Título: Dilma descarta saída de Mantega e considera 'ridículo' o risco de racionamento
Autor: Exman , Fernando
Fonte: Valor Econômico, 28/12/2012, Política, p. A5
Demonstrando otimismo em relação ao cenário externo e menos preocupação com os efeitos da crise mundial, a presidente Dilma Rousseff descartou ontem rumores de que pretenda demitir o ministro da Fazenda, Guido Mantega. Classificou de "ridículas" afirmações de que o país corre risco de enfrentar novo racionamento de energia e disse acreditar que as medidas adotadas pelo governo elevarão os níveis de investimento em infraestrutura.
Durante café da manhã com jornalistas, Dilma reafirmou compromisso com o controle da inflação e das contas públicas. Mas se recusou a comentar os rumos das políticas monetária e cambial. Reiterou apenas que seu governo, na busca por elevar a competitividade do Brasil em 2012, baixou a taxa de juros para patamares internacionais. Tal medida, acrescentou, teve como subproduto um câmbio "mais realista".
"O Mantega não tem a menor hipótese de sair do meu governo, a não ser que ele queira", assegurou Dilma, desmentindo rumores crescentes, em Brasília, de que o ministro da Fazenda estaria demissionário.
Na entrevista, a presidente se recusou, também, a firmar compromisso com uma meta de superávit primário em 2013. "Queremos inflação sob controle, contas públicas sob controle e faremos que haja um déficit nominal decrescente", afirmou. "O superávit primário é aquele que a Fazenda vai anunciar. É um orgulho para nós a redução da dívida líquida sobre o PIB."
Dilma disse esperar que o governo americano feche um acordo para evitar o chamado "abismo fiscal". Para a presidente, esse deve ser um "fator importante de retomada do cenário internacional". Ela avaliou que a China dá sinais de retomada.
Mas a presidente ponderou que o Brasil também precisa fazer a sua parte. Por isso, acrescentou, seus recentes pronunciamentos procuraram incentivar o empresariado a investir. Em outro sinal, disse que, depois de reduzir a tributação sobre folha de pagamento, agora o Executivo se debruçará sobre a unificação do PIS e da Cofins e a redução do ICMS. "O Brasil precisa reduzir os impostos."
Dilma foi irônica quando perguntada se a intervenção do governo na economia estaria afastando investidores. Ela disse que, desde o início do PAC, tenta melhorar as condições para se investir no país. E citou como exemplo seu esforço para elevar os prazos dos financiamentos de longo prazo. "Antes, financiamento para investimento de longo prazo era sete anos. Eu interferi, sim. Briguei para ter financiamento de 20 a 30 anos. Ainda brigo para ter financiamento de uma parte expressiva do empreendimento", disse, afirmando que melhores condições de financiamento garantem maiores taxas de retorno.
Dilma defendeu as recentes medidas adotadas pelo governo para desenvolver a aviação regional no país e o setor portuário. E buscou afastar o receio de que o país enfrentará novo racionamento de energia, tema frequente nos debates políticos entre o PT e o PSDB. "Acho ridículo dizer que o Brasil corre risco de racionamento."
Ela negou que a "ingerência política" nas empresas estatais do setor seja a causa das recentes falhas de fornecimento de energia. Segundo Dilma, companhias públicas e privadas da área têm a mesma cultura de preferir investir em empreendimentos novos a modernizar suas instalações. "Manutenção não é uma questão política, mas de regulação", disse. "Há que controlar o investimento em manutenção no Brasil inteiro."
Ex-ministra de Minas e Energia, Dilma afirmou que o sistema elétrico tem que ser "implacável" com as interrupções do fornecimento de energia. "Raio cai todo dia neste país, a toda hora. Se desligar, é falha humana. Não foi raio."