Título: Varejo ajuda a reduzir risco de bancos no empréstimo popular
Autor: Bautzer, Tatiana
Fonte: Valor Econômico, 19/04/2007, Finanças, p. C12

Os bancos estão encontrando novas formas de aumentar os empréstimos para a classe C evitando a alta inadimplência que gerou perdas para as financeiras no ano passado. As estimativas para o crescimento do crédito à classe C neste ano variam de 25% a 40%, acima da média da carteira de pessoa física. Mas para isso as equipes dos bancos deixaram as ruas e foram às lojas.

Generalizou-se o uso de birôs positivos internos com informações sobre o comportamento financeiro do cliente classe C, usando informações de compras nas redes de varejo parceiras dos bancos. Sai de cena o "credit score", que estima o risco do cliente de acordo com suas características, e entra o "behavior score", que considera seu comportamento passado.

As instituições desaceleraram as campanhas na rua, especialmente depois do crescimento do consignado, que elevou a inadimplência das outras carteiras. "Para falar a verdade, eu queria extinguir totalmente equipes na rua, mas mantive em alguns lugares onde é tradicional, como a São Bento, no centro de São Paulo. É algo que reduzimos ao mínimo", diz o diretor executivo do Bradescoresponsável pela Finasa, Paulo D'Ávila Ísola. O problema nas campanhas de rua era emprestar para clientes que já estão "no sufoco". Além disso os promotores de rua também costumam conhecer pouco as alternativas de crédito.

Os bons pagadores da classe C agora recebem ofertas de cartões de crédito com bandeira, crédito pessoal parcelado e até financiamento de motos e carros. A Finasa começa a oferecer em maio para alguns clientes um financiamento de 100 meses (mais de 8 anos) para veículos, que permitirá que mais gente da classe C tenha acesso a carros seminovos ou até zero quilômetro. O financiamento de motocicletas zero está crescendo e transformando-se em "porta de entrada" para carros. "Estamos entrando num novo estágio, de aumentar o acesso dessa classe a diferentes produtos", diz o diretor do Bradesco.

O banco Cacique, especializado em crédito popular, deve iniciar financiamento de automóveis seminovos até junho. Hoje a instituição, em processo de aquisição pelo francês Société Générale, tem um produto que permite ao proprietário de carro usado quitado tomar crédito de parte do valor.

Os cartões "private label", das lojas, estão sendo usados para conhecer o comportamento do consumidor e conceder novos tipos de crédito. Os melhores clientes das Casas Bahia já recebem ofertas do Bradesco de cartões de crédito com bandeira, que podem ser usados em qualquer estabelecimento. Entre Casas Bahia e outras parcerias com varejistas nacionais e regionais, o banco tem 8 milhões de plásticos "private label" e está convertendo parte deles em cartões com bandeira em projetos piloto. Só com a rede de supermercados nordestina G. Barbosa, o Bradesco tem 2 milhões de cartões em operação. A elevação da renda no Nordeste fez o grupo assumir o quarto lugar no ranking nacional de supermercados. O banco Cacique tem acordo com 1.500 varejistas e já formou uma rede de 550 mil portadores de cartões que têm linhas pré-aprovadas para saques pela rede Banco 24 Horas ou compras via Cheque Eletrônico. "Concedemos crédito para clientes que não conhecemos, mas é claro que podemos oferecer melhores condições para os que temos histórico", diz o superintendente do Cacique, Wanderley Vettore.

A GE Money está criando aos poucos carteiras de private label com vários varejistas com os quais já tem experiência de CDC, como o atacadista Martins e as redes de eletrodomésticos Lojas Obino e Insinuante. O presidente do banco GE Capital, Ivan Svitek, que administra uma carteira de R$ 1,2 bilhão no Brasil, diz que a experiência do cliente com crédito é o fator mais importante hoje para definir taxas dos produtos.

