Título: Incertezas derrubam Bolsa
Autor: Batista, Vera
Fonte: Correio Braziliense, 09/12/2010, Economia, p. 20
Investidores temem que redução de impostos agrave as contas públicas dos Estados Unidos. Ibovespa recua 1,68% e dólar sobe 0,65%
A euforia com o pacote de incentivos fiscais dados pelo presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, durou pouco. Os investidores refletiram e chegaram à conclusão de que o corte de impostos para a classe média e os mais ricos poderá ter efeito contrário ao desejado, caso a economia americana não ganhe força, agravando ainda mais as frágeis finanças públicas. ¿Quando esse raciocínio se propagou, o medo imperou. O mercado ficou histérico. O sentimento agora é de decepção¿, analisou Sérgio Quintella, diretor da Valores Investimentos Personalizados.
Colaborou para o desânimo a possibilidade de mais um aperto monetário na China, depois que o governo anunciou que antecipará para o próximo sábado (estava programada para a segunda-feira) a divulgação dos dados econômicos, especialmente a inflação. As apostas do mercado são de que o país asiático vai mesmo elevar a taxa de juros. Para completar, boatos sobre novos sinais de tensões entre as Coreias do Norte e do Sul tomaram corpo e aumentaram as preocupações com a situação da dívida dos países da Zona do Euro, apesar da aprovação do orçamento da Irlanda para 2011, com forte corte de gastos.
Diante desse cenário, o Ibovespa, índice que mede a lucratividade das ações mais negociadas na BM&FBovespa, caiu 1,68%, para os 68.174 pontos, devendo manter a tendência morna até o fim do ano ou início do próximo. Mas, daí para frente, tudo será diferente. Quintella prevê que, no fim de 2011, a Bovespa baterá facilmente os 85 mil pontos, uma bela alta de 24%. ¿Se olharmos o histórico da Bolsa, veremos que ela sobe de 15% a 20% ao ano, tradicionalmente. Nos últimos dias, andou de lado, mas vai retomar a trajetória de alta¿, insistiu.
A Bolsa de Nova York subiu 0,11%. Enquanto as europeias seguiram direções diversas. A Bolsa de Londres baixou 0,24%. A de Frankfurt cedeu 0,37%. E a de Paris subiu 0,56%. O mercado asiático seguiu o mesmo rumo. A Bolsa de Valores de Xangai recuou 0,95%. A de Hong Kong desceu 1,43%. E a de Tóquio subiu 0,90%. A aversão ao risco levou os investidores a buscarem proteção no dólar. E o Banco Central voltou a fazer dois leilões de compra no mercado de câmbio, atitude que não tomava desde 10 de novembro. Assim, a divisa americana encerrou o pregão em alta de 0,65%, cotada a R$ 1,693.
Vale em Hong Kong A Vale estreou ontem na Bolsa de Hong Kong e se tornou a primeira empresa sul-americana a ser cotada na cidade. Nos primeiros negócios, a ação comum da Vale era negociada a US$ 270 de Hong Kong (US$ 34,32), mas a cotação caiu a US$ 265,20 de Hong Kong (US$ 34,15) porque o mercado teve um dia tenso, na expectativa de alta dos juros no país.
CONTRAPARTIDAS DA INDÚSTRIA
Liana Verdini
A nova política industrial, a ser definida pelo próximo governo, deverá exigir contrapartidas em troca de reduções de impostos e contribuições. A proposta está sendo desenhada pelo Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (Mdic) para a segunda fase do Programa de Desenvolvimento Produtivo (PDP), que foi lançado em maio de 2008 para dar sustentação ao crescimento econômico. De acordo com o ministro Miguel Jorge, as sugestões devem ser apresentadas ao seu sucessor quando o titular for anunciado.
Para o ministro, o governo errou ao não exigir contrapartidas das empresas beneficiadas pelas desonerações tributárias durante a crise mundial. ¿Houve um erro em não discutirmos as contrapartidas. Tomamos as medidas na pressão da crise e não tivemos tempo para discutir isso. Em alguns casos, não discutimos as desonerações nem mesmo com trabalhadores e sindicatos¿, lembrou o ministro. ¿Agora não vejo razão para não se exigir contrapartidas.¿
Miguel Jorge considera o PDP importante fórum de coordenação intergovernamental e que resultou em mais de R$ 100 bilhões em desonerações para o setor produtivo, além da criação dos complexos industriais da Defesa e da Saúde. Desindustrialização
O ministro rebate as afirmações de empresários de que estaria havendo um processo de desindustrialização no país. ¿Há setores mais afetados do que outros. São os menos competitivos que podem estar com problemas. É um processo natural de encolhimento de alguns setores¿, afirmou. ¿Afinal, quem está comprando no exterior para produzir aqui é a própria indústria¿. As estatísticas sobre investimentos contribuem para contestar a tese dos empresários. ¿Nos últimos quatro anos, os investimentos em produção alcançaram US$ 130 bilhões. Nos quatro anos anteriores, esse volume foi de US$ 60 bilhões.¿
MINISTRO CULPA RECEITA POR COLAPSO
O sistema de defesa comercial do Brasil está paralisado e em colapso. A afirmação é do ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, Miguel Jorge, que atribui os problemas à interrupção da Receita Federal no repasse de informações sobre o comércio exterior das empresas. Sem os dados, os processos para aplicação de direito antidumping ¿ que protege o país de condições desiguais de competição no mercado, como, por exemplo, preços muito baixos ¿ estão interrompidos. Miguel Jorge contou que a Receita deixou de transmitir as informações desde a edição da medida provisória que aumentou a punição à quebra do sigilo fiscal dos contribuintes, no início de outubro.
¿Temos 40 processos de aplicação de medidas antidumping em andamento e outros 30 em fase de avaliação para decidir sobre a abertura ou não de processo. Se estiver havendo dumping (venda de produtos por um preço muito baixo para desestimular a competição), as condições de concorrência desleal estão mantidas no mercado brasileiro¿, disse o ministro.
Miguel Jorge afirmou que os secretários do Mdic já se reuniram diversas vezes com integrantes da Receita Federal para tentar uma solução e não houve avanço na questão. ¿A Receita, que nos forneceu esses dados durante 50 anos, agora diz que não pode mais. São dados que estão à venda na internet, em sites de país vizinho. São dados comerciais. É preciso diferenciar sigilo fiscal de sigilo comercial¿, reclamou o ministro.
O temor de técnicos do governo é que esse tipo de cenário cause insegurança ou dúvidas jurídicas em relação aos procedimentos desenvolvidos pelo Brasil nessa área, o que seria um retrocesso. ¿De todos os processos questionados na Justiça por aplicação de direito antidumping, o Brasil não perdeu nenhum, devido ao rigor na condução das análises¿, disse o ministro. ¿O Brasil tem sido muito ágil na defesa comercial e hoje é o segundo país no mundo em aplicação de direito antidumping. Hoje temos um colapso. Todos os processos estão parados.¿