Título: Planalto define perfil para sucessor de Waldir Pires na Defesa
Autor: Leo, Sergio
Fonte: Valor Econômico, 13/04/2007, Política, p. A9

Procura-se um executivo com autoridade, competência gerencial e que seja visto como uma fiel tradução do próprio presidente da República. Esse é o perfil desejado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva para ocupar o cargo de ministro da Defesa, em lugar de Waldir Pires, que não deve sair já do governo. Sua substituição só deverá ocorrer quando estiver garantido o "clima de normalidade" na administração do tráfego aéreo nacional. Espera-se, no governo, que isso possa acontecer em até 15 dias.

Lula, acreditando ver no ex-presidente José Sarney essas qualidades, sondou seu antecessor para o cargo, e recebeu uma recusa polida. Continua procurando. E já se sabe, no governo, que, diferentemente do que ainda faz crer o ministro da Defesa, Waldir Pires, não será neste mandato que virá a desmilitarização do controle do espaço aéreo brasileiro. O presidente não abandonou o projeto, mas reconhece que exigirá uma administração lenta. Ela poderá ser facilitada pela mudança tecnológica , como informou o comandante da Aeronáutica, brigadeiro Juniti Saito, no depoimento que deu à Comissão de Defesa do Consumidor da Câmara, na quarta-feira.

Segundo Saito, a partir de 2012, o controle do tráfego na aviação civil será feito por satélites, e será reduzido o uso dos radares atualmente empregados nessa tarefa. Para o governo Lula, essa mudança facilitará a transferência da atividade para as mãos civis, já que não haverá mais a necessidade de que os responsáveis pela tarefa transitem por instalações sob controle militar, os Cindactas atuais. Esse prazo elástico permite que o governo comece a configurar a transição em 2010, já no fim do governo, portanto.

Se essa lentidão tem o potencial de descontentar os controladores, recentemente saídos de um motim que provocou séria crise na Força Aérea, outra decisão de Lula deve agradar a esses funcionários, que, por determinação do presidente, deverão ter aumento em suas gratificações. Nas conversas sobre a crise aérea, os integrantes do governo tem feito questão de elogiar o comandante Saito, que é brindado com adjetivos como "estadista" e "leal", por seu comportamento durante a crise.

Um nome que não conta com a mesma satisfação ao ser pronunciado pelos lábios do presidente é o do antecessor de Saito no comando da FAB, o brigadeiro Luís Carlos Bueno, acusado na Esplanada dos Ministérios e no Palácio do Planalto de ter ocultado do presidente as dimensões da crise em gestação na aviação civil.

Ao contrário do que aconteceu quando o motim dos controladores pegou o governo de surpresa, há duas semanas, Saito garante agora ter um plano de contingência, para o caso de nova paralisação dos controladores. Além da convocação de especialistas que vem sendo selecionados para assumir a tarefa, a Aeronáutica preparou um programa alternativo para o controle do espaço aéreo, que prevê, por exemplo, a retirada, da órbita de atuação dos Cindactas, de rotas de pequena extensão, em regiões de menor superposição de vôos. Os vôos entre Salvador e Rio de Janeiro, por exemplo, estariam nessa categoria, exemplifica um integrante do governo.