Título: Só aborrecimentos para o Brasil na cúpula de energia
Autor:
Fonte: Valor Econômico, 19/04/2007, Opinião, p. A12

A única decisão tomada pela Primeira Cúpula de Energia da Comunidade Sul-Americana de Nações foi a de mudar o nome do bloco para União das Nações Sul-Americanas. Para a diplomacia brasileira e o presidente Luiz Inácio da Silva, a cúpula foi um exercício torturante de rejeitar todos os pratos indigestos que o anfitrião, o presidente venezuelano Hugo Chávez, havia preparado. O Brasil, em uma atitude pouco comum nestes encontros, falou claro e se opôs abertamente a Chávez, evitando fatos consumados, como a criação do Banco do Sul.

Com apoio de Equador, Bolívia e Venezuela e Argentina, Chávez preparou o roteiro para fazer da visita brasileira o marco inaugural da nova instituição financeira latino-americana. O governo brasileiro desautorizou a iniciativa bem antes de Lula desembarcar em Isla de Margarita para a cúpula. Já durante os encontros da reunião do Fundo Monetário Internacional, em Washington, Guido Mantega, avisara aos representantes dos demais países que não aceitaria a criação do banco sem uma discussão profunda e solução de consenso sobre seu caráter, suas finalidades e seu modo de operação.

O objetivo de Chávez, com apoio de Morales e Correa, era criar uma instituição para se contrapor ao FMI e ao Banco Mundial, algo que, por si só, é inútil. Venezuela, Argentina, Equador e Brasil nada devem ao Fundo. Esse espírito "anti-imperialista" permeia outra intenção, que é a de usar o banco para programas de ajuda aos países sócios sem metas de desempenho e a taxas camaradas. Para isso, o banco administraria parte das reservas internacionais, que estão crescendo em quase toda a região. O banco seria, na melhor das hipóteses, um fracasso financeiro e, na pior, um instrumento para o avanço do "socialismo" do século XXI.

A posição brasileira foi correta. O governo não acredita que seja necessária uma nova instituição e, em princípio, crê que com reforço dos organismos regionais, como a Corporacion Andina de Fomento, BNDES etc, pode-se fazer mais e melhor. O Brasil fez uma concessão aos demais sócios, que, porém, embarcaram na idéia e a conduziram para um caminho desvairado, que é preciso corrigir.

Da mesma forma, o Brasil usou de sua força de persuasão para impedir outro desvario, que é o de uma cúpula sobre energia condenar o etanol como fonte alternativa, ainda mais na presença do maior produtor mundial de álcool à base de cana. Excluir uma fonte renovável de energia como o etanol já é uma sandice, outra maior é fazê-lo em defesa do uso do petróleo, que abunda na Venezuela e é hoje sua única fonte de receita garantida. Não bastasse isso, diplomatas de países participantes afirmaram que o Brasil iria aderir à "Opep do gás", a tentativa de Chávez e Morales de criar mecanismos para fixar os preços do gás segundo conveniência dos produtores, em detrimento dos consumidores. O Brasil advertiu que dessa aventura também não participará.

O pesadelo ainda não tinha terminado quando o presidente boliviano, que quer comemorar a nacionalização do petróleo e do gás em grande estilo, no dia 1º de Maio, disse a Lula que seu país pretende pagar menos da metade pelas duas refinarias que pertencem à Petrobras (Folha de S. Paulo, 18 de abril). Talvez pensando em amaciar a dureza de sua posição, Morales afirmou que desta vez não recorreria ao uso de forças militares, ao contrário do que fez na nacionalização. Lula, desta vez, deixou um longo passado de conciliação com Morales para avisar a ele que considerava inaceitáveis as condições e que o Brasil cancelaria todos seus projetos futuros no país vizinho. Não se sabe se a advertência foi suficiente para demover Morales.

Em plena cúpula de energia, a atitude de Morales foi simbólica - indica a pouca disposição de vários participantes a encarar com seriedade a integração. Chávez agora saiu-se não mais com um, mas com três gasodutos. Ao caro e duvidoso projeto do Gasoduto do Sul, que cortaria a Amazônia e iria até o sul do Brasil, ele apontou como necessários o Gasoduto Transoceânico, ligando Atlântico ao Pacífico e o Transandino, que iria até a América Central. Longe de indicar soluções sensatas, a primeira cúpula de energia serviu para mostrar o quanto o abastecimento na região encontra-se ameaçado por uma letal mistura de voluntarismo, politicagem e leviandades.