulmanos e não-muçulmanos, em particular, precisam combinar seus esforços para defender a santidade da vida humana.

Primeiro, o mundo precisa atuar a partir de padrões comuns. Muitos países ainda precisam melhorar as suas defesas e implementar os 16 instrumentos de contra-terrorismo estabelecidos pelas Nações Unidas, incluindo a convenção contra financiamento de terrorismo. A redução do risco de que terroristas possam obter armas de destruição em massa exige igualmente uma cooperação internacional mais sólida.

-------------------------------------------------------------------------------- Para derrotar os terroristas precisamos oferecer a visão de um mundo mais justo e equânime e agir de acordo, em casa e no exterior --------------------------------------------------------------------------------

Para esse fim, a UE está atuando estreitamente com seus parceiros, do Marrocos e Indonésia à Arábia Saudita e demais países do Golfo. A UE estenderá apoio ao Centro para Contra-terrorismo da União Africana, em Argel. A cooperação com Índia, Paquistão e Rússia também foi fortalecida, e a União continuará a trabalhar estreitamente com os EUA, Japão e Austrália.

Segundo, é preciso fazer mais para equacionar os conflitos que os terroristas tentam explorar. O Afeganistão continua sendo um crítico Estado da linha de frente no combate ao terrorismo. Não se pode permitir que os talibãs façam o Afeganistão retornar no tempo. A UE aumentará a sua ajuda, especialmente em apoio à polícia afegã.

Da mesma forma, as tentativas de levar a paz ao Oriente Médio continuam sendo essenciais. Embora o progresso no caminho para a paz entre Israel e os palestinos não impeça em si o terrorismo, ele poderia desferir um golpe poderoso contra a incitação terrorista e a propaganda. Javier Solana, o Alto Representante da UE para Política Comum Externa e de Segurança, continuará pressionando por resultados.

Terceiro, precisamos nos opor à ideologia dos terroristas. Um número muito pequeno de muçulmanos quer viver sob um califado no estilo do sétimo século. Eles preferem viver em paz e em democracias parlamentares.

O que une muçulmanos e não-muçulmanos é um comprometimento com direitos humanos básicos. O respeito e a promoção de direitos humanos são essenciais para vencermos a batalha pelos corações e mentes, inclusive na Europa. Isso significa que os governos precisam praticar o que pregam. A prisão sem julgamento é contraproducente no combate ao terrorismo. O mesmo se aplica à tortura. Para derrotar os terroristas precisamos oferecer a visão de um mundo mais justo e equânime e agir de acordo, em casa e no exterior. Em última instância, os valores de liberdade e justiça são a nossa melhor defesa.