Título: Dissidência sinaliza intenção de ampliar velocidade de queda
Autor: Ribeiro, Alex e Guimarães, Luiz Sérgio
Fonte: Valor Econômico, 19/04/2007, Finanças, p. C1

Dividido, o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central decidiu ontem cortar em 0,25 ponto percentual a taxa básica de juros da economia, que cai de 12,75% para 12,5% ao ano. Numa decisão amplamente antecipada pelo mercado financeiro, a surpresa foi a dissidência de três dos sete membros do Copom, que votaram por uma redução de 0,5 ponto percentual.

Os analistas do mercado financeiro eram praticamente unânimes em projetar um corte de 0,25 ponto porque esse era o ritmo de afrouxamento monetário que vinha sendo insistentemente sinalizado pelo BC nos seus documentos oficiais, como a ata de suas reuniões e o relatório de inflação.

O discurso do BC é que, após a taxa ser reduzida em 7 pontos desde setembro de 2005 (com a decisão de ontem, a queda acumulada chega a 7,25 pontos), é aconselhável maior parcimônia até verificar como a distensão monetária atinge a atividade econômica e a inflação.

Nas últimas semanas, porém, alguns analistas começaram a especular sobre uma possível aceleração nos cortes de juros. Para eles, uma eventual mudança na orientação do BC se deveria a razões técnicas, e não teria relação com a saída de alguns membros do Copom vistos como mais conservadores, como o ex-diretor de Política Econômica, Afonso Bevilaqua, e o diretor de Política Monetária, Rodrigo Azevedo - que participou da reunião de ontem. A inflação corrente está mais benigna do que o esperado, as expectativas de mercado para a inflação melhoraram e a apreciação da taxa de câmbio colaboraria para manter os preços sob controle.

Mesmo antes da saída de Bevilaqua e Azevedo, o Copom vinha se dividindo. Em novembro de 2006, quando o BC cortou os juros em 0,5 ponto, alguns diretores do BC votaram por um corte de apenas 0,25 ponto. Em janeiro, quando o corte foi de 0,25, alguns membros votaram por uma redução de 0,5 ponto. Houve unanimidade só em março, com corte de 0,25 ponto.

As discussões daqui até a reunião de junho serão se o diretor indicado para a área de Política Monetária, Mario Torós, é menos conservador do que Azevedo - e se a substituição fará com que o Copom acelere o corte na taxa básica. A nota distribuída ontem esclarece pouco sobre os próximos passos do Copom: "Avaliando o cenário macroeconômico e as perspectivas para a inflação, o Copom decidiu reduzir a taxa Selic para 12,5% ao ano, sem viés, por quatro votos a favor e três votos pela redução da taxa Selic em 0,5 ponto percentual".

O economista Sidnei Nehme, diretor da NGO Câmbio, diz que o Copom não precisaria esperar até a próxima reunião, marcada para 6 de junho, para voltar a cortar a Selic em ritmo mais acelerado, como induz a crer no comunicado expedido após o encontro de ontem. Todas as condições já estão dadas para que o Brasil experimente patamares mais baixos de juros. Uma atuação monetária mais incisiva decorre da necessidade de evitar apreciações cambiais adicionais. O BC vem comprando quantidades expressivas de moeda, mas a cotação não se recupera. "A Selic de 12,50% ainda incorporada muita gordura a ser aproveitada pelos investidores", diz Nehme. Como não há colaboração da área monetária, o BC terá de ser mais ousado em suas intervenções cambiais. O economista sugere a venda de swaps cambiais reversos longos, que incorporem uma percepção de risco maior.

O consultor Miguel Daoud, da Global Financial Advisor, acredita que a decisão do Copom é incompatível com os esforços do Ministério da Fazenda em obter rapidamente o "investment grade" da dívida externa brasileira. "Não adianta nada o ministro Mantega defender lá fora o país. De que serve o grau de investimento se o juro se mantém elevado? É para trazer ainda mais especuladores?", comenta Daoud.

O economista-chefe da corretora Concórdia, Elson Teles, diz que como o mercado não esperava a falta de unanimidade podem ocorrer novas quedas nas taxas futuras de juros hoje, "caso os agentes venham a incorporar uma probabilidade mais elevada de aceleração no ritmo de corte na Selic na reunião seguinte". A Federação do Comércio Estado de São Paulo (Fecomercio) avalia que a atual situação macroeconômica permitia uma redução maior na Selic, que está acima de um ponto de equilíbrio.