Título: Gestores estrangeiros reduzem exposição a ações no Brasil
Autor: Rosa , Silvia
Fonte: Valor Econômico, 18/02/2013, Finanças, p. C1
As preocupações com o aumento da inflação, baixa competitividade da economia brasileira e a maior intervenção do governo no setor privado têm afastado os gestores estrangeiros do mercado de ações no Brasil. As gestoras americanas Pimco e AllianceBernstein, por exemplo, estão com posição abaixo da média do mercado em ações no Brasil ("underweight").
O maior intervencionismo do governo no setor privado prejudicou os papéis de alguns setores de grande peso na bolsa brasileira como o bancário e o de energia elétrica no ano passado. Os gestores, no entanto, veem oportunidades em ações que estão com preços descontados, principalmente de grandes bancos e da Vale.
Neste ano, enquanto os fundos voltados para mercados emergentes captaram US$ 30,8 bilhões, os portfólios dedicados a Brasil tiveram saque de US$ 307 milhões até 12 de fevereiro, de acordo com dados da consultoria EPFR. Sinal de que os estrangeiros estão preferindo outros emergentes ao Brasil.
A Pimco, uma das maiores gestoras do mundo com US$ 2 trilhões sob gestão, está com posição abaixo da média do mercado em Brasil há quase dois anos. "A economia brasileira, fora o setor de materiais básicos, não é competitiva", afirma Masha Gordon, vice-presidente da Pimco e responsável pelo time de gestão de fundos de ações de mercados emergentes. Dos US$ 2 bilhões sob gestão em ações de países emergentes, 6% estão em papéis brasileiros, participação inferior à que o país tem nos índices que servem de referência para esses mercados.
Já a AllianceBernstein, que tem US$ 14 bilhões sob gestão dedicados a mercados emergentes, estava com posição acima da média do mercado em Brasil em agosto do ano passado e reduziu a posição para "underweight" neste ano. "O baixo crescimento da economia combinado com inflação alta tornam o ambiente não favorável para investir", afirma Jean Van de Walle, chefe para mercados emergentes da gestora. O país representa cerca de 21% do fundo dedicado a mercados emergentes.
Para o gestor da Alliance, o governo deveria refrear um pouco o consumo, que tem pressionado a inflação, e incentivar o aumento dos investimentos.
No ano passado, o governo promoveu uma série de medidas para impulsionar o crescimento econômico baseado no aumento do consumo. Cortou, por exemplo, impostos para alguns setores como linha branca e automotivo. Além disso, o governo vem tentando segurar o aumento da inflação por meio da administração dos preços da energia e da gasolina, o que acabou trazendo impacto negativo para as empresas desses setores. "Estamos muito cautelosos em relação à continuidade da intervenção do governo nas empresas brasileiras", afirma Masha, que esteve no Brasil na semana passada.
Os investidores estrangeiros ficaram mais avessos a companhias que foram afetadas por essas medidas e foram buscar oportunidades no setor de consumo.
A gestora americana BlackRock reduziu a posição nos portfólios de América Latina em ações da Petrobras e do setor elétrico, após a publicação da Medida Provisória 579, que trata da renovação das concessões do setor, afirma Will Landers, gestor dos fundos de renda variável para América Latina.
Apesar disso, a gestora mantém uma participação acima da média do mercado em Brasil, que representa hoje 66% do total sob gestão em ações da América Latina, que soma US$ 6,5 bilhões.
Já a J.P. Morgan Asset Management tem privilegiado empresas voltadas para o mercado doméstico com potencial de crescimento. "Tendemos a focar em companhias que geram grande fluxo de caixa e devem se beneficiar de uma recuperação do crescimento", diz Richard Titherington, chefe da equipe de renda variável de mercados emergentes da gestora. Entre os setores no radar estão o de varejo têxtil, educação, industrial e financeiro.
Apesar dos papéis do setor de consumo terem se tornado mais caros, a gestora da Pimco ainda vê oportunidade em algumas ações que apresentem grande lucratividade e preços mais estáveis como Ambev, que subiu 59,5% em 2012. "Claramente, a empresa está com múltiplo alto, mas tem excepcional rentabilidade e detém grande participação de mercado."
Os gestores estrangeiros também veem preços atrativos nas ações dos grandes bancos, como Itaú Unibanco e Bradesco.
Para o gestor da Alliance, o retorno sobre patrimônio (ROE, em inglês) de grandes bancos como Itaú e Bradesco, entre 18% e 19%, é interessante. "Os investidores estão um pouco pessimistas com a compressão das margens, mas achamos que esse ROE deve se sustentar no médio prazo", diz Walle.
As gestoras BlackRock e a Alliance também estão otimistas com o papel da Vale, que deve se beneficiar da recuperação do crescimento da China.
A maior posição hoje na carteira de América Latina da BlackRock em Brasil é nas ações da concessionária de rodovias CCR. "A empresa tem mostrado ganhos de capital, além de ser uma grande pagadora de dividendos", afirma Landers.
O gestor da BlackRock vê um ano menos conturbado no cenário externo, com menor volatilidade na Europa, e espera que os Estados Unidos cheguem a um acordo sobre os cortes de gastos e aumento do teto da dívida. "Com isso, o desempenho dos mercados deve ser mais baseado nos fundamentos."
No caso da bolsa brasileira, a gestora da Pimco não vê grande desvalorização neste ano. No entanto, uma alta maior do Ibovespa dependerá do aumento dos investimentos das empresas brasileiras.
No ano passado, as expectativas de crescimento do governo foram frustradas e o país, na opinião da gestora, precisa recuperar a confiança dos investidores.
As projeções dos analistas para este ano, no último Boletim Focus, era de crescimento de 3,09% do PIB e de 5,71% para o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA).
Mesmo a expectativa de crescimento maior para o Brasil não é suficiente para sustentar um aumento da alocação dos investidores. A gestora do J.P. alterou a posição em Brasil de abaixo da média do mercado para neutro. "A fraca performance das ações nos últimos dois anos tem nos levado a ficar neutros", diz Titherington.