Título: Copom sinaliza corte maior da Selic, mas modera entusiasmo excessivo
Autor: Guimarães, Luiz Sérgio
Fonte: Valor Econômico, 27/04/2007, Finanças, p. C2
A maioria dos analistas espera que o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central venha em sua próxima reunião, marcada para 6 de junho, a intensificar o ritmo de baixa da taxa Selic, do 0,25 ponto que prevaleceu nas últimas três reuniões para o compasso de 0,50 ponto. Nessa hipótese consensual, o juro básico cairia de 12,50% para 12%. Esta foi a principal conclusão que os economistas tiraram da ata, publicada ontem, da reunião realizada na semana passada, a que por placar divergente de 4 a 3 optou por cortar a Selic em 0,25 ponto, de 12,75% para 12,50%.
Mas o consenso em favor da aceleração da baixa reconhece que a ata foi redigida em tom cauteloso e dúbio, destinado a torna plausíveis e justificáveis as mais diferentes interpretações. O objetivo do texto ambíguo teria sido o de moderar a intensidade do declínio dos juros futuros. Desde a quinta-feira da semana passada, day after do Copom, os juros despencaram no pregão de DI futuro da BM&F. Se a intenção do Comitê foi mesmo a de esfriar o entusiasmo do mercado, ela foi plenamente alcançada, tanto que as projeções de CDI fecharam em alta ontem. O contrato para a virada do ano subiu 0,04 ponto, para 11,61%. Mas a leitura em favor do comedimento foi feita pelo mercado futuro em dia de trégua nos mercados internacionais.
A preocupação da ata em tornar bem evidente os pontos em relação aos quais os diretores não concordaram visou, no entender de analistas, a afastar a interpretação geral surgida logo após a reunião de que a cisão trata-se na verdade de uma construção fictícia destinada a sinalizar a intenção do Comitê de apressar o declínio da Selic.
A ata mostrou-se inconclusiva em vários trechos. Ao mesmo tempo em que reduz a projeção de alta para os preços administrados, informa que o IPCA para 2007 implícito em seu cenário aumentou levemente, apesar de estar bem abaixo do centro da meta de inflação, de 4,5%. Ao lado de indicar que os diretores dissidentes consideram valiosa a contribuição das importações para o controle da inflação, reitera que a política monetária continuará sendo conduzida com "parcimônia". Tal palavra ampara decisões de reaperto, se necessárias. "Econometricamente, dependendo da forma como os números são torturados, eles confessam qualquer coisa que você queira", diz o economista-chefe da Grau Gestão de Ativos, Pedro Paulo B. da Silveira, para quem a ata forneceu argumentos para os que crêem na continuidade dos cortes de 0,25 ponto.
O economista-chefe da Máxima DTVM, Jason Vieira, fez uma leitura positiva do documento. Trata-se de ata escrita do ponto de vista dos vencidos, dos três diretores que votaram pelo retorno imediato do 0,50 ponto. Os cenários atual e o prospectivo presentes na ata parecem moldados para justificar mais um corte de 0,50 ponto do que de 0,25 ponto, como prevaleceu. A alegação dos diretores que votaram pela preservação do ritmo de 0,25 ponto é velha conhecida e não convence: a de que os efeitos sobre a economia real da baixa acumulada pela Selic desde setembro de 2005, mês do início do ciclo de afrouxamento, ainda não foram sentidos inteiramente. "O processo vem se arrastando desde 2005 e o efeito esperado ainda não se mostrou explosivo, como um aquecimento econômico pronunciado, aguardado agora pelo Copom para 2008", diz Vieira. Na visão do economista, depois da ata, a hipótese de declínio do juro no compasso de 0,50 ponto se estenderia pelas próximas quatro reuniões. A Selic fecharia o ano em 10,50%.
O cenário geral para a inflação, único alvo admitido da política monetária, foi muito benigno. "Não se antecipam descompassos relevantes no que se refere à evolução da oferta e da demanda agregada", diz a ata. "Os dados referentes à atividade econômica ainda não sugerem uma probabilidade elevada de que sejam observadas pressões significativas sobre a inflação no curto prazo", completa. Para a LCA Consultores, além desse quadro positivo para a inflação, o BC reduziu as suas estimativas para a alta conjunta dos preços administrados. Para 2007, a expectativa caiu de 4,5% para 4,2% e, para 2008, de 5,6% para 5,2%. Mesmo assim, o Copom se dá ao luxo de armazenar gordura na hipótese de surgirem dias mais difíceis, já que os seus prognósticos ainda estão um ponto acima das projeções do mercado, de 3,5% para este ano e de 4% para o próximo.