Por trás do esforço dos bancos para avaliar melhor o risco neste segmento da população está o crescimento da renda e da participação no consumo. Enquanto as camadas A e B perderam renda no ano passado, 8 milhões de pessoas saíram das classes D e E e ascenderam à classe C, segundo pesquisa do Instituto Ipsos financiada pela Cetelem, financeira do grupo francês BNP Paribas. Pela primeira vez as classes D e E são menos da metade da população: 46%, ante 51% no ano de 2005. A renda média da população AB caiu 6%. As classes C, D e E tiveram aumento de renda de 5%. O fenômeno é mais relevante no Nordeste, influenciado pelo crescimento dos desembolsos do Bolsa Família, mas não está restrito a essa região.

Os desejos de consumo também estão se aproximando. Segundo a mesma pesquisa, no último ano caiu muito a diferença de desejo de consumo entre as classes AB e a classe C. Estão mais próximos os percentuais de intenção de compra de computadores, carros e viagens- embora obviamente o produto consumido em si seja diferente. Cerca de 23% dos consumidores da classe C querem computadores, 41%, móveis novos e 40%, eletrodomésticos.

Para os empregados formais ou aposentados, o baixo custo coloca o crédito consignado como primeira alternativa. Mas a informalidade, muito alta nesse segmento, generalizou sistemas de avaliação de risco de crédito pela renda presumida e não pela declarada. "O importante é saber que a pessoa tem aquela ocupação e o tempo em que está nela", afirma Vettore, do Cacique. No seu grupo de tomadores de crédito, metade é de trabalhadores autônomos.

Os bancos presumem a renda de um pedreiro que mora em São Paulo, por exemplo, entre R$ 600 e R$ 875 mensais. A renda de um vendedor autônomo em Fortaleza oscila entre R$ 200 e R$ 300 mensais. Uma empregada doméstica sem carteira assinada nas regiões Sul/ Sudeste terá sua renda estimada em R$ 375 a R$ 570. Os bancos têm até tabelas para estimar quanto se recebe em rendas de aluguel. No Sul e Sudeste, a renda mensal varia entre R$ 750 e R$ 1.400. No Norte, Nordeste e Centro-Oeste, entre R$ 450 e R$ 850. Cada banco tem sua tabela própria e há escalas regionais mais precisas.

A experiência do varejo na concessão de crédito em períodos nos quais os bancos estavam fora do mercado (antes da década de 90, por exemplo) é valiosa. O Bradesco concede mais crédito por meio das parcerias da Finasa com as redes varejistas como Casas Bahia e G. Barbosa, que trouxeram para o banco informações sobre detentores de 10 milhões de CPFs, do que por meio das contas correntes no Banco Postal. "Consigo ver melhor o comportamento do cliente do lado do varejo", diz o diretor Paulo Ísola.

A Cetelem espera elevar em 80% neste ano a carteira concedida por meio de parcerias com 1.500 varejistas. Com uma carteira de R$ 3,6 bilhões, a Cetelem tem parcerias com empresas muito diversas, como Colombo, Fast Shop, Fnac, Kalunga, algumas lojas da Telha Norte e o site de comércio eletrônico Submarino. O diretor Franck Vignard-Rosez diz que as parcerias são o principal meio de oferecer cartões da bandeira própria Aura, com crédito pré-aprovado. "Vamos diminuindo as taxas oferecidas à medida em que conhecemos melhor o cliente". Rosez espera elevar a carteira atual de 1,6 milhão de plásticos para 2 milhões este ano.

Ao oferecer produtos mais adequados, os bancos reduzem a inadimplência. Os sistemas do Bradesco alertam quando o cliente está usando integralmente o limite do cartão de crédito por muito tempo, e oferecem crédito pessoal parcelado, uma alternativa com juros menores.

O que parece mais distante é o financiamento imobiliário para a classe C. A disparidade entre o valor dos imóveis e a renda dificulta o crédito. Muitos vêm usando consórcios como alternativa. Há cartas de crédito com valores baixos, como R$ 40 mil.