Título: Haddad recebe 11 ministros em 60 dias de governo
Autor: Agostine, Cristiane
Fonte: Valor Econômico, 05/03/2013, Política, p. A8

Vitrine do PT para as próximas eleições, a gestão do prefeito de São Paulo, o petista Fernando Haddad, teve forte presença do governo federal em seus 60 primeiros dias. Os ministros desembarcaram em peso na cidade, além da própria presidente Dilma Rousseff. Dos 12 ministros com quem Haddad se reuniu, 11 vieram à capital paulista para traçar planos de investimentos conjuntos e construir bandeiras para a campanha de reeleição de Dilma em 2014.

O primeiro resultado concreto da proximidade com o governo federal se deu na renegociação da dívida com a União, estimada em R$ 53 bilhões. A proposta defendida por Haddad é semelhante ao projeto que o Executivo enviou ao Congresso para mudar o indexador da dívida. Haddad encontrou-se com o ministro da Fazenda, Guido Mantega, no dia 04 de janeiro, em São Paulo, para tratar do tema, em reunião não registrada na agenda oficial do prefeito. Antes de tomar posse, já havia se encontrado com Mantega duas vezes.

O secretário municipal de Finanças, Marcos Cruz, disse que as visitas dos ministros ainda não se reverteram nos recursos necessários para os investimentos planejados pela gestão Haddad, mas afirmou que a prefeitura está mapeando as áreas em que é possível captar mais dinheiro da União.

"Os recursos não se materializam imediatamente. Exigem convênios e precisamos entrar nos trâmites normais. Nada virá numa excepcionalidade para São Paulo. Mas as visitas dos ministros estão mostrando uma aproximação para construir isso", afirmou Cruz, referindo-se a parcerias e convênios.

Em busca de recursos para investimentos, em especial em obras de infraestrutura, Haddad foi a Brasília encontrar-se com a ministra do Planejamento, Miriam Belchior, a única da lista dos 12 ministros que não veio a São Paulo. Na capital federal, encontrou-se também com o secretário do Tesouro Nacional, Arno Augustin, para tratar da dívida da cidade.

Ao financiar projetos de Haddad, o governo federal mira na sucessão do governo do Estado, comandado há cinco gestões pelo PSDB. Os ministros Alexandre Padilha (Saúde) e Aloizio Mercadante (Educação), pré-candidatos do PT no próximo ano, foram a São Paulo para encontrar-se com Haddad pelo menos duas vezes.

Na área da saúde, o prefeito já recebeu 84 ambulâncias do Samu (R$ 10,3 milhões) e ampliou a promessa de construção de Unidades de Pronto Atendimento (UPA) de 16 para 21. O secretário municipal de Saúde, José de Filippi Junior, afirmou que na sua área a prefeitura já tem uma lista pronta de projetos para parcerias, como os tratamento de usuários de drogas e para a realização de cirurgias.

Na educação, o prefeito articulou o início das obras, nos próximos meses, de construção de um campus da Universidade Federal de São Paulo e de um campus do Instituto Federal de Tecnologia.

No começo de seu mandato, Haddad procurou dar visibilidade à sua tentativa de aproximar-se do governo estadual, em busca de mais recursos e parcerias e participou de vários eventos ao lado do governador Geraldo Alckmin (PSDB), inclusive na sede do governo paulista (ver matéria ao lado). A estratégia do petista de pressionar indiretamente Alckmin tem gerado desconfiança e insatisfação de aliados do tucano, já que o governador deve ter no PT seu principal adversário eleitoral em 2014.

Além de ter participado de pelo menos três encontros com a presidente desde que assumiu, a principal reunião política de Haddad foi com o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O evento, na sede da prefeitura, com secretários, gerou ampla repercussão sobre a influência de Lula, padrinho político do prefeito, na gestão municipal.

A agenda dos primeiros 60 dias da gestão Haddad traz também dezenas de reuniões com empresários, sobretudo os da construção civil, como a direção da Odebrecht, Camargo Corrêa, Queiroz Galvão e Andrade Gutierrez. Representantes desse setor compareceram em peso ao jantar de arrecadação de recursos organizado pelo PT na semana passada para pagar a dívida da campanha do petista.

A mulher de Haddad, Ana Estela, participou de pelo menos cinco encontros estratégicos com a equipe municipal, em especial para debater temas ligados à área de saúde.