Título: Planalto avalia que mudança não afetará empresas brasileiras
Autor: Leo, Sergio
Fonte: Valor Econômico, 07/03/2013, Internacional, p. A13

A possibilidade de mudanças nas perspectivas de companhias brasileiras com negócios bilionários na Venezuela tem mais a ver com possíveis turbulências na economia venezuelana que com eventuais mudanças de rumo promovidas pelo vice-presidente Nicolás Maduro, candidato do chavismo à sucessão de Hugo Chávez e indicado pelas forças políticas dominantes no país como responsável pela condução do processo eleitoral. Essa é a avaliação predominante no governo brasileiro, que vê Maduro como um interlocutor confiável e amistoso com o Brasil.

Maduro chegou a ajudar o governo brasileiro a apaziguar atitudes belicosas de Chávez, no ano passado. Quando Chávez quis cortar o fornecimento de petróleo ao Paraguai após o impeachment do presidente Fernando Lugo, Maduro foi o intermediário dos apelos brasileiros para evitar sanções econômicas ao país. Foi também quem moderou as posições venezuelanas nas discussões da Rio +20, a conferência sobre o clima hospedada pelo Brasil em meados de 2012; e quem viabilizou a ordem de Chávez para acelerar as negociações da Venezuela para adoção das normas do Mercosul, necessárias para integração do país ao bloco.

Durante os últimos dias de doença de Chávez, Maduro, interinamente no governo, manteve sem mudanças o relacionamento com as companhias brasileiras que atuam no país, e, nas conversas que teve com autoridades como o assessor especial da Presidência Marco Aurélio Garcia e o ministro das Relações Exteriores, Antonio Patriota, manifestou interesse em seguir com os planos de Chávez de buscar associações com empresas brasileiras para as reformas no setor produtivo que o líder bolivariano pretendia fazer no esforço para reduzir a dependência da economia venezuelana em relação ao petróleo.

Durante as negociações no ano passado para incorporação das tarifas do Mercosul pela Venezuela, e para remoção de barreiras tarifárias, os negociadores venezuelanos, subordinados a Maduro, reservaram uma lista de "produtos sensíveis" de apenas 777 itens, com prazos mais longos de redução de tarifas e aceitaram, inclusive, acrescentar o setor automotivo na lista de produtos que passarão a ter livre comércio com o Brasil a partir de 2014 - os venezuelanos fizeram questão de incluir nos acordos menções ao "fortalecimento do sistema produtivo", termo usado para os projetos bilaterais de apoio aos planos de industrialização do país defendidos por Chávez.

A forte influência dos militares, em quem Maduro buscou apoio após a morte de Chávez, serve de garantia para a manutenção do contrato de até US$ 780 milhões firmado com a Embraer para aquisição de 20 cargueiros E-190 (dez deles com a compra garantida neste ano).

O governo venezuelano assinou recentemente contrato para ampliação da termelétrica de Cumanã com a Andrade Gutierrez, com quem tem negócios que somam quase US$ 4 bilhões. A Odebrecht, que tem receitas anuais de R$ 3 bilhões com sua subsidiária na Venezuela, anunciou neste ano a inclusão do país em seus planos de investimento na área de petróleo, onde é associada, em dois campos, à estatal PDVSA.

Tranquilos em relação ao interesse de Maduro em manter as boas relações com o Brasil estabelecidas na era Chávez, o governo e as empresas brasileiras só não arriscam previsões sobre as chances do futuro presidente na gestão dos difíceis desafios da economia venezuelana, como a inflação crescente e a alta ineficiência das empresa nacionalizadas pelo chavismo.