Título: Investimento volta-se para o mercado doméstico
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Fonte: Valor Econômico, 28/03/2007, Especial, p. A14

O mercado interno é o foco principal dos investimentos em ampliação e modernização da capacidade produtiva nas empresas dirigidas pelos profissionais que ontem receberam o prêmio Executivo de Valor 2007, em solenidade realizada no hotel Caesar Business Faria Lima. Para muitos destes empresários, o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) ajuda na formação de um clima positivo para o investimento, embora mudanças sejam necessárias. Entre os setores mais otimistas se destacam aqueles ligados à construção civil e à infra-estrutura.

Para Joseph Nigri, presidente da Tecnisa, o boom imobiliário está apenas começando. Para as expectativas positivas do setor se combinam o maior acesso a financiamento, a menor burocracia e a demanda reprimida, de cerca de oito milhões de unidades. "Já iniciamos nossa expansão geográfica e estamos realizando investimentos expressivos na aquisição de novos terrenos", informou Nigri, acrescentando que a empresa espera aumentar em 30% o número de colaboradores até o fim do ano.

Para o setor no qual a Tecnisa atua, o PAC tem um atrativo extra, além da melhoria da infra-estrutura. "Ele cumpre o papel fundamental de incentivar a habitação para a baixa renda, um setor que a Tecnisa está estudando com bastante interesse", explicou Nigri.

A ampliação do poder de consumo das classes de menor renda também ajuda a sustentar os planos de expansão de empresas como Whirlpool, Natura, Wal- Mart e Alpargatas, entre outras. Vicente Trius, presidente do Wal-Mart no Brasil, informa que a empresa acelerou seu crescimento e investirá R$ 1 bilhão em 2007 na construção de lojas, tecnologia e logística. Essa é a maior cifra aplicada pela multinacional na expansão orgânica. Entre 2004 e 2005, o grupo investiu US$ 1 bilhão em aquisições.

Qualquer medida de incentivo ao crescimento é bem-vinda para o varejo, por repercutir positivamente sobre o consumo, diz Trius, que por isso elogiou o foco do governo nas classes populares, o público que o Wal-Mart também definiu como sua prioridade no país.

Os investimentos da Whirlpool estão voltados para o mercado interno, que hoje garante melhores margens de lucro do que as exportações devido ao câmbio. O consumo brasileiro de eletrodomésticos cresceu dois dígitos em 2006. "Em 2007, diante do andamento nas vendas neste início do ano, o mercado deverá crescer dois dígitos novamente", diz Paulo Periquito , presidente da Whirlpool na América Latina, que controla as marcas Brastemp e Consul.

O presidente da Positivo Informática, Hélio Rotenberg, conta com um aumento do mercado interno de computadores de 8 milhões para 10 milhões de unidades em 2007. "Isso traz impacto tanto para as atividades de produção como de modernização", explica, justificando porque o investimento da empresa tem essa dupla finalidade e foco no mercado interno.

Quanto ao PAC, Rotenberg disse que houve um impacto direto no negócio da Positivo Informática pois a isenção de PIS-Cofins, que era para micros de até R$ 2,5 mil foi elevada, melhorando as condições de venda. "Foi fantástico", disse. Ele fez críticas, porém, ao fato do PAC não tratar da produção dos conversores para TV digital, o que manteria os benefícios para a Zona Franca de Manaus. "Porque eu vou ter de montar uma fábrica em Manaus? Curitiba também precisa de empregos", argumenta.

Os investimentos do grupo Ultra misturam expansão e renovação do parque, explica Pedro Wongtschowski, presidente executivo da Ultrapar, que controla os negócios do grupo Ultra. O plano de investimentos para 2007 inclui R$ 400 milhões na Oxiteno, e R$ 100 milhões na Ultragaz. Sem contar que a compra da Ipiranga, em parceria com Braskem e Petrobras, permitirá que o grupo acrescente a distribuição de combustíveis ao seu portfólio.

Alessandro Carlucci, diretor-presidente da Natura, informa que a empresa irá manter os seus investimentos para modernizar e ampliar sua capacidade de produção e também aumentar o número de consultoras, que já chega a 617 mil na América Latina. Na sua avaliação, o PAC e todo investimento que ajude a acelerar o crescimento do Brasil é bem-vindo, mas ele gostaria de ver outros assuntos em discussão, como a reforma tributária.

A Alpargatas investirá R$ 100 milhões em modernização, novos produtos e tecnologia da informação. Desse total, 80% serão destinados à modernização da planta, o que resulta em aumento de capacidade, e também no desenvolvimento de novos modelos. Seu presidente, Marcio Utsch, destaca que a atualização resulta em ampliação da produtividade, que este ano pode variar de 10% a 25%, dependendo do modelo produzido.

A Alpargatas vem ampliando sua capacidade para atender tanto à expansão da demanda interna, quanto externa. No entanto, as vendas internacionais crescem num ritmo superior ao comércio doméstico. Enquanto o volume exportado tem registrado alta de 40%, em média, no mercado interno, o aumento é de 15%.

O atual ciclo de investimentos da Fiat do Brasil está mais voltado à modernização do que à ampliação, explica seu presidente, Cledorvino Belini. "A evolução natural do mercado exige processos mais modernos na fabricação dos automóveis", explica o executivo.

A Suzano Papel e Celulose está fazendo o que seu presidente, Antonio Maciel Neto chama de "mega ampliação". Num investimento de US$ 1,3 bilhão, está erguendo uma fábrica nova de celulose em Mucuri, na Bahia. Para a empresa, logística tem de ser o principal ponto do PAC. Segundo Maciel, "é a única forma de acelerar o crescimento". "É preciso investir em logística para acabar com os gargalos", diz.

Logística, aliás, é a prioridade da ALL. Segundo Bernardo Hees, presidente da empresa, ela manterá os investimentos anuais de R$ 600 milhões com foco no mercado interno. O país, segundo ele, tem uma deficiência de escoamento e os aportes em logística serão intensificados.

Roger Agnelli, presidente da Companhia Vale Do Rio Doce, lembra que a mineradora é uma das empresas privadas que mais investe no país atualmente. Para 2007, o orçamento aprovado é de US$ 6,5 bilhões. "A tendência é aumentar significativamente à medida que os novos projetos forem deslanchando", informou. Os investimentos da Vale têm como foco aumento de capacidade e são voltados ao mercado externo.

O presidente da CPFL, Wilson Ferreira Jr., diz que a companhia vai investir R$ 1 bilhão neste ano, mais que os R$ 800 milhões registrados em 2006. Segundo ele, as inversões se relacionam à ampliação de capacidade produtiva. A companhia concluiu uma usina em Santa Catarina, a de Campos Novos, e deve terminar no fim deste ano e no começo do ano que vem duas outras no Rio Grande do Sul.

A CVC também pretende aumentar investimentos neste ano entre 15% e 20%, mesmo com a crise aérea, conta o presidente do Conselho, Guilherme Paulus.