Título: Participação do trabalho na renda
Autor: Wolf, Martin
Fonte: Valor Econômico, 11/04/2007, Opinião, p. A17

Dois fatos relativos aos mercados de trabalho nos países de alta renda revelaram-se particularmente relevantes nas últimas duas a três décadas: globalização e diminuição na participação da renda do trabalho no Produto Interno Bruto (PIB). Como estão relacionados esses fenômenos? Quais são as implicações na esfera de políticas governamentais? As respostas a essas indagações poderão determinar se a reação contrária à globalização - hoje visível nas políticas americana e francesa, duas orgulhosas repúblicas mais similares do que gostariam de admitir - irá tornar-se avassaladora.

O tema é foco de um capítulo que faz um apanhado histórico, no mais recente relatório Perspectivas Econômicas Mundiais do Fundo Monetário Internacional (The Globalization of Labor, World Economic Outlook, April

2007, www.imf.org). O texto chega a quatro conclusões principais.

Em primeiro lugar, a mão-de-obra empregada mundialmente quadruplicou ao longo das últimas duas décadas, e o maior impacto resultou do comércio, e não da imigração.

Em segundo, as participações da renda do trabalho no PIB encolheram sensivelmente em todos os países de alta renda nesse período.

Terceiro, a globalização é uma das causas da declinante participação da renda do trabalho no PIB. Mais importante, porém, nesse aspecto, foi o impacto da tecnologia.

Por fim, de modo geral, os países que reduziram o custo da mão-de-obra para as empresas e ampliaram a flexibilidade do mercado de trabalho registraram menores quedas nas participações da renda do trabalho. Consideremos cada um desses aspectos.

Em primeiro lugar, ao simplesmente ponderar a força de trabalho em cada país pela participação de exportações no PIB total, os autores concluem que a oferta mundial efetiva de mão-de-obra quadruplicou entre 1980 e 2005, sendo que metade do crescimento veio do Leste Asiático.

Os países de alta renda podem acessar o estoque incrementado de mão-de-obra mundial graças a importações ou imigração. Mas o comércio tem sido largamente o mais importante, em larga medida porque as importações sofreram muito menos restrições do que os imigrantes. Por outro lado, a participação de produtos de países em desenvolvimento nas importações de manufaturados de países de alta renda dobrou desde o início da década de 1990.

Muita atenção foi dispensada ao "offshoring" - a transferência de partes do processo de produção para o exterior. Mas, ao contrário da impressão generalizada, a incorporação dessa manufatura no produto final vem, na realidade, crescendo mais lentamente do que o comércio total. Além disso, as importações de insumos intermediários para manufatura e serviços responderam por apenas aproximadamente 5% da produção bruta e 10% dos insumos totais intermediários nos países de alta renda em 2003.

O crescimento da terceirização externa pelos países de alta renda tem sido impulsionado pelas importações de insumos especializados, em vez de não especializados. Isso se deve em parte ao fato de os países de alta renda concentrarem-se na produção de produtos intensivos em especialização. É também conseqüência de eles ainda realizarem a maior parte suas trocas comerciais uns com os outros.

-------------------------------------------------------------------------------- Apesar da queda na participação da mão-de-obra na renda, a remuneração dos trabalhadores cresceu em todos os países de alta renda desde a década de 1980 --------------------------------------------------------------------------------

Tratemos, agora, do segundo ponto: a queda na participação da mão-de-obra na renda. Embora generalizado, o declínio na participação foi muito mais visível na Europa Continental e no Japão do que nos países de língua inglesa.

A maior parte da redução na participação da mão-de-obra na renda deveu-se a quedas em setores intensivos no emprego de mão-de-obra não especializada. Isso é conseqüência de um declínio na participação da mão-de-obra na renda nesses setores e da redução da participação desses setores na economia como um todo. A participação da mão-de-obra na renda em setores intensivos em mão-de-obra especializada vem aumentando, especialmente em países de língua inglesa, onde cresceu 5 pontos percentuais.

Apesar da queda na participação da mão-de-obra na renda, a remuneração real dos trabalhadores cresceu em todos os países de alta renda desde a década de 1980, e esse crescimento acelerou desde meados da década de 1990. Isso reflete tanto o crescimento do emprego como aumentos na remuneração real por trabalhador, com maior ênfase no emprego em países de língua inglesa, e na remuneração real por trabalhador na Europa.

Agora, consideremos o terceiro aspecto: as causas dessas tendências na participação da mão-de-obra na renda. Globalização, mudanças tecnológicas e políticas para o mercado de trabalho afetaram, todos, as participações da mão-de-obra na renda, nas últimas décadas. Os dois primeiros fatores fizeram diminuir a participação da mão-de-obra, sendo a tecnologia o fator mais mais importante. Por outro lado, mudanças em políticas para o mercado de trabalho tiveram efeitos positivos na participação da mão-de-obra na renda, em larga medida devido ao crescimento do emprego.

A explicação para o declínio mais moderado nas participação da mão-de-obra na renda em países de língua inglesa do que nos da Europa Continental está no impacto da tecnologia e das políticas para o mercado de trabalho, e não no efeito da globalização. Mas mudanças tecnológicas também implicaram menor redução na participação da mão-de-obra na renda nos países de língua inglesa.

Enquanto isso, mudanças nas políticas para o mercado de trabalho tiveram efeitos positivos para a participação da mão-de-obra na renda em países de língua inglesa. Isso deve-se em larga medida ao fato de reduções em impostos sobre baixos salários e no benefício-desemprego estimularem o emprego. Esse é um caminho que diversos países europeus vêm trilhando recentemente com algum êxito.

Importações mais baratas também beneficiaram a economia como um todo. Em todos os países de alta renda, o impacto de mudanças nos preços dos bens comercializados sobre o crescimento da remuneração real da mão-de-obra foi o de acrescentar pouco mais de 0,2 ponto percentual por ano. O maior impacto foi no Japão (com quase 0,4 ponto percentual) e o menor nos grandes países europeus, com pouco menos de 0,2 ponto percentual.

Por fim, quais são as conclusões sobre as políticas? O impacto da globalização sobre as rendas dos trabalhadores depende do tamanho do bolo e de sua participação nele. A evidência de um impacto positivo sobre o primeiro é enorme. A evidência sobre o impacto da globalização sobre o segundo, analisado no relatório WEO, é mais complexo. Foi um fator, porém não o predominante.

Apesar disso, a conclusão mais notável dessa análise aponta para os benefícios de políticas que incentivam o emprego. Pressionar por altos salários reais em empregos que, em conseqüência, tornam-se inexistentes é algo contraproducente. Embora as rendas possam ser sustentadas graças a transferências, ociosidade subsidiada arrasa qualquer ânimo. Tomem nota, por favor, eleitores franceses.

A política apropriada, portanto é estimular o emprego e, simultaneamente, elevar as rendas dos trabalhadores mais mal pagos ou, pelo menos, reduzir substancialmente a tributação sobre a mão-de-obra. É também fomentar maior qualidade de ensino básico para todo o contingente de mão-de-obra e proporcionar boas oportunidades para trabalhadores motivados aperfeiçoarem suas habilidades.

A política acertada é combinar abertura comercial com um compartilhamento politicamente aceitável dos ganhos em países de alta renda. O desafio é enorme, mas trata-se de uma dificuldade que não podemos deixar de superar.