Título: PMDB cobra 2º escalão para manter pauta de votações desobstruída
Autor: Ulhôa, Raquel e Costa, Raymundo
Fonte: Valor Econômico, 04/05/2007, Política, p. A6

Depois de um início tranqüilo, as relações do PMDB com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva voltam a atravessar um período de turbulência, diante de um suposto veto do Palácio do Planalto a indicações "prioritárias" feitas pelo partido para cargos no governo federal. Se as nomeações não começarem a ser feitas a partir da próxima semana, a cúpula pemedebista da Câmara avalia que a relação pode se esgarçar e criar dificuldades para o governo na CPI do Apagão Aéreo e na votação da prorrogação da CPMF (o imposto do cheque) e da DRU (desvincula receitas da União). A própria a lista de representantes do PMDB na CPI, divulgada ontem, confirma o risco de a sigla dificultar votações importantes para o governo.

"Quanto mais rápido (ocorrerem as indicações) melhor, para não começar a vincular com as votações da CPI e das propostas de emenda constitucional prorrogando CPMF) e a DRU. Nós fizemos as indicações. Agora, a bola está com o governo", disse ontem ao Valor o líder do PMDB na Câmara, deputado Henrique Eduardo Alves (RN). A seu lado, o presidente do partido, deputado Michel Temer (SP).

Henrique Alves assegura que não poderá controlar uma eventual rebeldia da bancada, se as reivindicações não forem atendidas ou demorarem muito. "Eu conduzo a bancada enquanto eu perceber que o governo está respeitando o PMDB, não está empurrando com a barriga. Quando eu perceber que mudou, falarei para a bancada", afirmou.

Ontem, o deputado conversou com o ministro Walfrido dos Mares Guia (Relações Institucionais) e reafirmou a posição do partido. Ouviu do ministro que não há vetos e que as nomeações começam a ser feitas na próxima semana. Mas também que ele, Walfrido, enfrenta dificuldades para compatibilizar a sobreposição de indicações para um mesmo cargo, feitas por partidos diferentes. "O governo deve ter a compreensão da importância e do tamanho do PMDB, como teve na composição do ministério", adverte Henrique Alves.

Ao montar a lista de deputados para compor a CPI do Apagão Aéreo, Alves incluiu representantes de bancadas que têm trabalhado afinadas na pressão por cargo, como Eduardo Cunha (RJ) e Leonardo Quintão (MG), além de parlamentares com atuação mais independente, como Vladimir Costa (PA).

"Chamei todos aqui e deixei claro: não escolhi por ser governista ou de oposição. O critério que quero é o de lealdade e fidelidade ao PMDB. É uma missão partidária", disse o líder pemedebista, explicitando que a conduta dos deputados do partido não será de alinhamento automático ao Palácio do Planalto.

Entre as indicações consideradas "prioritárias" pela cúpula do PMDB estão as de Luiz Paulo Conde, ex-prefeito do Rio de Janeiro, para a presidência de Furnas, de Maguito Vilela, ex-governador e ex-senador de Goiás, para a vice-presidência de Agronegócios do Banco do Brasil e do técnico João Augusto para a diretoria de exploração da Petrobras. Todas encontram resistência do Planalto, que prefere nomes mais técnicos para os cargos.

Conde, Augusto - ex-diretor da BR Distribuidora - e Maguito são indicações, respectivamente, das bancadas do Rio, de Minas Gerais e de Goiás. "Um nome mais técnico que o de Conde só se for o de Vanderley Luxemburgo, técnico do Santos, que é considerado o melhor do Brasil", ironizou Henrique Alves.

O comando pemedebista aceita pacificamente apenas que o ex-governador Moreira Franco não seja nomeado presidente da BR Distribuidora, como o partido indicou. É que o governo deve nomear para o lugar o ex-presidente da Petrobras e ex-senador petista José Eduardo Dutra, nome com mais autoridade no setor para ocupar o cargo. Moreira deve ocupar uma diretoria da empresa.

Por enquanto, apenas o próprio líder teve sua indicação atendida: com a confirmação da nomeação do ex-deputado Elias Fernandes Filho, do Rio Grande do Norte, para o Departamento Nacional de Obras Contra a Seca (DNOCS). Alves reivindicou o cargo para o PMDB, argumentando que o PT não poderia acumular os dois órgãos regionais mais importantes da região, o Banco do Nordeste e o DNOCS

Para justificar as indicações, Alves diz que Conde é um nome técnico, e Maguito, por sua vez, é de um estado onde o agronegócio é forte. E Augusto, segundo ele, tem um "currículo excepcional". Na opinião do líder, "qualquer partido gostaria de ter nomes como esses".

O nível de impaciência da bancada do PMDB na Câmara pode ser medido por declarações dos deputados Fernando Diniz (MG) e Eduardo Cunha (RJ), feitas no gabinete do líder. "Com ou sem cargos, ajudaremos o governo. Inclusive a acabar com a CPMF", disse Diniz, com ironia. "Acabar ou dividir a arrecadação com estados e municípios", acrescentou Cunha - integrante da CPI. Diniz completou: "Afinal, seguimos a orientação do governo... inclusive do estadual, do PSDB".

O governo também enfrenta problemas de nomeação para cargos com o PR (antigo PL), que tenta manter as posições que assumiu antes da criação da nova Secretaria dos Portos Marítimos. O PSB se reuniu ontem com o ministro a ser nomeado para a Pasta, Pedro Brito. Na conversa, ele afirmou que o presidente pediu um "choque de gestão" nos portos. Em contrapartida, prometeu que o ministro terá autonomia para montar a equipe. Os dirigentes de portos como o de Santos, o maior do país, devem ser mudados pelo novo ministro. O PSB acha que recebeu um "presente de grego", mas promete dar uma "lição de gestão" nos portos.