Título: Forma de combater inflação divide economistas no país
Autor: Felício , César
Fonte: Valor Econômico, 18/02/2013, Especial, p. A14

Não é apenas o congelamento de preços que aproxima a Argentina de hoje ao Brasil dos anos 80. Entre os economistas, a discussão sobre a inflação repete a divisão que marcou ortodoxos e heterodoxos antes da estabilização econômica.

Os economistas alinhados à oposição dizem que o aumento da emissão monetária está na raiz da aceleração da variação dos preços. Os especialistas mais próximos da Casa Rosada afirmam que a inflação se explica pelo conflito distributivo, por um componente de inércia e pela alta de commodities.

"Os principais produtos de exportação da Argentina também são de consumo interno, seja diretamente ou sob forma de insumo. Paradoxalmente, o aumento do valor dessas commodities incide sobre a inflação", afirmou Fabian Amico, da Associação dos Economistas pelo Desenvolvimento Argentino (Aeda), muito vinculada a alguns dos atuais diretores do Banco Central. Entre as commodities que tiveram grande alta recentemente estão o petróleo, milho, soja e trigo.

"A tese de que a nossa inflação se origina no cenário externo é um mito, porque países como Brasil e Chile passam pelo mesmo problema. O que não existe fora da Argentina é uma emissão monetária anualizada de 38% para o Tesouro financiar gastos da administração", disse Hernán Lacunza, dono da consultoria Empirea e ex-gerente geral do BC na gestão de Martín Redrado, demitido pela presidente Cristina Kirchner em 2010 por discordar do uso das reservas internacionais para o pagamento da dívida pública.

"O corte de gastos públicos nunca funcionou como política anti-inflacionária se não estava acompanhado de uma folga no setor externo", disse Amico. Segundo o economista, a alta das commodities tem seu efeito inflacionário potencializado pelo alto grau de mobilização sindical.

"A mão de obra é o principal custo das empresas e, desde 2004, o governo criou uma estrutura que favorece ganhos reais", afirmou, citando a reforma que reintroduziu as negociações obrigatórias por categoria de trabalhador, e não mais por empresa, como antes.

"Com a taxa de desemprego em apenas 6%, o poder de fogo sindical aumentou. Essa também é uma fortaleza argentina porque impede uma deterioração da distribuição de renda", disse. A conclusão de Amico é que "na Argentina a inflação é estrutural e cabe ao governo administrá-la para mantê-la em um nível que não acirre a conflitividade social".

"O marco fundador da inflação foi a decisão de Cristina de baixar o nível de reservas e atrasar a correção cambial. Isso cortou o fluxo de investimentos e comprometeu o setor externo. O aumento do gasto público se tornou a ferramenta para manter o crescimento", diagnosticou Lacunza.

As duas correntes divergem sobre como conter a inflação. Lacunza prescreve um aumento das taxas de juros para reduzir a quantidade de dinheiro em circulação. Amico sugere um acordo patrocinado pelo governo para conter salários e um controle de preços em todas as cadeias produtivas. (CF)