Título: Para Pires, segurança aérea é com a Aeronáutica
Autor: Ulhôa, Raquel
Fonte: Valor Econômico, 12/04/2007, Política, p. A11
As principais autoridades do setor aéreo evitaram assumir responsabilidade sobre a crise na aviação e não se entenderam sobre as razões do caos que se instalou nos aeroportos. Em uma concorrida audiência pública na Câmara, apontada pelos parlamentares como uma prévia da CPI do Apagão, o ministro da Defesa, Waldir Pires, reconheceu a existência de "falhas nos equipamentos" e de "problemas de gestão" no setor. Ele admitiu ainda que "muitas das causas são anteriores ao 29 de setembro", em referência à data do acidente com o Boeing da Gol, com 154 vítimas.
Pires, no entanto, adotou um tom de desabafo para rebater as críticas de que tem sido alvo, com especulações quase diárias sobre sua demissão do ministério. "Em que país europeu, por exemplo, o Ministério da Defesa é gestor de tudo?", disse Pires, ao devolver as perguntas feitas pelos deputados sobre a sua atuação na crise. Ele acrescentou que "cabe à Aeronáutica prover as condições para a segurança aérea" e que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva "estaria fraudando os seus deveres" se atribuísse à Defesa a responsabilidade sobre a negociação com os controladores de vôo.
O ministro foi contundente na defesa da desmilitarização do sistema de controle de tráfego, mas elogiou o trabalho da FAB e considerou "quase uma provocação" os alertas de que a segurança de vôo no país está em níveis semelhantes aos praticados na África. Demonstrando certo nervosismo com as críticas de parlamentares, afirmou que a CPI é "o instrumento mais forte da democracia" e tem um papel "insubstituível", mas avisou que ela não pode servir à "politicagem". "Não se pode fazer dela um instrumento político", concluiu Pires.
Contrariando as afirmações do ministro, o comandante da Aeronáutica, brigadeiro Juniti Saito, descartou a existência de problemas nos equipamentos da FAB. Exibindo imagens de instalações do Cindacta-4 (Manaus) na tela de projeção, Saito comentava foto por foto. "Estes são supermodernos", apontou o comandante, mostrando radares, computadores, aparelhos de ar-condicionado e as salas de descanso para os sargentos que trabalham no local. "O pessoal lá tem todo o conforto."
Para o comandante, todo o problema está relacionado à falta de controladores e à ausência de especialistas em quantidade suficiente para formar uma equipe de reserva, em caso de dificuldades. Ele ressaltou, porém, que a FAB formará 363 profissionais em 2007 e já recebeu autorização para recontratar outros 100 controladores que haviam se aposentado. Lembrou ainda que, em outubro, estará concluída a modernização do Cindacta-2 (Curitiba), responsável pelo tráfego aéreo na região Sul: "Por dez anos, não teremos problemas de obsolescência".
Para o brigadeiro, as falhas nos equipamentos de comunicação são "absolutamente pontuais" e é "maldade" a acusação de pilotos de que existe um ponto cego na região amazônica, não-coberto pelos radares. "Falar em buraco negro dá a impressão de terra de ninguém. Isso não existe", frisou Saito. De acordo com ele, os aviões são permanentemente monitorados por rádio. É o que acontece nos vôos para a Europa, exemplificou, que não são acompanhados por radar quando cruzam o Atlântico. "Mesmo com a aeronave estando fora do controle de radar, ela está sendo sempre monitorada. Voar no Brasil é absolutamente seguro."
O comandante disse não acreditar na possibilidade de baixa coletiva dos controladores, com a apresentação conjunta de atestados médicos para desfalcar as equipes de trabalho nos Cindactos. Segundo ele, isso seria um "tiro no pé" dos próprios controladores, pois a Aeronáutica tem um plano B para implementar.
Enquanto o ministro reconheceu problemas de gestão e Saito atribuiu a crise ao drama dos controladores, a Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) tentou redimensionar a crise. Para o diretor-presidente da agência, Milton Zuanazzi, "a palavra crise é muito impactante" e "estamos vivendo o período de maior oferta e demanda na história da aviação brasileira". Ao avaliar o que é uma crise, Zuanazzi apontou o período pré-2003, quando duas empresas caminharam para a falência (Vasp e Transbrasil) e uma terceira (Varig) quase fechou.
Ele defendeu o trabalho do órgão regulador e esclareceu que não há excesso de aeronaves voando. Em março deste ano, havia 1.406 vôos regulares domésticos autorizados pela Anac - número exatamente igual ao de um ano antes. As companhias investiram R$ 3,4 bilhões nos últimos anos e a demanda doméstica cresce a taxas chinesas, afirmou.
Já o presidente da Infraero, José Carlos Pereira, argumentou que a política da estatal foi correta ao ampliar terminais de passageiros. Se isso não tivesse ocorrido, "teríamos visto passageiros na rua e talvez até montando barracas".