Título: Habilidade política pode dar coordenação a mineiro
Autor: Romero, Cristiano e Rittner, Daniel
Fonte: Valor Econômico, 08/03/2007, Política, p. A10
Cotado para assumir a coordenação política do governo, o mineiro Walfrido dos Mares Guia conquistou espaço em Brasília graças a uma qualidade que, na avaliação do presidente Lula, falta à maioria dos ministros e políticos de seu próprio partido, o PT: habilidade política. "Ele é muito hábil. Tem trânsito no parlamento, conversa muito com os parlamentares e ajuda o governo no Congresso", diz um assessor direto do presidente.
Ministro do Turismo, Walfrido tem o hábito de atender aos pedidos de audiência dos parlamentares. Uma vez por semana, faz mais: desloca-se para a liderança do governo, na Câmara dos Deputados, e despacha de lá. Nesses encontros, ouve demandas e queixas dos deputados sobre sua área - o Turismo - e procura atendê-las. Nas votações de medidas importantes para o governo, vai para o plenário da Câmara buscar votos.
A força de Walfrido se origina menos de seu partido, o PTB, e mais de sua habilidade política. "Ele tem credibilidade no plenário. É um ministro muito acessível aos parlamentares. Ele dialoga com todos os partidos. É um ministro que articula politicamente", atesta um parlamentar da base aliada.
Empresário de sucesso - criou, pouco depois de se formar em engenharia, o curso pré-vestibular Pitágoras, que mais tarde se transformou na maior universidade privada de Minas Gerais e fundou, em Montes Claros (MG), a Biobrás, a primeira fábrica de insulina do Brasil, a quarta maior do mundo -, Walfrido começou na política pelas mãos do legendário político mineiro Hélio Garcia. Seu primeiro cargo público foi a Secretaria de Planejamento da Prefeitura de Belo Horizonte, na gestão de Garcia.
Em 1990, Garcia foi eleito governador de Minas Gerais e nomeou Walfrido para a Secretaria de Administração. Em 1994, o atual ministro do Turismo foi eleito vive-governador na chapa do tucano Eduardo Azeredo.
Na eleição presidencial de 2002, Walfrido foi fundamental para levar o PTB a apoiar Lula no segundo turno da eleição. No primeiro turno, o partido apoiou o então candidato Ciro Gomes, do PPS. No segundo, optou por Lula porque o candidato do PSDB, José Serra, é o maior desafeto de Walfrido na política. "Se o candidato tucano fosse o então ministro da Educação, Paulo Renato Souza, o PTB teria apoiado o PSDB e não o PT", relata um amigo do ministro do Turismo.
O problema de Walfrido com Serra é de origem empresarial e não política. Diz respeito à Biobrás, que Walfrido diz ter sido obrigado a vender a um grupo estrangeiro por causa de decisões tomadas por Serra no Ministério da Saúde. "Serra é o único assunto", diz um político aliado do ministro, "que tira Walfrido do sério."
O papel desempenhado na eleição de 2002 rendeu a Walfrido a nomeação para o Ministério do Turismo. Até então, Lula não o conhecia, mas rapidamente se afeiçoou por ele. "Ele conquistou o presidente pela simpatia e pela lealdade. Walfrido é agregador e tem uma vantagem que todo executivo aprecia: ele não leva problemas, mas soluções, e tem um otimismo contagiante", testemunha um aliado.
Na eleição de 2006, Walfrido operou em Minas Gerais para ajudar a reeleger Lula, mas sem incompatibilizar-se com o governador Aécio Neves, do PSDB, com quem tem boas relações. Na região do Norte do Estado, onde está o reduto eleitoral do ministro, ocorreu o fenômeno batizado de "lulécio": os eleitores votaram maciçamente em Lula para presidente e em Aécio para governador.
O presidente planeja, desde dezembro, deslocar Walfrido para a coordenação política do governo. Naquele mês, chegou a dizer ao ministro que ficasse de prontidão para assumir o posto. O fato de Walfrido estar sem mandato é visto como uma vantagem por Lula. Na avaliação do presidente, facilita o trabalho de coordenação política não ter um candidato no Palácio do Planalto. A dúvida, neste momento, é se Walfrido deve deixar o PTB. "O destino partidário de Walfrido está nas mãos de Lula", conta um amigo do ministro. (CR)