Título: Economistas vêem processo de ajuste de estoques
Autor: Durão, Vera Saavedra e Grabois, Ana Paula
Fonte: Valor Econômico, 07/03/2007, Brasil, p. A3

Os indicadores industriais mais recentes sinalizam que o processo de ajuste de estoques que começou no ano passado chegou ao fim, deixando-os em em níveis desejados e que, a partir de agora, o aquecimento da demanda será acompanhado por aumentos na produção da indústria. Essa é a avaliação de economistas ouvidos pelo Valor.

A análise está embasada no crescimento das vendas da indústria e também do varejo acima dos resultados mostrados pela produção. Nos últimos 12 meses até dezembro do ano passado (último dado disponível), as vendas do comércio acumularam elevação de 6,16%. Na mesma comparação, a indústria de transformação teve alta de 2,6% em sua produção. A indústria total, que inclui a extrativa, mostrou um crescimento de 2,82%.

"Temos visto há algum tempo a produção crescer em ritmo menor do que o varejo. E acredito que essa diferença está sendo suprida por aumento de importações e redução dos estoques", argumenta Giovanna Rocca, economista do Unibanco.

Na comparação mensal com o mesmo mês do ano anterior, as variações do comércio também estão mais fortes do que as da produção. Pelos dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o comércio vendeu 6,9% a mais em outubro. A indústria de transformação, 4,96%. Em novembro, o varejo avançou 9% e a produção, 3,9%. Já em dezembro, a indústria produziu 0,16% a menos e as vendas do comércio subiram 5,65%.

Giovanna ressalta que a maior alta da produção industrial no ano passado ocorreu no último trimestre, com uma elevação de 1,1% em relação ao terceiro trimestre. No entanto, quem puxou esse resultado foram os bens de capital, com expansão de 3%. A produção de bens duráveis ficou estável e a de não-duráveis cresceu apenas 0,5% nesse período. "Em contrapartida, a venda desses bens no varejo apresentou bom desempenho", diz a economista.

As sondagens conjunturais realizadas pela Confederação Nacional da Indústria (CNI) e pela Fundação Getúlio Vargas (FGV), também indicam que 2007 começa com estoques mais ajustados. Segundo a FGV, em janeiro deste ano 7% das empresas ouvidas na sondagem consideram seus estoques excessivos, enquanto para 2% delas eles eram insuficientes e para os demais 91% eles estão ajustados. No começo de 2006, 10% das empresas consideram seus estoques excessivos e os mesmos 2% afirmavam que eles estavam insuficientes.

A economista do Unibanco faz um cálculo que subtrai da produção física do IBGE as vendas da indústria e essa diferença tem se estreitado nos meses mais recentes. "As vendas ainda evoluem acima da produção, mas esse número tende a ficar menor e a demanda e a atividade industrial tendem a caminhar em níveis mais próximos", avalia Paulo Levy, diretor de Estudos Macroeconômicos do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea).

A retração de 0,3% na indústria geral em janeiro, na comparação com dezembro, não muda a análise da Rosenberg & Associados de que a produção continua em um processo de expansão. "Esses movimentos são comuns nas comparações mês a mês. Mas a comparação com janeiro do ano passado e as médias móveis mostram que esse setor está aquecido", diz Fernando Fenolio, economista da consultoria. Ele pretende, inclusive, alterar para cima a projeção de crescimento de 3,5% para a indústria em 2007.

Ainda que o IBGE tenha revelado na semana passada que os estoques contribuíram com 0,5 ponto percentual do Produto Interno Bruto (PIB), Levy pondera que os dados do IBGE precisam ser olhados com cautela, já que o grosso nesses estoque são produtos agrícolas e rebanho bovino.

Roberto Olinto, coordenador de Contas Nacionais do IBGE, esclarece que a variação de estoques da indústria no curto prazo é, atualmente, pouco significativa economicamente. O IBGE ainda não tem os dados de estoques do ano passado separados por setores, mas acredita que eles tenham seguido o mesmo padrão dos anos recentes. Cerca de metade desse dado reflete a parte agropecuária, mais 10% ficam com o petróleo. "O grosso do estoque que medimos é formado por esses setores e pela produção de ferro", afirma Olinto. Para ele, hoje em dia as empresas trabalham com reservas de produtos cada vez menores, uma vez que manter itens estocados exige um alto custo. "Elas preferem diminuir a produção e atender os pedidos conforme vão chegando", diz.

Ele afirma que muitos analistas se equivocaram no segundo trimestre do ano passado quando a produção industrial cresceu pouco e o consumo das famílias veio forte. "Olharam para os estoques e acharam que eles tinham crescido. Mas o estoque que cresceu foi o de produtos agrícolas, como o fumo, uma vez que era sua época de colheita. E esse estoque vai sendo utilizado ao longo do ano para a produção de cigarros", explica o coordenador. Na avaliação de Olinto, o que explicou aquele movimento foi a expansão vigorosa da importação. "Basta olhar para o varejo que cresceu a oferta tanto de macarrão italiano quanto de aparelho de DVD chinês", comenta.

Levy, do Ipea, diz que é difícil avaliar de forma precisa o que tem acontecido com os estoques, já que não há um dado definitivo. E argumenta que é muito mais simples identificar esse movimentos de acúmulo de produtos nos setores associados aos bens primários, sejam minérios ou agrícolas, do que nos itens industriais. E o IBGE não pretende aprofundar essa análise. Segundo Olinto, a nova metodologia de cálculo das contas nacionais não inclui nenhuma mudança a respeito da medição dos estoques. "As relações intersetoriais são menos claras na indústria, é complicado ver quanto de cada produto produzido por usado por cada setor", explica Levy.

Ainda assim, o diretor do Ipea acredita que o descompasso entre o crescimento de 6,2% no varejo e de 2,8% na produção industrial em 2006 indica, sim, aumento da importação e queima de estoques.